Lista de Poemas

Curva



Prepara-te para o tempo do não posso mais,
para isso é preciso ir ao fim
saciando toda ânsia e todo rumor
preparando a estante na qual guardar
a fortuna crítica plena de aversões
segundo um urtigão urbano, roendo 
e roído, matando e sendo morto
porque todos os dias há ressalvas 
entre os iguais e seus contrastes, assim
prepara-te para o tempo do não posso mais.
 

501

Ganas



Esconde a feiura franksteiniana, ciclópica, por trás da barba, do bigode, dos cílios e das largas sombrancelhas, sobretudo, pelo que leva em silêncio na bolsa.

Escondes tua fartura de que modo, com quais artifícios, manhas e artimanhas: com um extrato forjado mostrando saldo devedor ? Blimunda, Portugal é onde ? Longe ?*

Respondes à leitura dos aparelhos com qual tipo de ação ou de reação: contrito como uma beata, irado como um burro diante do mata-burro, resignado feito apóstolo

pelo sonho-avidez ejetado por ter sido esquecido no testamento, tornando-te outro abintestado, ou simplesmente andando e urinando, assobiando e chupando cana ?

Iscariotes, quanto é que a tua marca deve aos cobradores gratuitos, sem nexo, sem base para que pulem no teu cangote os de ontem e os de hoje ? Israel é onde ?

Atento esteja-se aos miúdos do dia e aos esboços feitos à noite, mas a vigília cansa e até mesmo deturpa as pessoas, que já não copulam, não almejam, não riem e

não condensam água nenhuma, já sem referência que não a de vigia-curral, carcereiro sem bodas, ele também um preso, dizendo \"diante dessa dor curvam-se os montes [...] Há dezessete meses eu grito.\" [...]*

*****

*: Blimunda é uma personagem do romance Memorial do Convento, de José Saramago (Portugal, 1922-2010)
*: Ana Akhmátova (Rússia,1889-1966), no poema Dedicatória, e poema 5, do livro Réquiem
485

X e Y



Mal saído do aquecimento
e já em dois cantos ou cantares de azar
dividido o amor, mostrando que o areal
quente, às vezes, mente, enquanto distorcem
normas os amantes ?
528

O entorno



Voltar a sorrir, não porque seja algo natural
mas por ter se tornado inatural, não isento
de culpa, de modo que quem o pratica
está sujeito à dissonância, pelo que se diga:
Voltar ou não voltar, eis o peso
a insustentável leveza.
528

Mensagem



Dia após dia, viveu o desamor
sentindo os pensamentos de satanás
queimando sua boca, o destoo chutando-lhe a bunda
num canto qualquer da casa, nas brenhas do quarto
porque assim é o pudor: de evitar-se
a mensageiros.
483

Um velório a cada turno


Velório diurno, na noite do enterro, cercado pelo ambiente de sempre ou de quase sempre, acordou, mas não se levantou, ficou pensando com algum esforço, ainda flutuando na noite do enterro, sem saber se réu ou vítima, amnésia total, sem saber se vítima e algoz de si,* percebeu um rosto, outro e mais outros, mas ninguém lhe preencheu os requisitos da empatia, não conhecia nenhum daqueles traços, daqueles poros nunca sentira, com certeza, nunca lhes sentira o suor e o odor, então, onde e com quem estava ? à mercê de qual embuste estava, mesmo já estando na única dimensão na qual não é possível digressão alguma, nada a cobrar, nada a postegar, nada de c'est fini, nada de pequena morte, e outras tolices grassando nos currais, hipódromos, bacanais, plantações de girassol, de beterraba, enfim, onde houver homem e mulher, e outras encruzilhadas, desvios, ingências mil.

*****

*: Alusão a um verso de Dante Milano (1889-1991)
330

Rumo



Partido, o avião aterrisa
no horror, nenhum vácuo
pôde envolver a história
de sua última razia,
talvez alguma esperança

não, nenhum açúcar ardeu
na boca dos imolados.
557

O retorno



À reiniciação do fogo na aldeia fique-se atento
sob pena de ter lascas de mármore
sopros com vidro e corte, ciência de morte
de pé à porta, como um aviso
de que a heráldica com a sua velha prática
saiu das salas e corredores e já mostra ser a mesma.
481

O prenome do veneno



A primeira das perguntas voltou
com a sutileza deixada ao largo
talvez devido à ida a portões bíblicos
quem sabe após canecas de vinho
com Jesus, pedreiro de profissão ?

A primeira em meus tormentos vingou
pois aqui está com o caule renovado
e um veneno desconhecido por mim.
503

Sinais não antevistos



A vida lhes foi assim de árduo em árduo
nos atos e ausências, de fatos a fetos ela foi
de fêmeas displicentes e machos dementes
a vida lhes ocorreu assim, pelo que não veem na cruz
arremedo de luz, sentindo que a vida
não se cansa de esperar, espantam-se por isso
por não estarem sozinhos/as na trilha
vivendo apenas de esperar o fútil e o inútil -
esperar passou de verbo para realidade.
472

Comentários (4)

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namastibet

Bopa poesia Darlan (continua)

Sônia Brandão
Sônia Brandão

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

Sônia Brandão
Sônia Brandão

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

sergioricardo

Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.

Darlan M Cunha publicou os livros Umma (romance, Editora Virtual Books - Pará de Minas, MG), Esboços e Reveses: o silêncio (poesia, Editora CBJE - RJ), O ar em seu estado natural - Textos sobre letras do Clube da Esquina (Editora CBJE - RJ). Entende-se com um instrumento musical, tenta aprender entradas e bandeiras, preparando-se para encontros e despedidas, apreende algo mais da sociologia e da psicologia dos fatos cotidianos.