Lista de Poemas
Novo
Entender-se com algo maior
do que um rastilho de pólvora
nos calcanhares e cotovelos,
cogumelos e injúrias no café
da manhã, enfim
algo mais do que febre terçã
é colar o braço ao do instrumento
melhorando o prumo da casa
para que o oco não cresça
mais do que o lance de sol
na parede do fundo (é a cabeça, irmão)
e que o ano vá como possa.
Cravo e canela
Lembra o que o político falou,
o que jesus calou, o que a megera gritou
numa reunião do comitê, lembra que
o cansaço exige pernas e braços, exige
que se requente o assunto abortado
o tema da salvação
quando não o da solução final. Lembra.
Tudo
O trono da palavra se faz
de matéria vária, de cortes
sem sutura, língua solta
tanto do bem-posto quanto do pária
o tronco da palavra rejeita
prisão domiciliar, o pulso
em desalinho, a língua de lapsos
menos afeita ao sim do que ao não
mas não se sabe o que impede
a palavra de encher os pulmões
do silêncio, clivagem
abrindo a minha e a tua bagagem.
As mudas
Atar ao mamilo esquerdo
a dúvida, ao direito a tempestade ?
O que fazer, afinal, com o sinal
de unidade na testa
de ambos ?
***
Do meu livro de poemas: Esboços e Reveses: o silêncio. Editora CBJE, RJ, 2008, p. 40
Aningapara
A caminho do esquecimento, deve-se operar como sempre e como nunca se fez, isto é: ir aos meandros de uma fala, ou sair deles, é complicado, por exemplo, por exigir que mais humanos entrem na jogada, só os humanos sabem o que fazem, só eles entendem de gravetos; mas só quando a queimada baixa e as penúltimas lascas de dúvidas sobem, é que alguém se lembra daquilo que por tanto tempo estivera sob desleixo. Só então percebe-se como é que se vai a caminho do esquecimento.
***
Darlan M Cunha. Umma. Editora Virtual Books, Pará de Minas. 2011, p. 146
Duelo
A mim não me passa nada
ou quase nada que não queira
ou não aceite de bom grado
muito embora se saiba que
engolir sapos seja humano.
Revidando com a outra face
da moeda, a mim me passa
o que não desejo, não ensejo
com leveza, até porque viaja-se
com uma corda no pescoço
a qual está sempre noutras mãos.
Dueto
Com eles não lhes passa nada
ou quase nada que não queiram
ou não aceitem de cara boa
muito embora se saiba que
engolir enganos seja humano.
Revidando com a outra face
da moeda, com eles lhes passa
o que não desejam, não querem
por estigma, até porque todos
viajam com uma corda no pescoço
a qual está sempre noutras mãos.
O inferno são os outros.*
Sendo
Somos os nomes sem questão definida
os homens ocos dos quais tanto se fala e se cala,
todos de trela com a mãe pressa e a avó dúvida,
somos os homens ocos, inventores
da calúnia, da traição e dos enfados. Ocos.
Comentários (4)
Bopa poesia Darlan (continua)
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.