Lista de Poemas
Dimensão
à mesma ladainha entregue,
faz força para estar sozinha
à mesa, em vão: sombras
antigas, cruzes do dia
e assombros futuros vão ter com ela
três a quatro vezes ao dia.
Tono
com o desleixo tornado vício, o vício
tornado mais do que insuportável
anomalia de animal sem fundo
palpável, eis
algo do entorno de todos estes e estas
felizes proprietários de dúvidas
sob o peso da suma teológica do consumo.
Voltam da feira como quem ao inferno vai
caiar paredes, lamber botas, enfim, pagar degraus.
Gomorra e Sodoma
Tudo como antes ?
nunca
nunca abraçar uma razão
sequer meia razão
que desarme o circo
que não replante o pomar
que não se inteire
com a música de cama.
Mulher no telhado
O que me resume não está à mostra
não me verga em indiscretas mesuras
nunca se abaixa diante da secura do rei
sequer dá bom dia ao bom deus, não
o que me assume não o faz pela metade
não se joga no chão e não fica por lá
como se fosse uma verdade duvidosa
descoberta no meio de uma madrugada.
O que me teme, de mim se afasta,: a dor
do espinho, a cor do carinho - atados, afastados.
Gomorra
nunca
nunca abraçar uma razão
sequer meia razão
que desarme o circo
que não replante o pomar
que não se inteire
com a música de cama.
Pompeia
de Pompeia ainda arde
aqui
neste lupanar
sou o deus, nu de toda
pompa, nu
comendo o pão
que as cinzas pressionaram
até que me encontraram
como estava: nu.
Consumpção
A Casa
mas é preciso saber o melhor prumo
para as paredes, a ciência para o teto
os segredos do solo, o entorno é uma
incógnita que grita, e outras vezes
é silente como o universo ou um crime
meticuloso, perpetrado com luvas.
Estamos no escuro, mas a caminho.
Descemos há pouco da casa antiga
e assim o nosso andar ainda é tosco
e até funesto, todos os membros ainda
com amplitude menor, damos ao sono
importância maior do que às féculas
encontradas, às nascentes e ao hálito
que puxa para cima o que sob a terra está.
Estamos a caminho há pouco tempo.
Mistério
Sempre há quem compre cotações
premissas e promessas de agiotas
praias, imóveis, contornos de um violão,
enfim, móveis futuros de algum crime
porque na outra conta da realidade
bem visível num peito nu
eis a marca do sutiã e, ativada
entre as omoplatas, uma faca só lâmina.*
*: Alusão ao poema de João Cabral de Melo Neto (1920-1999)
Comentários (4)
Bopa poesia Darlan (continua)
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.