Lista de Poemas

Com que roupa ?*



Por que essa roupa a escolhida, entre outras
sedentas de verem o dia e a noite
vivendo toda a assimetria social
calcada em histórias e estórias
de tantos que se foram, de muitos que por aí estão
vestidos de baratas tontas, ou não ?

Por que se escolhe essa e não aquela fivela
para compor o fato, essa camisa e aquela calça
bem como o intento vitorioso
de certa cor ?

Não pergunte não responda - diz a canção.*
do jeito do teu dia. Vade retro, criatura.
300

O que me deste era tanto que se acabou



Em torno do espanto não há dúvida

porque o amor não se furta
em ser ciranda ou fuzarca,
seus veios não se negam

em abrigar seu contrário
como se abriga um segredo
de sangue, um favor no armário -
condições que muitos consigo levam
e assim o mundo nunca saberá
que riquezas ignora,
a quanto trigo impõe sua rudeza
o joio que só conhece o próprio umbigo.
308

Quase esfinge



Um lugar para o estudo da astronomia - esse veio da grande anatomia -

precisas saber que corpo celeste te afugenta de ti
que emagreces a olhos vistos, feito um jequitibá
doente, um cristo em vias de deixar o teto do prédio, nédio
que és, urge que venças tal consumpção, lembra
o peixe morre por falta de toca.
365

Conservatória



Ouvir de leve cada tendência, cada naipe
pondo assim o teu nome na pauta do dia
no que houver de sustenido e bemol
soltos pelo siso da flauta e pelo suor
do trombone escorrendo pela rua

com algum tema novo para velhos
enamorados, vá lá, para jovens
pendurados numa sextina, que um bandolim
já assevera ter reinventado a roda
de samba, então, por mais
que possas cantar a tua apologia à Musa
através de um staccato ou de um improviso

em sol sustenido maior, ou menor, melhor
que vás à praça e subas na locomotiva
indo em busca do que talvez ainda não existe.


2.

Duas peles, dois tambores vi rufarem um hino
e a mim não me pareceu estranho
que ambos tanto se dessem
nos abertos da aldeia
tanto se dessem zangão e abelha
um ao outro, inquiridos de distância prudente
por quem um dia tambor se fez couro de ovelha.


3.

Pareceu-lhes a todos terem sentido bem
o que o som lhes dava: o fim do cansaço
vindo de cada boca e de cada braço de instrumento.
E se ergueu lá mesmo um monumento ao silêncio.
396

Anelo



No jardim ao lado uma banda respinga canções
logo de manhã uma leitoa no rolete
e fogos de artifício (para os de armistício
a história é outra), maritacas no jardim da vizinha
uma hera me adverte 
que solo bom é o de clarineta em dueto 
com viola - pura demência no jardim ao lado.
 

337

Na China há um rio chamado Nu



À espreita, sou homem solteiro,
em torno a mim formam-se vazios                                                                                                                          círculos de gases, redemoinhos
ouço que me querem numa trempe
os de sempre: invejosos
de que suas mulheres comigo sejam
aves, sépias, lagartixas, camaleoas, sim
o futuro é pouco para mim que invento
ser homem sem viveiro
quando, de verdade, nem existo.

312

Lâmina



A lâmina que abre o alimento fere a tábua
com riscos que lembram a peruana
Nazca, ó Belzebu, tal cozinha é o avesso
do que conheço de cortes e de fogo
em alto e baixo relevo, e se a ela me atrevo
mais me quero distante dessas paredes
com enredo de palatos em lascívia, nenhuma fobia
no ambiente onde a faca abre, corta e recorta
convidando a que se abra a boca e se feche a porta.
351

Arar em círculos



Um dia, sonhando acordado, entraram na cama

premissas e promessas, lírios e delírios
do campo e do asfalto, drama de polvos
sépias e camaleões vendendo eixos de conduta
ao paralisado, bem e mal amado pelas criaturas
com um ponto em comum: o rabo: anuros micruros macruros -
o que os denunciou a mim, de rabo preso sem fim.
299

Cume e cúmulo



No cume das coisas está

o por trás do fato: acalanto
ou suicídio, leis ou perda
de memória, cúmulos no céu
avisam sobre o clima, porém
o cúmulo do espanto instrui
que em toda ação falta algo,
de tudo o que nos infesta
nada se completa (então
é preciso estar atento e forte
alheio à sorte), avisa
que nunca se atinge de fato o extremo
e que no amanhã, no ontem
e no agora é preciso saber

que um barco com avarias
é o que se é vida afora.
449

Circense



Um animal detrás de uma teia de metal

olha o mundo com a apatia dos zumbis,
que é muito transtorno para um bicho
estar impedido de tudo, então, chorar
é o melhor tédio, e o animal se amua
e recua, avança a pata que alcança

o nariz e se coça diante da moça - mossas
ambos as têm - que é assim a vida de bichos
na esquina na praça no mall no adro
no circo no qual nos damos na linha de frente,
ouvindo com nitidez o riso solerte
da sombra, os braços do amor caindo
do trapézio. Aonde quer que se vá, um animal nos mede.
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Comentários (4)

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namastibet

Bopa poesia Darlan (continua)

Sônia Brandão
Sônia Brandão

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

Sônia Brandão
Sônia Brandão

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

sergioricardo

Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.

Darlan M Cunha publicou os livros Umma (romance, Editora Virtual Books - Pará de Minas, MG), Esboços e Reveses: o silêncio (poesia, Editora CBJE - RJ), O ar em seu estado natural - Textos sobre letras do Clube da Esquina (Editora CBJE - RJ). Entende-se com um instrumento musical, tenta aprender entradas e bandeiras, preparando-se para encontros e despedidas, apreende algo mais da sociologia e da psicologia dos fatos cotidianos.