PESSOAS (contexto satírico-satânico)

      Sonhei, melhor dizendo, tive um pesadelo no qual senti que as pessoas em geral estão cada vez mais feias e arrítmicas, sonsas e tóxicas. Ora, as pessoas estão iguais a vulcões jogando seu magma para todos os lados; e tão forte me veio esta sensação na madrugada, que acordei ensopado, e gritei "mamãe", mas ela estava decerto na 'fase rem do sono', e não lhe foi possível me ajudar. Chorei e soltei palavrões, jurei matar toda justiça e toda injustiça, ser mais admirado do que o raro Gêngis-Cã; por outro lado, ser um torturador mais terrível do que o espanhol Torquemada, e, imitar o piedoso Czar de Todas as Rússias: IVAN IV, O TERRÍVEL. Sim, preciso piorar, matar o que me mata, ou que apenas me aborreça. Começarei no entorno imediato, tudo porque tive um sonho que foi pesadelo. Meu amigo Dostoiévski disse que "a beleza salvará o Mundo", mas eu disse a ele que isso é utopia - ele chorou, logo ele que escreveu Crime e Castigo, Os idiotas. Pois é, ira e ansiedade, enquanto me preparo com umas doses de caipirinhas, olhos nos olhos do povo. Meu amigo Bel (Bel é só para os íntimos), qu é o amigo Belzebu, está triste, porque só lhe chega gente ruim, a ralé, a escória, o cocô, a súcia, a êmese e a hemoptise, só chega gente com câncer psicológico, o populacho, a massa de fracassados, ácaros, só lhe chega a pior nuvem, a escala moral mais baixa, a escumalha, todos os vilipêndios, iras, dumping, todas as tralhas que o pobre Homo sapiens inventou. Desanimado, enquanto íamos de uma palavra a outra, de um trago e um petisco a outro, desconsolado, ele me disse que colocou sua Casa, o Inferno, à venda numa imobiliária. Ficamos num silêncio danado, mas ele vai comprar uma pequena chácara na aposentadoria. Disse-me: "Haverá aposentos para ti e tuas gatas." Este é o generoso Capeta que eu conheço. "Soy feliz, soy un hombre feliz / y quiero que me perdonem..."*

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