Darlan de Matos Cunha

Darlan de Matos Cunha

n. 1951 BR BR

n. 1951-11-22, Medina, MG

Perfil
61 446 Visualizações

Amanhã é longe

Amanhã é longe mas não redimirá 
o quanto poderás ser ou não ser nele,
e não digas nada, absortos não falam
embora comam íleos e bebam teores
nos mamilos da Mãe Pressa, sim
amanhã é longe de já não teres como
o alcançar seja como for
mas talvez tenhas ainda alguma ira;
humano demasiado humano 
a escassez geral medra de tal forma
que um rei disse algo sobre 
"bombardeio informático".

Ler poema completo
Biografia
Darlan M Cunha publicou os livros Umma (romance, Editora Virtual Books - Pará de Minas, MG), Esboços e Reveses: o silêncio (poesia, Editora CBJE - RJ), O ar em seu estado natural - Textos sobre letras do Clube da Esquina (Editora CBJE - RJ). Entende-se com um instrumento musical, tenta aprender entradas e bandeiras, preparando-se para encontros e despedidas, apreende algo mais da sociologia e da psicologia dos fatos cotidianos.

Poemas

404

Amanhã é longe

Amanhã é longe mas não redimirá 
o quanto poderás ser ou não ser nele,
e não digas nada, absortos não falam
embora comam íleos e bebam teores
nos mamilos da Mãe Pressa, sim
amanhã é longe de já não teres como
o alcançar seja como for
mas talvez tenhas ainda alguma ira;
humano demasiado humano 
a escassez geral medra de tal forma
que um rei disse algo sobre 
"bombardeio informático".

4

céu da boca [o nascimento da tragédia]

palavras soltam seus molossos
há as que respiram por aparelho
muitas afagam algum retorno
outras mistificam ou maldizem
o próprio entorno
e se umas pensam, outras enjeitam
falavras são ruas estradas macas
premissas & promessas
psiquismo avariado 
falavras formam versículos e sutras
enfeitam muros e matam honras
são soldados padres putas
principalmente desertos no céu da boca
essas pedras rolantes
são o diabo no seio do redemoinho

8

Conluios

conluios maquetas inventários
nada a limpo em momento algum
ó, ninguém soube dizer
como o velho barco ficara na praia 
por décadas, e de repente sumiu
e nenhum peixe deu pelo fato
de que um barco desaparecera do areal
onde o instalaram com ondas sem capital

1

Falso


Agora em ponto morto o que era acelerado.

Síntese eu não sei o que é, sabemos
das rachaduras, das trincas e manchas 
nos lares, tudo parece
nos trilhos, todos fingindo-se felizes

mas em ponto morto tudo está

a casa é quase que só dormitório
sob o jugo da procura
já vencida em seu tempo de encantamento
em noites de luzes artificiais

Eis
a estrutura de moer carnes e mentes, 
e assim essa ópera dos mortos continua
dando cartas, reagindo por trás da máscara.
Todos fingindo-se felizes.

 

*: Ópera dos Mortos é alusão ao título do livro de Autran Dourado (1926-2012, MG)

813

Fake


In neutral what was accelerated, but symphysis
I don't know what it is, we only know now
from cracks, cracks and stains
on the walls and the foundations, everything
seemed on the rails, pretending to be happy
everyone, but in neutral everything is, the house
it's just cockroach bark and amputated ants
under the yoke of tiny being, dread in the shop windows
in the old night of artificial lights, yes, in reverse
the old structure of grinding meat and minds - opera of the dead*
crowning the days of the living, all reacting
as a zero behind the mask.*



*: Opera of the Dead is an allusion to Autran Dourado's book (1926-2012, MG, BRAZIL)
Translated with www.DeepL.com/Translator (free version)

894

Mural



Sentados no meio da neblina
no muro de pedra de sua casa
os alienados captados pelo estranho
contentam-se com o silêncio
numa tez sem expressão normal
e quanto mais lhes passa o dia
nada de mais e nem de menos valia.
Talvez vejam o que não podemos.

874

Desdouro

A mim, de pouco serviu
enquanto ficava no ar
nem depois que partiu
pelos cacos por catar.


[creia: assim mesmo está

num muro da aldeia]

14

Vapor



O amanhã demora a chegar
mas chega e inspira e respira
com desconhecido método
abrindo catarse exemplar

anodinia e metástase
abertas à flora e à fauna
ao humano, mas logo passa
e deixa para trás o assombro
pelos baldes de água fria
num punhado de mãos vazias.
896

Silensidão

A mãe morreu em pouco
tempo (mãe de quem
e de quanto tempo se fala ?
Aqui, nada se explicita), 
silensidão é a praxe 
neste entorno vivalma não há

que se lhe meça os colhões
ou o diâmetro dos seios
(coisas poucas, sim
nada de latim - paucas sed bonas - 
menos ainda ir ao tradutor
onde tantos se roem por if of off.

Pois bem, o pai foi de suicídio
mas sobreviveste (aqui, tudo
é breu, calotes ao previsível),
a irmã é da moda, vive o relho 
mas o verdadeiro espelho aí está
de nome anamorfose, sempre 

deformador, reformador, realista ?

849

Rota da sede

Nessa rota há muitas noites e dias
mas aqui não se abre voz para o que virá
menos ainda por um certo passado
com hierógligos, caracteres, ideogramas
dicionários, enciclopédias e relatórios
dando contas falsas de vertebrados
e invertebrados, mas pela conta da míngua
justiçados - para o bem ou para o mal, tanto
fez e tanto faz, que nada disso a essa rota apraz.

Nada ao furtivo, menos ainda ao lascivo,
os viajantes entram nas linhas do tempo
presente, demente ou não, praticam noções
estranhas às minhas, que assim é o embate
entre o forte e o fraco, e se venço
alguma ilusão numa troca de mercadorias
não abdico de beber luz do Diabo ou de Alá
nessa perigosa rota aberta ao benvirá.
831

Livros

2

Comentários (3)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Bopa poesia Darlan (continua)

Sônia Brandão
Sônia Brandão

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

sergioricardo

Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.