Lista de Poemas

Certas dúvidas da Madame Min

Aonde terão ido os que não abriram a boca
em nenhum dos três tempos,
que negaram três vezes três
o costume da fala entre si e com o entorno ?

2.
O dia segue conosco, não termina
à meia-noite ? Se o amor exige
salvas, também impõe ressalvas
porque no amor não se assenta bem o formal
sua estirpe é de uma dimensão
para além-lá de matéria e imatéria,
e assim ainda falta algo a ser decifrado,
pulsando entre essas duas instâncias.

3.
Se a noite não desata laços, é que o dia
colheu tantas curvas em pedra
bruta, viu tantas frestras minadas pelos dois
lados da luta, que só lhe resta
dormir num pasto de lenha seca, tombada.
360

Decúbito



O morto me olha com um misto de pena
e desdém, olha-me no fundo da lama
dos meus gostos intransferíveis, minhas aulas
de dicção libidinosa, ele parece saber
de coisas que o próprio diabo desconhece;
mas que defunto é este, com tal ousadia
sobre a minha noite e o meu dia, que mal consigo
estar de pé diante de tal evidência, vidro e corte
querendo rasgar o morto e reabrir caminhos
rumo a mim, ao que sobrar de tal encontro
e tal despedida.

462

Vazio atrás



Voltaste aos poucos, algum receio
dedos fechados e a tez com pouca cor
chegaste aos poucos, a cama está fria
deserta esteve a cadeira na mesa posta
mas enfim voltaste com um zíper na fala.

O que houve, que tanto te calas
como se um tatu revolvesse teu cadáver,
como se uma volta na fechadura
te mandasse prosseguir viagem ?

Voltaste há pouco, e as cores mudaram:
o azul é lilás, marrons as íris do pássaro
(ainda na gaiola), o que era verde esboroou-se
de vez, e o que foi mão de coçar já não alcança a tez.

Como se vê, houve mutações por cá.
O que se pensava fé no homem
já não tem casa, nome ou sobrenome.
302

O lado escuro da rua



Que a noite fomenta o amor é fato que ela encobre
suas idas e vindas, dá a mão aos furtivos
nos passeios públicos e privados
abrindo loas para além-lá da dicção do camaleão,
seu caráter precisa de sal e de fel (alguma premonição)
pura sátira, pelo que faz
ouvidos moucos ao futuro e ao passado
e até mesmo a essas duas horas e vinte minutos.
300

Endividados com a clareza



Surgiram com um nome sem sobrenome
sem origem palpável o dono e a dona
fazendo frege na aldeia onde o rumor cresceu
(e porque não disseram nada...).

a aldeia pôs a boca no solstício
sob tema geral - signos, noites de palpites
convites e despistes sobre a real intenção
dos intrusos (segundo os aldeotas)

até que, premido, o espanto encontrou vento
contrário, e para outra aldeia se foi a outras
ilhotas, a outra semiótica.
354

Fantásmico

Arma branca é o nome genérico
da lâmina em seu mister de regular o tono
muscular, o oco psíquico, de abrir picadas na selva
ou de servir de enfeite na parede
senão sobre a mesa de centro.

Eis a katana, ali o punhal malaio e a serviçal peixeira
porque o mundo precisa ser escamado, tomado
de vícios que sempre foi, há quem o queira
numa trilha reta como a de um trem
(fantasma ?)
.
371

Osmose



O pescador remenda a rede com a qual cerca o mar.
Sal e algas em seus cabelos o denunciam artesão
da água; ao largo, alguém faz um cinto, odor de boi
no ambiente, por osmose
e por intuição se faz o que deve ser feito, eleição instintiva.

Entre o bar e a igreja, as vacas; no adro, as velhas
tomam a si as cores do mundo, rezando, sutis, quase levitam.
Mundo, vasto mundo
gasto mundo do qual, por osmose, sei algo.
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Reflexos



Às pequenas coisas, fortuito, quase casto, me dou
procurando na mímese saída, na simbiose entrada
e nada que me seja estranho deixo que parta
sem ouvir o imponderável, ver romper-se o aquário
de onde o sorriso dos peixes, pois nada que me seja estranho
deixo partir sem passar por baixo do beiral do lado sul da casa
onde andorinhas babam no ninho, e de onde se percebe
no outro lado da rua a altivez tão comum
a quem deixa para trás parte da vontade (se não o todo),
e então que vá aos pequenos marcos >>> óvulos insônia colmeias
música, talvez até mesmo ao trajeto dos lemingues.
331

Gênese



Desde sempre a rampa se repete
no inconsciente mais sutil.

Lugar de subir e descer, que nos enforma
o estro, um cão qualquer abana ali o rabo

e se infiltra entre as estrelas, alheio à trama
e seu concreto (cápsulas de cianeto).

Rampa por atacado e varejo, as pirâmides
contam histórias assim: de se ir ao céu

de se ir acompanhado à câmara final,
o que desde sempre se repete, inconsciente, afinal.
444

Octávio Paz não disse



Antes e depois, a mesma coisa entre os dois
as mesmas costas entre os dois; depois
um graveto de entendimento fez crível
o fogo na conta dos dias, la piedra caliente
da fala - suas raízes embebidas não em narcose
mas em mímese e simbiose, com alguma jura
quase de todo esquecida entre silêncios sabendo a cal.
Assim, depois de tanto, crescendo sutil, novo afã
entre os dois - pedras calientes, flores de sal.
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Comentários (4)

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namastibet

Bopa poesia Darlan (continua)

Sônia Brandão
Sônia Brandão

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

Sônia Brandão
Sônia Brandão

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

sergioricardo

Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.

Darlan M Cunha publicou os livros Umma (romance, Editora Virtual Books - Pará de Minas, MG), Esboços e Reveses: o silêncio (poesia, Editora CBJE - RJ), O ar em seu estado natural - Textos sobre letras do Clube da Esquina (Editora CBJE - RJ). Entende-se com um instrumento musical, tenta aprender entradas e bandeiras, preparando-se para encontros e despedidas, apreende algo mais da sociologia e da psicologia dos fatos cotidianos.