Amanhã é longe mas não redimirá o quanto poderás ser ou não ser nele, e não digas nada, absortos não falam embora comam íleos e bebam teores nos mamilos da Mãe Pressa, sim amanhã é longe de já não teres como o alcançar seja como for mas talvez tenhas ainda alguma ira; humano demasiado humano a escassez geral medra de tal forma que um rei disse algo sobre "bombardeio informático".
Darlan M Cunha publicou os livros Umma (romance, Editora Virtual Books - Pará de Minas, MG), Esboços e Reveses: o silêncio (poesia, Editora CBJE - RJ), O ar em seu estado natural - Textos sobre letras do Clube da Esquina (Editora CBJE - RJ). Entende-se com um instrumento musical, tenta aprender entradas e bandeiras, preparando-se para encontros e despedidas, apreende algo mais da sociologia e da psicologia dos fatos cotidianos.
Sob temporal a aldeia grita mundo gasto mundo, onde já se viu o amor não reagir ao coma o pavor não ter fundo?
Se alguém sonha deus na terra e ele no céu, é viável essa troca já agora com o fim à vista de fauna e flora e da humana hora ?
798
Vulto
O exercício de esperar na alça de mira dias a fio é o que convém ao caçador aflito pelo vulto que não se dá à lupa, ciente de que rochas e árvores têm ouvidos, mas caçar tem refrão - menos o sim do que o não - e assim, às vezes, o obsessivo mirar não serve a quem, por trás da árvore ou da neblina das palavras (caçar exige silêncio), se perde na selva de memórias nas quais os tiros saíram pela culatra, puro exercício de inquietação.
386
Diamantina
Onde ouvires gemidos e súplicas sob tenazes em riste não te vás de chofre: ouvir é preciso, navegar é secundário, aqui onde os brilhos da terra - foscos ou lascivos - atraíram venturas e desventuras amarelas
pedras verdes ou de um branco translúcido, amargo pelas contas que só as carapinhas podiam contar essa história eivada de sobe-e-desce.
Eis Diamantina, a dos garotos músicos, onde parei nos acordes dissonantes de um mamute de nome História, que assim é o que sob pedras se esconde: dura de muito durar.
381
Hesíodo
Os dias custam caro os olhos da cara o dorso do leão e da leoa a paleta da sépia o ânimo dos hemisférios tudo sob peso aumentado os trabalhos e os dias nunca livres do bolso os dias custam os tubos ao coração e ao cérebro nada lhes resta senão azedarem-se criando corvos e outros estorvos nenhum riso nos cantos da boca nem nos poros cheios cada vez mais de água salobra e seus ais.
341
Migrar
1.
Migrar por uma necessidade imperiosa e não como este abajur sendo levado da sala para o quarto
migrar é sina muito antiga, está na primeira página, no primeiro mar, na primeira trilha que o pavor abriu.
2.
Numa igreja em Roma uma moça toca sete sinos ao mesmo tempo (títeres ela toca) mas não consigo desvendar os desígnios divinos de nenhum deles - graves e agudos
todos entram e saem de mim sem deixar vestígio ao passo que a moça parece dar-se a eles como a gazela e a girafa
ao rio: pernas abertas, volúpia e medo crescentes que o demônio delas está noutros dentes.
369
Nômade
Vastidão é o termo para um leito seco de rio, por onde flui a fio de espada a vida passada a limpo, ou não, por vascas razias desertos sermões algas mármores gavetas e outros zelos, ó vastidão é onde repousa o talvez a dúvida que certos nômades nunca abrem em si e nos outros, firmes cientes de como é único sair das luvas e das galochas das gavetas onde se guardam os açoites.
Noites em branco são longas, gritam.
362
Arritmia
(e porque o diabo não se dá ao pouco
em nenhum momento pediu pelo nome de deus
pelo que não fez pelos seus nada pediu
ao sobejo à solércia e ao estigma
o desprezo sendo suas guias no espaço
que o equador divide e o homem adquire)
352
Ato único
Por falar em amor, o que te mostrei era tanto que se acabou
e por falar em ator e atriz a postura zen não nos serve nem nas escadarias do Ganges ou da Muralha
e se no teatro Kabuki entra no palco um homem com voz de mulher este painel, essa realidade não nos serve
muito embora, segundo uma canção, de tudo se faça canção e caução, mas voltando à desejada das gentes, o que me deste lá mesmo no palco acabou-se
feito peça curta para entretenimento puro teatro de sombras.
567
Com que roupa ?*
Por que essa roupa a escolhida, entre outras sedentas de verem o dia e a noite vivendo toda a assimetria social calcada em histórias e estórias de tantos que se foram, de muitos que por aí estão vestidos de baratas tontas, ou não ?
Por que se escolhe essa e não aquela fivela para compor o fato, essa camisa e aquela calça bem como o intento vitorioso de certa cor ?
Não pergunte não responda - diz a canção.* Vá do jeito do teu dia. Vade retro, criatura.
313
Lâmina
A lâmina que abre o alimento fere a tábua com riscos que lembram a peruana Nazca, ó Belzebu, tal cozinha é o avesso do que conheço de cortes e de fogo em alto e baixo relevo, e se a ela me atrevo mais me quero distante dessas paredes com enredo de palatos em lascívia, nenhuma fobia no ambiente onde a faca abre, corta e recorta convidando a que se abra a boca e se feche a porta.
Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.
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