Lista de Poemas

Dimensão

Duas ou três vezes ao dia
à mesma ladainha entregue,
faz força para estar sozinha 
à mesa, em vão: sombras
antigas, cruzes do dia
e assombros futuros vão ter com ela
três a quatro vezes ao dia.
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Tono

Avessos e esparsos eles se querem assim
com o desleixo tornado vício, o vício
tornado mais do que insuportável
anomalia de animal sem fundo
palpável, eis
algo do entorno de todos estes e estas
felizes proprietários de dúvidas
sob o peso da suma teológica do consumo.
Voltam da feira como quem ao inferno vai 
caiar paredes, lamber botas, enfim, pagar degraus.
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Gomorra e Sodoma


Tudo como antes ?
nunca 

nunca abraçar uma razão 
sequer meia razão

que desarme o circo
que não replante o pomar

que não se inteire
com a música de cama.
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Mulher no telhado


O que me resume não está à mostra

não me verga em indiscretas mesuras
nunca se abaixa diante da secura do rei
sequer dá bom dia ao bom deus, não
o que me assume não o faz pela metade
não se joga no chão e não fica por lá
como se fosse uma verdade duvidosa
descoberta no meio de uma madrugada.
O que me teme, de mim se afasta,: a dor
do espinho, a cor do carinho - atados, afastados.


27

Gomorra

Tudo como antes ?
nunca

nunca abraçar uma razão 
sequer meia razão

que desarme o circo
que não replante o pomar

que não se inteire
com a música de cama.
16

Pompeia

Vê como o fogo
de Pompeia ainda arde
aqui

neste lupanar
sou o deus, nu de toda
pompa, nu

comendo o pão
que as cinzas pressionaram
até que me encontraram

como estava: nu.
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Consumpção

Algumas vezes por dia, senta-se e avalia
o que já preparou para o amanhã, atento
a detalhes, e mesmo assim mal se inteira
de que poucos deles servirão às razões
do novo dia, cujo teor terá pesos e medidas
que não os de agora, e se enerva, dá de ombros
ao que todos mais consomem de seu: o Não
na clareira, a carreira a duras penas aberta.
O amanhã poderá não vir - diz uma canção.
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A Casa

Há pouco tempo ocupamos o térreo

mas é preciso saber o melhor prumo

para as paredes, a ciência para o teto

os segredos do solo, o entorno é uma  

incógnita que grita, e outras vezes

é silente como o universo ou um crime

meticuloso, perpetrado com luvas.

Estamos no escuro, mas a caminho.

 

Descemos há pouco da casa antiga

e assim o nosso andar ainda é tosco 

e até funesto, todos os membros ainda

com amplitude menor, damos ao sono

importância maior do que às féculas

encontradas, às nascentes e ao hálito

que puxa para cima o que sob a terra está. 

Estamos a caminho há pouco tempo.
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Mistério




Sempre há quem compre cotações
premissas e promessas de agiotas
praias, imóveis, contornos de um violão,
enfim, móveis futuros de algum crime
porque na outra conta da realidade
bem visível num peito nu
eis a marca do sutiã e, ativada

entre as omoplatas, uma faca só lâmina.*

*****

*: Alusão ao poema de João Cabral de Melo Neto (1920-1999)
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Comentários (4)

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namastibet

Bopa poesia Darlan (continua)

Sônia Brandão
Sônia Brandão

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

Sônia Brandão
Sônia Brandão

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

sergioricardo

Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.

Darlan M Cunha publicou os livros Umma (romance, Editora Virtual Books - Pará de Minas, MG), Esboços e Reveses: o silêncio (poesia, Editora CBJE - RJ), O ar em seu estado natural - Textos sobre letras do Clube da Esquina (Editora CBJE - RJ). Entende-se com um instrumento musical, tenta aprender entradas e bandeiras, preparando-se para encontros e despedidas, apreende algo mais da sociologia e da psicologia dos fatos cotidianos.