Lista de Poemas
Labirinto da filosofia
Entre a vida (rasa pólvora)
e a inenarrável algazarra da morte
é preciso estar atento
ao que há e ao que não há
para se viver e, quiçá, entender
o próprio entorno
assim como a criança entende
que está chovendo, que a mãe
também se reduz a ser chuva
e que suas lágrimas são cinzas
(breve arquitetura do choro).*
Entre a vida (rasa pólvora)
e o selo final (muda glote)
o que há de fato, e o que não há,
o que pode deixar de se cumprir ?
Mapa
Malas têm histórias - roubadas extraviadas trocadas esquecidas -
carregadas pelo sóbrio e pelo delirante
uns dias lhes foram de cão, outros de cristais entre algodão.
O bar assoa o nariz e ri da aldeia que não viaja, bagagens há
que viveram tempestades e ficaram num terminal
pelo que têm o que calar e o que contar de ti e de mim
do mundo, enquanto ajustam costuras e zíperes no couro gasto
(deixe no lugar cada adesivo, eles nos lembrarão das trilhas).
No fundo do bolso uma moeda extrangeira; noutro um vazio sem fim.
Causa e efeitos
é assim mesmo o amor: pode cansar-se
de se dar ou de tentar ser o que não pode
ao ficar no alto, para que o inveje os fracos
e se mordam de ódio com a sua tenacidade
em busca de luz, sim, é assim mesmo o amor
essa cantiga sem abrigo confiável
mas pelo qual se mata e se morde o próprio rabo
feito um cão desesperado.
Enfermaria
Rumor de sombras antigas afetam o inquilino
do torpor, seu equilíbrio preso a tambores
de couro de desconhecidos animais,
o rumor persiste sobre a vítima
que quanto mais se afasta
mais lhe exigem distorção entre o real e o imaginário.
Dissolving boundaries*
Antes de mais nada, descalçar luvas.
Limpos de excelências, pedras nos rins
fome e sede e nenhum sono, romper a cerca
antes de mais nada, gritar a que propósito vieram
(não viemos por teu pranto)*
limpos de exceções que o redemoinho dá, entrar
no terreno minado, calçando luvas
encher o terreno. Nada de ovelhas, pastores
morreram. Viver é acomodar fronteiras ?
Escuro-escuro
Arredio é o dia, arredia a noite,
tanto que ambos não se dão,
não se encontram para nada
embora respingos de um
no outro, e essa distorção
apena o homem e a mulher
ambos vivendo em ambos os lados,
levados pelas duas partituras
que os fazem sentir que são escritas
em ré sustenido maior.
Antes da sátira
Um homem deve ser capaz de adotar
o improvável, de buscar nele a garganta
as perdas em diagonal, furar o bloqueio
do entorno que lhe vede os caminhos ao erro.
Um homem tem de se suprir
daquilo que depura: a dor é mãe da cosmogonia
pedra-ímã, pedra-senão, enfim
não desfiar tempo contando minutos -
que todos eles enganam de um modo ou de outro.
Barco
Se o barco se perde em meio à névoa,
e se os homens se afligem pelo aviso
das ondas tocadas pelo furor do vento,
resta-lhes - se tempo houver - a lembrança
de mímeses e simbioses, jogos de azar
no bar do cais, as pernas e os braços
do domingo sabendo a peixe ensopado,
resta-lhes ainda - se tempo houver -
ouvir o rumor de um sorriso distante.
Comentários (4)
Bopa poesia Darlan (continua)
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.