No palco da praça, ao cair da tarde,
falei para Évora — serena e sem alarde.
— “Ó Évora, cidade branca ao sol dourado,
porque teu silêncio parece tão sagrado?”
E ela respondeu, com voz de muralha:
— “Guardo o tempo
onde a memória não falha.
Nas pedras romanas ainda vive o verão,
e cada janela conhece cada canção.”
— “Teus sinos parecem rezar devagar,
como quem ensina o céu a escutar.”
— “São ecos antigos do povo alentejano,
que planta saudade na palma da mão.”
— “E as ruas estreitas, por onde vão?”
— “Levam sonhos lentos ao coração.
Quem anda comigo jamais anda só;
trago lua nas fontes e vinho no pó.”
— “Cidade de mármore, calma e poesia,
de onde vem tua melancolia?”
Ela sorriu sob a noite crescente:
— “Do canto da cigarra e do vento quente.
Sou feita de tempo, de pedra e esplendor,
sou Évora inteira bordada de amor.”
E eu, já rendida ao encanto dela,
vi estrelas nascerem através da janela.
Então disse baixo, para ninguém ouvir:
— “Há cidades bonitas…
e há cidades que sabem sentir.”
Maria Antonieta Matos
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