Lista de Poemas
Com que roupa ?*
Por que essa roupa a escolhida, entre outras
sedentas de verem o dia e a noite
vivendo toda a assimetria social
calcada em histórias e estórias
de tantos que se foram, de muitos que por aí estão
vestidos de baratas tontas, ou não ?
Por que se escolhe essa e não aquela fivela
para compor o fato, essa camisa e aquela calça
bem como o intento vitorioso
de certa cor ?
Não pergunte não responda - diz a canção.*
Vá do jeito do teu dia. Vade retro, criatura.
O que me deste era tanto que se acabou
Em torno do espanto não há dúvida
porque o amor não se furta
em ser ciranda ou fuzarca,
seus veios não se negam
em abrigar seu contrário
como se abriga um segredo
de sangue, um favor no armário -
condições que muitos consigo levam
e assim o mundo nunca saberá
que riquezas ignora,
a quanto trigo impõe sua rudeza
o joio que só conhece o próprio umbigo.
Quase esfinge
Um lugar para o estudo da astronomia - esse veio da grande anatomia -
precisas saber que corpo celeste te afugenta de ti
que emagreces a olhos vistos, feito um jequitibá
doente, um cristo em vias de deixar o teto do prédio, nédio
que és, urge que venças tal consumpção, lembra
o peixe morre por falta de toca.
Conservatória
Ouvir de leve cada tendência, cada naipe
pondo assim o teu nome na pauta do dia
no que houver de sustenido e bemol
soltos pelo siso da flauta e pelo suor
do trombone escorrendo pela rua
com algum tema novo para velhos
enamorados, vá lá, para jovens
pendurados numa sextina, que um bandolim
já assevera ter reinventado a roda
de samba, então, por mais
que possas cantar a tua apologia à Musa
através de um staccato ou de um improviso
em sol sustenido maior, ou menor, melhor
que vás à praça e subas na locomotiva
indo em busca do que talvez ainda não existe.
2.
Duas peles, dois tambores vi rufarem um hino
e a mim não me pareceu estranho
que ambos tanto se dessem
nos abertos da aldeia
tanto se dessem zangão e abelha
um ao outro, inquiridos de distância prudente
por quem um dia tambor se fez couro de ovelha.
3.
Pareceu-lhes a todos terem sentido bem
o que o som lhes dava: o fim do cansaço
vindo de cada boca e de cada braço de instrumento.
E se ergueu lá mesmo um monumento ao silêncio.
Anelo
No jardim ao lado uma banda respinga canções
logo de manhã uma leitoa no rolete
e fogos de artifício (para os de armistício
a história é outra), maritacas no jardim da vizinha
uma hera me adverte
que solo bom é o de clarineta em dueto
com viola - pura demência no jardim ao lado.
Na China há um rio chamado Nu
À espreita, sou homem solteiro,
em torno a mim formam-se vazios círculos de gases, redemoinhos
ouço que me querem numa trempe
os de sempre: invejosos
de que suas mulheres comigo sejam
aves, sépias, lagartixas, camaleoas, sim
o futuro é pouco para mim que invento
ser homem sem viveiro
quando, de verdade, nem existo.
Lâmina
A lâmina que abre o alimento fere a tábua
com riscos que lembram a peruana
Nazca, ó Belzebu, tal cozinha é o avesso
do que conheço de cortes e de fogo
em alto e baixo relevo, e se a ela me atrevo
mais me quero distante dessas paredes
com enredo de palatos em lascívia, nenhuma fobia
no ambiente onde a faca abre, corta e recorta
convidando a que se abra a boca e se feche a porta.
Arar em círculos
Um dia, sonhando acordado, entraram na cama
premissas e promessas, lírios e delírios
do campo e do asfalto, drama de polvos
sépias e camaleões vendendo eixos de conduta
ao paralisado, bem e mal amado pelas criaturas
com um ponto em comum: o rabo: anuros micruros macruros -
o que os denunciou a mim, de rabo preso sem fim.
Cume e cúmulo
No cume das coisas está
o por trás do fato: acalanto
ou suicídio, leis ou perda
de memória, cúmulos no céu
avisam sobre o clima, porém
o cúmulo do espanto instrui
que em toda ação falta algo,
de tudo o que nos infesta
nada se completa (então
é preciso estar atento e forte
alheio à sorte), avisa
que nunca se atinge de fato o extremo
e que no amanhã, no ontem
e no agora é preciso saber
que um barco com avarias
é o que se é vida afora.
Circense
Um animal detrás de uma teia de metal
olha o mundo com a apatia dos zumbis,
que é muito transtorno para um bicho
estar impedido de tudo, então, chorar
é o melhor tédio, e o animal se amua
e recua, avança a pata que alcança
o nariz e se coça diante da moça - mossas
ambos as têm - que é assim a vida de bichos
na esquina na praça no mall no adro
no circo no qual nos damos na linha de frente,
ouvindo com nitidez o riso solerte
da sombra, os braços do amor caindo
do trapézio. Aonde quer que se vá, um animal nos mede.
Comentários (4)
Bopa poesia Darlan (continua)
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.