Lista de Poemas
Casa nova
da boca, e um laivo de apreensão pela dor
do que para trás ficou com a mudança
[isso difere em muito de uma transposição temporária
de um rio para se construir uma barragem]
pela alegria da nova paisagem
a partir da qual talvez seja outra a nova mensagem
para os da casa.
Partimos bem cedo até o novo, a família cora e chora temas adiados
amores concretos sob concreto e ferro assoreados, eis
os ombros do dia e as pernas do descanso
ficar é viver, ir é viver.
Não me recordo de quando éramos pequenas gruas
agarrando e soltando pedaços de felicidade, não me recordo
dos primeiros mamilos
subsequentes aos de minha mãe, mas em branco se pode passar
mas se há lividez e rigidez em vida, há calor de ímãs
e aqui estamos lisos na nova, algo indefinido avisa que há saídas
várias, e os primeiros sanduíches já no improviso do chão.
Ainda
colados às insígnias de bares
apegados a margens do Nada
escorreitos e ao mesmo tempo
pendentes totais com a clareza
muitos já disseram o óbvio:
os números governam o mundo
ah, elementos não faltam para isto
soar como catarse ou até mesmo
para coar prendas domésticas
muitas cicatrizes ainda roxas
o rubro teor da maioria dos dias
não nega ao Homem sua índole
seu natural de falar com uma boca
e ouvir com ouvidos que não os próprios.
Lugares
e praças / porque roupa suja se lava é ao ar livre / sejam assim os olhares de casa / sem sombras, fungos, atrasos. / Pensando melhor, os fatos acontecem é em todo lugar / a todo momento. Impossível estar.
Tema
Salvo engano, às vezes, parece que a morte não dá satisfação nem a ela, é sonsa / vivendo trôpega, de déu em déu, de maneira que ela mal devora uma existência / outras têm de ser visitadas / Este é o ciclo de sua divina comédia, memórias falsas de um cotidiano real.
Salvo engano, a morte é solitária - cada qual com a sua.
RETIRO
Nessa terra que agora vês, fechada em si,
mas não a salvo de todo, em que pese o tom
de seus cálculos, a essa terra volto, contigo
por aprendiz, sem vezo de obrigação, saiba
que aqui se esfola padres e se come porcos,
nessa terra sem palavras, ninguém se empedra
sob nenhuma dormência, lado a lado com
a dúvida, os nativos matam, sem peso na alma,
o que não existe: o amanhã. Estranha aldeia.
***
COMITÊ POPULAR ( a praça é nossa)
Sempre se disse que o próximo passo
só será igual a ele mesmo, mas que talvez
já não haja tanto espaço
para o que dele se pretende. Então, quais noções
serão cortadas pela raiz ?
quantas dúvidas a mais terá o futuro, se
ainda só se fala ou só se joga alto no escuro ?
***
Clareia
Escuta: não te iludas
em buscar tempo perdido,
flores de plástico na mesa
triste, vazia, não
não sairás vitoriosa
deste e de nenhum outro
encontro, seja ele um
boi bravo – e tu sem cancela –
seja ela uma ventania
de largo espectro. Entenda.
- Darlan M Cunha
Passeio a esmo
Muitas vezes o poço seca
vai ao fundo todo sentimento
a percepção caindo no vazio
o tato perdendo-se sem idioma
dicionário incompleto - o mesmo
que se calava diante do inevitável
não dormia com o imprevisto
não doava sangue aos dias.
Fuse (Classes with my Mom)
The hands say: Be strong and satirical
at the same time, do not be a mere user.
The feet say: Keep calm, do not rush, remember
that erection is important.
Keep calm, don't run, because nothing can be done
against your weakness.
Salmos e Suratas
Os mentirosos falam, tu os escuta
romancear e cantar maravilhas
que nem o céu concede,
e assim os enganadores
sufocam a teimosia de alguma
liberdade que possa ter sobrado
em cada um e em cada uma.
Pois é, se esquecer é danoso,
o melhor é mover pares e ímpares
e atar nos eleitos as catapultas
e os rastilhos, sem ouvir-lhes
as nênias as lérias e outras balelas
acompanhadas por atabaques
feitos de couro humano ©.
Os mentirosos abrem-se no vento
mas já não irás de balonista com eles.
Comentários (4)
Bopa poesia Darlan (continua)
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.