Lista de Poemas
As mãos em uso
Nos rumos do dia, crispadas, as mãos
parecem rede de pesca, uma peça de roupa
mal cerzida, puxada por pinças elétricas
com o mundo agarrando-se a elas
desconhecidos pedindo notas em sol
ou em ré menor, pois todos nós nos atrasamos
de nós mesmos, perdemos de vista o Outro, até que a carência
entra de vez no palco, e as mãos enfim se armam
em torno da madeira logo transformada
em barco - porque música é onda.
Venenos não dormem
Não se cria impune um rei fraco - há-se que estar atento
aos degraus do trono, da fé, da cama, ou ele poderá
entrar em coma, cair, sim, que os venenos não dormem
todos sabem, e assim é que para se manter um rei fraco
é preciso mais que choro, voltas nos gonzos e nas fechaduras
por trás das tramelas é preciso mais que as vozes do coro
e o lombo de um animal.
Um rei fraco pode durar muito, porque são muitos
e muitas as sanguessugas sob frenesi ou algazarra, quase tudo
sendo possível em tal corte: lírios e arras, e assim fiz de ti o meu rei
do qual retiro sombras e alfombras, és minha carne cotidiária (não ossos,
teu osso sou eu que me tornei tirano de rei).
Um rei pífio pode durar mais do que possa entender a vâ pedagogia.
Venenos são insones.
O endosso
O que já não existe convém a quem ? que modos furtivos
alcançam o que já não conta nas estatísticas
da Pressa ? de recheio em recheio, como se safa da realidade
o furtivo, este novo escaravelho do diabo ?
No lugar do sono às vezes se prefira estar fora de si,
mas a que vêm tal desassossego sobre o avesso da vontade ?
Encontra-me na página 577 do Codex Gigas
Muito já se disse do silêncio e da peste negra
atual - extenso metrô com mil bocas e, parece, saídas escassas.
Um riso antigo, sem data, sem nome, prenome e sobrenome
sem gênese conhecida (partenogênese ?) aflui
deste Ser cabal na existência geral. Sentado, anda.
Se dorme, sabe onde escondes a doceira e a salina.
Full screen
No início não foi a roupa nem o pudor ou o medo e a fé.
O medo chegou com a invenção da fé no além-lá do oriente
crente, de algo da jactância de muros metódicos
pergaminhos em locas, mar aberto mar de fuga
a bíblia do diabo, yes
o medo chegou e tornou-se "genética psíquica",
veio com a invenção da roda de castigos divinos tornados hinos
ao breu; por outro lado, convite satânico de gozos inexcedíveis
para os transgressores/as.
No início era o Nada, e o Nada valia urros nos campos
nas grutas cumes gelados e na correria geral por uma presa
até surgirem ideias como a de se criar armadilhas
para homens e bichos. Andando devagar, depois, célere
de perder estribos arreios sela freios
os anelos e o respeito
o homem e seus signos.
Estilo
Nascido na madrugada de uma quinta-feira
aos berros (natural que se reclame o que se perdeu),
panos de lado a lado, bocas e olhos e mãos cheias de usos
risos cercando-lhes o retângulo, nem pestanejou
rumo ao colostro, e muito dormiu, mas
uma vez desperto, ainda hoje cobra caro toda iminência
de perda, salga e envenena o preço de cada prumo
nas aldeias urbanas e nos ermos agrários
conjugando o verbo aeiouar
como quem desinventa a matéria, alijando de si
as madrugadas e outros uniformes cotidiáridos.
Possam guiar-me os meus animais *
Rota natural de pedras e limo, talhos e medo
não há caminho igual a outro em lugar nenhum;
existe, sim, o credo de que a cascavel avisa
mas homem não se dá de avisar a vítima, de escutar
tanta semente boa na boca do silêncio
enquanto a procissão eleva o santo e o padre
encara a moça.
Ó eleição pelas vagas estrelas da ursa maior
novos caminhos à espera de extraviados
o homem é mesmo assim de só se achar de fato
se se perde de todo, sem vontade consciente para agir
o caráter delinque, mas algo de amor persiste
no homem que de si desiste, algo dele atravessa a ponte
e espalha contos romances alguma poesia - seu todo sem corte.
O rosto na pia
Posso me dar de inferno
mas não me conte celeste
que a dívida para comigo
é vasta quanto os inúmeros
pingos no i
de que são faltos certos selos
de mãos e sorrisos amarelos.
A louça em festa, la siesta
virá a cavalo, melhor, sutil
como uma aranha, um peixe
uma biba, uma notícia-breu.
Posso me dar como bíblia
do diabo, não menos.
À luz do amor de duas baratas *
Cheguei ao mundo no século de luzes pálidas - visita aleatória
não parei por afinidade, por um jogo de escusos interesses,
por algo álacre como o jogo de sombras
tailandês e também não por alguma partida de xadrez
na qual se proibira a presença de reis e rainhas e bispos.
Então, a que vim de fato a esta algazarra, a este mundo de sombras ?
Enquanto convém certo passo
Entra na casa o desertor não se acalma
enquanto ceia recados de palcos próximos
e distantes, pelo que mantêm as orelhas voando
mas não carece de muito este que vive furtivo
entre meias sujas e pratos populares (tais tipos se esforçam
no invisível) espicaçado pela pergunta
no labirinto de sempre.
Comentários (4)
Bopa poesia Darlan (continua)
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.