Darlan M Cunha publicou os livros Umma (romance, Editora Virtual Books - Pará de Minas, MG), Esboços e Reveses: o silêncio (poesia, Editora CBJE - RJ), O ar em seu estado natural - Textos sobre letras do Clube da Esquina (Editora CBJE - RJ). Entende-se com um instrumento musical, tenta aprender entradas e bandeiras, preparando-se para encontros e despedidas, apreende algo mais da sociologia e da psicologia dos fatos cotidianos.
Eis em ponto morto o que estava acelerado, síntese não sei o que é, mas já sabemos das rachaduras, das trincas e manchas nas paredes e nos altares, tudo parecia nos trilhos, fingindo-se felizes todos, mas em ponto morto tudo está, a casa é quase que só baratas e formigas sob o jugo da procura, o pavor nas vitrinas na noite de luzes artificiais, sim, eis em ré a velha estrutura de moer carnes e mentes, uma ópera dos mortos vai coroando os dias dos semivivos reagindo como um zero por trás da máscara.
*: Òpera dos Mortos é alusão ao livro de Autran Dourado (1926-2012, MG)
Darlan M Cunha publicou os livros Umma (romance, Editora Virtual Books - Pará de Minas, MG), Esboços e Reveses: o silêncio (poesia, Editora CBJE - RJ), O ar em seu estado natural - Textos sobre letras do Clube da Esquina (Editora CBJE - RJ). Entende-se com um instrumento musical, tenta aprender entradas e bandeiras, preparando-se para encontros e despedidas, apreende algo mais da sociologia e da psicologia dos fatos cotidianos.
Prepara-te para o tempo do não posso mais, para isso é preciso ir ao fim saciando toda ânsia e todo rumor preparando a estante na qual guardar a fortuna crítica plena de aversões segundo um urtigão urbano, roendo e roído, matando e sendo morto porque todos os dias há ressalvas entre os iguais e seus contrastes, assim prepara-te para o tempo do não posso mais.
515
Ganas
Esconde a feiura franksteiniana, ciclópica, por trás da barba, do bigode, dos cílios e das largas sombrancelhas, sobretudo, pelo que leva em silêncio na bolsa.
Escondes tua fartura de que modo, com quais artifícios, manhas e artimanhas: com um extrato forjado mostrando saldo devedor ? Blimunda, Portugal é onde ? Longe ?*
Respondes à leitura dos aparelhos com qual tipo de ação ou de reação: contrito como uma beata, irado como um burro diante do mata-burro, resignado feito apóstolo
pelo sonho-avidez ejetado por ter sido esquecido no testamento, tornando-te outro abintestado, ou simplesmente andando e urinando, assobiando e chupando cana ?
Iscariotes, quanto é que a tua marca deve aos cobradores gratuitos, sem nexo, sem base para que pulem no teu cangote os de ontem e os de hoje ? Israel é onde ?
Atento esteja-se aos miúdos do dia e aos esboços feitos à noite, mas a vigília cansa e até mesmo deturpa as pessoas, que já não copulam, não almejam, não riem e
não condensam água nenhuma, já sem referência que não a de vigia-curral, carcereiro sem bodas, ele também um preso, dizendo \"diante dessa dor curvam-se os montes [...] Há dezessete meses eu grito.\" [...]*
*****
*: Blimunda é uma personagem do romance Memorial do Convento, de José Saramago (Portugal, 1922-2010) *: Ana Akhmátova (Rússia,1889-1966), no poema Dedicatória, e poema 5, do livro Réquiem
497
Salmos e Suratas
Os mentirosos falam, tu os escuta romancear e cantar maravilhas que nem o céu concede, e assim os enganadores sufocam a teimosia de alguma liberdade que possa ter sobrado em cada um e em cada uma.
Dia após dia, viveu o desamor sentindo os pensamentos de satanás queimando sua boca, o destoo chutando-lhe a bunda num canto qualquer da casa, nas brenhas do quarto porque assim é o pudor: de evitar-se a mensageiros.
493
X e Y
Mal saído do aquecimento e já em dois cantos ou cantares de azar dividido o amor, mostrando que o areal quente, às vezes, mente, enquanto distorcem normas os amantes ?
539
O entorno
Voltar a sorrir, não porque seja algo natural mas por ter se tornado inatural, não isento de culpa, de modo que quem o pratica está sujeito à dissonância, pelo que se diga: Voltar ou não voltar, eis o peso a insustentável leveza.
539
Sinais não antevistos
A vida lhes foi assim de árduo em árduo nos atos e ausências, de fatos a fetos ela foi de fêmeas displicentes e machos dementes a vida lhes ocorreu assim, pelo que não veem na cruz arremedo de luz, sentindo que a vida não se cansa de esperar, espantam-se por isso por não estarem sozinhos/as na trilha vivendo apenas de esperar o fútil e o inútil - esperar passou de verbo para realidade.
484
O retorno
À reiniciação do fogo na aldeia fique-se atento sob pena de ter lascas de mármore sopros com vidro e corte, ciência de morte de pé à porta, como um aviso de que a heráldica com a sua velha prática saiu das salas e corredores e já mostra ser a mesma.
494
O prenome do veneno
A primeira das perguntas voltou com a sutileza deixada ao largo talvez devido à ida a portões bíblicos quem sabe após canecas de vinho com Jesus, pedreiro de profissão ?
A primeira em meus tormentos vingou pois aqui está com o caule renovado e um veneno desconhecido por mim.
518
Rumo
Partido, o avião aterrisa no horror, nenhum vácuo pôde envolver a história de sua última razia, talvez alguma esperança não, nenhum açúcar ardeu na boca dos imolados.
Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.