Lista de Poemas
De Avalovara a Sagarana, perdeu as chaves
porque é do fugitivo olhar à frente, revivendo
a cada passo o destino ao qual estivera
condenado, e apressa o passo
e assim afrouxa o laço quando corre pelo campo
onde exércitos antigos dormem, e cobras e lagartixas
se vigiam, assim como os homens se vigiam
crendo que tudo é possível, que irão a outro nível
de onde domarem o imprevisto, e nunca mais dizerem
"que tragédia é essa que cai sobre todos nós ?"*
***
*: Milton Nascimento. Promessas do sol
Casa dos (g)ritos
vive assim atado ao incerto
tanto que várias vezes ao dia
a casa dos gritos que ele é
perde o rumo mas retoma o passo
fazendo-se passar por caminho
que tudo recebe e tudo dá, de entender
cada lance da escala proposta,
de saber diferença entre água e vinho.
Na praça, o herege e sua visão do todo:
"Cheguei antes de mim ao mundo,
e quanto mais sabia, menos cria
em pódios e sermões, nas aventuras
políticas e nas desventuras da fé,
no conjugal e nas sociedades anônimas,
nos anônimos e nos medalhões;
e quanto mais me vi entre a mímese
e a simbiose, entre a premissa e a catarse
o ser e o não ser, mais acedi ao murmúrio
dos desencantos e à grita
dos desacatos, à sanha das dragas
roendo o que o tutano guardasse.
Cheguei antes de mim ao mundo,
e nenhum espanto me conjuga ou conjura,
valas não me quebram a vontade consciente,
para agir, e nenhuma promessa deita-se comigo
ao ar livre, em nenhum abrigo."
Um de janeiro
O fotógrafo aplica-se às vastidões
dentro do outro e de outra roda-viva
sabendo de si muito pouco
das convulsões nos lábios
das rochas e nas entranhas das águas
o repórter de inúteis paisagens
abrindo, enfim, acordos com trevos e tocas
passa ao largo do breu das florestas
e do silêncio das terras calvas
vastidões que todo homem carrega.
Vulto
O exercício de esperar na alça de mira
dias a fio é o que convém ao caçador
aflito pelo vulto que não se dá
à lupa, ciente de que rochas e árvores
têm ouvidos, mas
caçar tem refrão - menos o sim do que o não -
e assim, às vezes, o obsessivo mirar
não serve a quem, por trás da árvore ou da neblina
das palavras (caçar exige silêncio), se perde
na selva de memórias nas quais os tiros
saíram pela culatra, puro exercício de inquietação.
Hesíodo
Os dias custam caro
os olhos da cara
o dorso do leão e da leoa
a paleta da sépia
o ânimo dos hemisférios
tudo sob peso aumentado
os trabalhos e os dias
nunca livres do bolso
os dias custam os tubos
ao coração e ao cérebro
nada lhes resta senão azedarem-se
criando corvos e outros estorvos
nenhum riso nos cantos
da boca nem nos poros
cheios cada vez mais
de água salobra e seus ais.
Diamantina
Onde ouvires gemidos e súplicas sob tenazes em riste
não te vás de chofre: ouvir é preciso, navegar
é secundário, aqui onde os brilhos da terra - foscos
ou lascivos - atraíram venturas e desventuras amarelas
pedras verdes ou de um branco translúcido, amargo
pelas contas que só as carapinhas podiam contar
essa história eivada de sobe-e-desce.
Eis Diamantina, a dos garotos músicos, onde parei
nos acordes dissonantes de um mamute de nome História,
que assim é o que sob pedras se esconde: dura de muito durar.
Migrar
1.
Migrar por uma necessidade imperiosa
e não como este abajur
sendo levado da sala para o quarto
migrar é sina muito antiga, está na primeira
página, no primeiro mar, na primeira trilha
que o pavor abriu.
2.
Numa igreja em Roma uma moça toca
sete sinos ao mesmo tempo (títeres ela toca)
mas não consigo desvendar os desígnios
divinos de nenhum deles - graves e agudos
todos entram e saem de mim sem deixar vestígio
ao passo que a moça parece dar-se a eles
como a gazela e a girafa
ao rio: pernas abertas, volúpia e medo crescentes
que o demônio delas está noutros dentes.
Arritmia
(e porque o diabo não se dá ao pouco
em nenhum momento pediu pelo nome de deus
pelo que não fez pelos seus nada pediu
ao sobejo à solércia e ao estigma
o desprezo sendo suas guias no espaço
que o equador divide e o homem adquire)
Ato único
Por falar em amor, o que te mostrei
era tanto que se acabou
e por falar em ator e atriz
a postura zen não nos serve
nem nas escadarias do Ganges ou da Muralha
e se no teatro Kabuki
entra no palco um homem com voz de mulher
este painel, essa realidade não nos serve
muito embora, segundo uma canção,
de tudo se faça canção e caução, mas
voltando à desejada das gentes, o que me deste
lá mesmo no palco acabou-se
feito peça curta para entretenimento
puro teatro de sombras.
Nômade
Vastidão é o termo para um leito seco
de rio, por onde flui a fio de espada
a vida passada a limpo, ou não,
por vascas razias desertos sermões
algas mármores gavetas e outros zelos, ó
vastidão é onde repousa o talvez
a dúvida que certos nômades
nunca abrem em si e nos outros, firmes
cientes de como é único
sair das luvas e das galochas
das gavetas onde se guardam os açoites.
Noites em branco são longas, gritam.
Comentários (4)
Bopa poesia Darlan (continua)
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.