amanhã é longe

amanhã é longe

2026

Muito se fala de dificuldades vividas e imaginadas; muito se quer do osso já sem tutano, dos degraus, muito se fala do amor com suas réplicas e tréplicas, fala-se do psiquismo avariado, das bocas angustiadas, dos conceitos vencidos em seu tempo de encantamento, de homens ocos e de sua mãe pressa. Entanto lutamos.

ambos & todos

Muito antes do poema sujo
da ponta de areia 
da cor creme das paredes
da bandeja cheia de trópico
do alvoroço vindo de longe
da criança no andar de cima
muito antes

da virgem chorar e gozar na rampa
do grito na ponte
do escárnio na bolsa de valores
de sapo e sapa fazerem o natural
muito antes que a alegria ficasse
no caminho da alergia

já te havias com o espanto
de riscos e risos e com as faces das pedras
que outras manhãs continuam a polir
rumo a serem areal.

Gestos, ecos e sombras

Estás no palco como atriz ou ator 
morto ou morta, 
procurando com falas e gestos

o que nunca encontrarás de fato.

Lembra

és o palco, e por extensão o que ele visa
e circunda e afeta devagar
a cortina parece só saber vaguear
desces até o fosso da orquestra
e retornas à fala solitária

não há público nem poltronas nem cenário
nem proscênio nenhuma censura
para uma peça não escrita
tudo por conta do imaginário.

Lembra, corpo.

A QUE VEIO ?

A que veio este insone
esse leque misto de sombras
e de lume
aberto em breves saltos
ou espasmos
de quem não sofre epilepsia
mas talvez seja corte sem sutura ?

A que veio esse paradigma,
quem lhe viu algo do imo ?

Quem é capaz de dormir
com dúvida nas entranhas
a respeito de algo ou de alguém
ou que pressente 
que esse que aqui veio
e que entre nós continua
com vírgulas e outros espasmos ?

Certeza é que sua trama 
ainda está por se mostrar
total, decerto maior
do que a dúvida
não sendo nem fusão e nem fissão
e não menor do que a potência
do sal no ritmo das ruas.

Lembra que é nas ruas
que os fatos mais acontecem.

as margens

todos muito tensos 
laivos de apreensão  
por quem para trás ficara
após a atitude necessária
de se construir uma ponte
entre surdos e mudos da Aldeia -
algo pela nova mensagem 
para os da casa.

Barco



Se o barco se perde em meio à névoa,
e se os homens se afligem pelo aviso
das ondas tocadas pelo furor do vento,
resta-lhes - se tempo houver - a lembrança
de mímeses e simbioses, jogos de azar
no bar do cais, as pernas e os braços
do domingo sabendo a peixe ensopado,
resta-lhes ainda - se tempo houver -
ouvir o rumor de um sorriso distante.

Antônia

Jogando forte para não perder o costume  
de ir passo a passo, sem morder moeda
nem desfiar, ela se sabe capaz

de um improvável sermão e senões
em montanhas do nunca antes.

Antônia atende pelo nome feminino
do pai, figura difícil, de colo ausente, lente
ou quase demente, de riso
pouco o pai em sua esteira de honradez.

Clarisse

Clarisse num vazio de dar dó
porque se a vida para tantas é piedosa
para mil outras é só impiedade

a vida como ela não é é a que mais se vive
a que mais se vende no mercado de rugas
nos meeting literários 
nos falsos e nos reais epistolários

[Onde anda você, atitude ?]

Clarisse com a cara a tapas por nada
sobre o vaso deitada - o choro por testemunha.

Núria

Uma leveza ímpar
de se encontrá-la na mesma
praça na qual moraria

dando logo de cara 
com o que
nunca antes
pois o espanto não dorme

Nada de avanços brutos
ecos antigos os supunha
limpos e ilesos de pressa
e assim outros sestros
logo os poria à prova 
de que uma casa se faz
com um tijolo por vez

Escola de rugas

Sem tempo para se coçar, vigia geral
quem não marca presença
no pavio na resina e no rastilho
do recado bem dado
mesmo que sem tempo para se coçar, alimenta  o assunto
que ao Outro, sem cio, parece vazio.

INQUIETAÇÃO NUMA POLTRONA DE VIAGEM

Fuso de 13 horas me separa de gente amiga
em Sidney, eis o peso e a leveza
do que pode haver nas distâncias

todas elas tão senhoras de si
que ainda que você ligue o ajudante
continuarás 13 horários distante 

Eis o mundo abrindo espaço 
a um estranho modo de viver 
mas é o mundo que se tem, por ora

Humano demasiado humano*
como Nietzsche percebeu o dele, e eu o nosso.

@2
Fuso horário de 5 horas me separa de gente
amiga na Noruega, mas aqui estou
como se diz o ditado popular:
firme que nem prego no mingau
entre música e salada de ovos 
almeirão rúcula espinafre e azeite
e também ainda algum riso.

@3
Mas fuso horário sem extensão de tempo ou de km
a ser medido é o que me separa de quem
do outro lado da rua vive.

katana

a lâmina guardada

ao longe o que foge e volta
a lâmina respira
seu talhe seu amor

o inimigo descansa
sua soberba 
sobre alfombras e mulheres

amanhã conhecerá
katana

Nove

Pelos nove buracos do corpo
entram e saem motivos novos e antigos
assim atuam as nove entradas e saídas 
de cada um e de cada uma
o que pode nos remeter aos
nove infernos da divina comédia.

Nove círculos ou mais



O Diabo agarra-se na crina da mula
esporeia a aflição com o fogo de sempre
no seu jogo de mestre da sombra
tomando a si a depuração dos crentes,
que o Demo em sua elegância
em sua presteza e leveza de intentos
cava e escava, tece e retece em torno da soberba
o fio condutor ao melhor de sua Casa
onde o amor vai de penetra
mas nenhuma queimadura sara ou vaza,
e o castigo, segundo o povo, vem a galope, não se atrasa.

Novembro

Ainda que distante   
já sentes a boca de novembro
seu bafo sua aura quase demente
por uma ano ausente
mas lá vem ele de novo
cada vez mais se faz adversário
[quando jovem, tal chegada
é aniversário; depois, adversário].

Ainda que distante
novembro envia cargas elétricas
pelo que testas as pernas
e os braços ainda capazes
de um forte abraço.

A Casa

Há pouco tempo ocupamos o térreo

mas é preciso saber o melhor prumo

para as paredes, a ciência para o teto

os segredos do solo, o entorno é uma  

incógnita que grita, e outras vezes

é silente como o universo ou um crime

meticuloso, perpetrado com luvas.

Estamos no escuro, mas a caminho.

 

Descemos há pouco da casa antiga

e assim o nosso andar ainda é tosco 

e até funesto, todos os membros ainda

com amplitude menor, damos ao sono

importância maior do que às féculas

encontradas, às nascentes e ao hálito

que puxa para cima o que sob a terra está. 

Estamos a caminho há pouco tempo.

Antes da sátira



Um homem deve ser capaz de adotar
o improvável, de buscar nele a garganta
as perdas em diagonal, furar o bloqueio
do entorno que lhe vede os caminhos ao erro.

Um homem tem de se suprir
daquilo que depura: a dor é mãe da cosmogonia
pedra-ímã, pedra-senão, enfim
não desfiar tempo contando minutos -
que todos eles enganam de um modo ou de outro.

Gomorra e Sodoma


Tudo como antes ?
nunca 

nunca abraçar uma razão 
sequer meia razão

que desarme o circo
que não replante o pomar

que não se inteire
com a música de cama.

Grãos

Triturar os grãos de dúvida 
na medida exata de sua índole
requer atenção do tamanho
de cada um - eis uma lição de coisas
em falta na correnteza deste rio
que leva o meu nome.
Estranho acontecimento é esquecer.

Intuição perdida numa espera

Intuis um cantar diverso do teu
e isso te salva
do que não queres
perder

intuis que o sol pode
desabar sobre as cabeças

e vamos assim: dobrando lâminas
e esquinas e nadando em cada
solidão que aparecer.

Não antes, depois

Depois de tudo, de todos os inícios
ainda se pode ir longe, depois
dessa vida de nós, vamos então
piorar as coisas, melhor é ser temido 
sendo como não somos.

Vamos ao depois, antes que o mundo 
se feche de vez, antes do açoite final
o tempo está velho - façamos algo inusitado

morrer é antiquado, pelo que anular o grande medo.

O ar difícil

Ando na mesma sala de onde outros membros 
fluíram ou pararam, atados a algo forte
como uma colheita em vias de ser a última.

Faz um longo tempo que não se falam
mas talvez os caminhos em separado
os tenha melhorado
tenham aprendido métodos de prevenção
contra o Outro.

"Viver é muito perigoso" - dizia um certo João Rosa.


Água riscada



O navio aporta, ninguém recepciona
e no casco não há som nenhum
nenhum repasto nas mesas

Por quê os marujos e os gatunos de turismo
não vagueiam pelo convés ? 
Não há nada no navio
incapaz de levantar âncora.
 
O que houve com quem casou-se a bordo ?
O que houve com os botes  ?

A capela saqueada por alguém com pressa.
O que houve no navio que aportou sozinho ?

Ainda

Muitos já aventaram o óbvio
colados às insígnias de bares
apegados a margens do Nada
escorreitos e ao mesmo tempo
pendentes de todo com a clareza

muitos já disseram o óbvio:
os números governam o mundo
ah, elementos não faltam para isto
soar como catarse ou até mesmo
para coar prendas domésticas

muitas cicatrizes ainda roxas
o rubro teor da maioria dos dias
não nega ao Homem sua índole
seu natural de falar com uma boca
e ouvir com ouvidos que não os próprios.
amanhã é longe · Darlan de Matos Cunha · 2026
Livros