Aonde vais ?
O passado me atrai, me espera, irei a ele, talvez não volte, caso volte, trarei algo a teu favor, quando não um estorvo com o qual possas valorizar o tempo, o cíclico, ao valorizar um movimento qualquer: pêndulo, bicho-preguiça, serpente, pipa, a dança de acasalamento de certos pássaros, o rastro de um foguete, enfim, saber valorizar o tempo ao entender o movimento, muito embora se possa argumentar que a rainha-mãe de uma colmeia tem uma vida inerte [a rainha=ãe das abelhas põe ovos sem parar, é alimentada pelas súditas, pelo que se deva deduzir que sem contrastes a vida não seria possível. Teu marasmo me comove, mas me expulsa, me causa dano, ira, cansaço, amor, e o mais e o menos que disso tudo resulta.
Aonde vais ?
Eu já disse que vou por aí catar gabirobas, mudar de rumo, de aldeia, chutar o balde, rasgar as palavras de sempre, descartar lantejoulas sociais, chega de agradar gregos e troianos, vou pra lá de Bagdá e de Sabará,
vou para lá de Pasárgada, aquele lugar imaginado pelo poeta Manuel Bandeira, vou hibernar feito um urso, vou ser peixe de couro, serei também um tatu, serei um tamanduá pronto para te abraçar. E mais não digo.
"Não chore ainda não / que tenho um violão / e nós vamos cantar..." diz a música do Buarque de Holanda.