Lista de Poemas
Ainda
colados às insígnias de bares
apegados a margens do Nada
escorreitos e ao mesmo tempo
pendentes de todo com a clareza
muitos já disseram o óbvio:
os números governam o mundo
ah, elementos não faltam para isto
soar como catarse ou até mesmo
para coar prendas domésticas
muitas cicatrizes ainda roxas
o rubro teor da maioria dos dias
não nega ao Homem sua índole
seu natural de falar com uma boca
e ouvir com ouvidos que não os próprios.
Cursor
ou será melhor apenas ir
sem perguntas que admitam
óbvias respostas
o avesso de quem quer ver
e mais ainda sentir na partitura do dia
o passar do sol e o sal à mesa ?
Tudo o mais aqui
Tudo o mais aqui se pode dar por dúvida
pendente feito a interpretação de um sonho
mas até que isto se resolva
melhor decerto será reconsiderar conceitos
já arcaicos de índole avessa a pares.
Aoristo: tempo incerto de verbo
em suas curvas e retas e em suas alianças com
o medo e com a esperança, a solidez dos carácteres
posta à prova todos os dias, os pés por testemunhas
da pressa dos dias, o mundo sem saber
para onde apontar o nariz, a raiz da fala já perdida
de todo, ao longe, o mar, as mãos que durante certo tempo
compuseram com as tuas uma canção.
Massa de arbítrios
mas percebe na massa, desapontado,
tipos mais ou menos desatentos
ao que os move rumo a divisores
de águas, a incógnitas, aos rastilhos do Nada.
Viver tornou-se tão banal, que já não há.
Fermento
Quando o desnível ameaça desabar
acorrem às velhas práticas
esquecidas enquanto o ouro aflora
fácil, o beijo é pago em dia, enfim
nenhuma dúvida.
Mas não há feliz total
pelo que às lições de voo
e de pouso é preciso estar atentos
ao que corta, caso o desnível se agrave
ter o cavalo à porta.
O sangue sabe-o, disse a moça Cecília.
O sangue, a resposta
Um nicho é uma resposta ao que vai
e volta, feito uma lembrança
boa ou má, feito um bilboquê, assim é
o ninho no qual descansas
de mentira - não há espaço nem tempo
para descanso em lugar nenhum
tu sabes e todos sabem.
O sangue sabe-o.*
.
*: Verso de Cecília Meireles
Somorra e Godoma
Já era tempo de mudança
de domar o que ainda houvesse
de ânsia, e assim
a lassidão seja benvinda
sempre nos honra
desvestir o Tempo
que a tudo e todos domina
bolinarmos suas nádegas e seios
guerreiros são apóstatas
jovens mancebos de toda a aldeia
vêm aqui se revelar
aqui onde o vinho é sempre
as carnes trepidando
ervas e aríetes
ao lado, zelosas de nós,
nossas armas, lá fora
nossas muralhas têm mil olhos
porque só assim somos
Sodoma e Gomorra: matando.
Comentários (4)
Bopa poesia Darlan (continua)
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.