Lista de Poemas

O Diabo e Deus na terra do gol *



Os crentes fustigam as nuvens
negras, seu foco se apruma
e arremete contra as brumas
como aríetes, exigem os crentes
dissolver os nichos dos incréus
pois o amor não pode esperar
divino maravilhoso,* o amor gera
guerras, rói os tigres, abafa
o Outro, e os crentes se sentem
graduados pelo seu mestre,
mas não comungo tal trigo no meu
imaginário, e os crédulos ameaçam.

*****

*: O título alude ao filme Deus e o Diabo na terra do sol, de Glauber Rocha.
*: Título de música de Gilberto Gil.
299

Mistério caseiro



No meio das costas, reluzente
que nem esqueleto ao relento,
um pé para o norte voltado, e o outro
longe de onde fôra deixado
pelo vento nas dunas, tentado
por cães e ratos do deserto.
Em todo lugar do mundo gasto mundo
sempre há quem imagine vozes
cotações, premissas e promessas
sem agiotas, mas aqui outra realidade
mostra a marca do sutiã e, ativada
entre as omoplatas, uma faca só lâmina.*

***

*: Poema de João Cabral de Melo Neto


504

Café com gengibre



Dia sim, dia não, os tipos alternáveis revidam com os pés 
ou com as mãos, e se em nenhum dos pares encontram pulso,
aprendem que correr atrás do vento, também isto, é vaidade*
e assim me pergunto para onde levar ou o que fazer com o cadáver 
que recolho dia após dia, que me encomendam day by day
em um regime de estrita confiança, um contrato de mútua esperança
de que essa fonte se faça de mais e mais-valia
e que depois de tudo, de tanto me alternar em vão, de janeiro
a janeiro, tornem a voltar as nuvens, depois do aguaceiro.*

 

***


*: Eclesiastes

456

Mundo



É mesmo assim o mundo
o mesmo de ontem, mas diferente

e se faz ainda mais presente 
para quem vive para além
da loucura - não a minha, ausente.

Uma vez tudo imantado, qual força resta
diluir, que ausências redimir ?
 

550

No ar



Que rapaz é esse, de onde
o peso que às suas costas se prende
feito um quisto, um nariz
arqueado ou adunco
já na hora mais clara do dia ?

Que ragazzo é este às portas
de cidades invisíveis com seus segredos
um por um imaginados (pode haver busca
mais excitante do que a que se faz
sobre o que é invisível ?)

Que boyfriend é aquele pelas ruas
zanzando, alheio a tudo mas não ao mundo
que o mantém sob febre e cegueira
quiçá para a vida inteira ?

Que cantor é este de estranho pranto*
que nem é rock e não é nênia
que não se dá à cama ( a rua tem força)
e vive assim como que viúvo de um drama

senão melhor dizer "de uma chama" ?

***

*: Alusão a Pois é, pra quê, música de Sidney Miller (1945-1980)
349

O peso, a saída



A memória do sádico abraça
sempre o mesmo tronco
diz que é uma dama a quem
muito quis até não mais querer
e por via das dúvidas
em madeira para carvão - de lei -
a transformou
devido ao que à boca pequena
entre ovos gorados se dizia.
348

360º



À espera de março, abril
não cabe em si, rueiro
flutua e derrua, seu transe
parece vir de raízes profundas
com as quais mantém-se
à espera de março, ciente
do encontro com a solução.
358

Os nove buracos do corpo



Atenta ao que se há de se mesclar com o fracasso,
e não com o acaso, que este é diferente, embora
possa ceder a um e outro espectro ou
anamorfose, verdade, a lei foi feita para o desacato

continuado, sendo a sina maior que move o humano
demasiado humano, a lei tornou-se genética e psicologismo,
mas eis o vinhedo visto do terraço de onde alguém jogou                                                                                               desafios que alguém na sacada desenhou

há filhos e filhas dispersando-se como dunas, valores na bolsa
desconcentrando-se, sinta como é que tanto nos servem os                                                                                           nove buracos do corpo, solícitos diante de tantos agravos, 
eis a latência dos ofícios. Atenta, pois, aos nós

das bravatas rumo ao rés do chão, já sem escolha
entre o sim e o não, nada existindo entre a nascente e a foz.
Gesta, gasta-se em ti a inenarrável alegria das somas
bem como um livre exercício de inquietação.*

 

***


*: Friedrich Wilhelm Nietzsche. Humano demasiado humano
*: Osias Ribeiro Neves. Livre Exercício de Inquietação

328

Assim é



Uma conta pode ser sinônimo do que ela é, ou não, e muitas demandas e desentendimentos podem surgir, e os nervos incham, e as vozes clamam na arena, ninguém parece querer terras no deserto, mas querem, vendem até a mãe e matam o pai, e exilam herdeiros, quando não lhes dão outro tipo de sumiço, isso porque assim é o cotidiano no qual uma conta pode ser ou significar extermínio. Lembre-se que há muitos tipos de conta, não só as financeiras, há contas mais pesadas, explícitas ou veladas, pelas quais gerações se mataram - preto no branco, branco no preto -, mas não são nunca um jogo de damas, ou entre damas, embora as damas, donzelas e velhas também tenham e usem seus recursos, porque não há como viver sem tramar.

*****
505

Cartilha



Pisar na lei para advogar

a posse a um mandato
de incógnita mais cabal,
entrar nos conluios alheios
cuidando para que
não te surpreendam

os espíritos de porco
em convescotes homologatórios,
causas já sem causa, cuida
que não se ombreiem contigo
os assalariados do medo
pagos para desossarem
o silêncio com seus mantos
de arbítrio, lembra que
ainda hoje
será outro o enredo.
505

Comentários (4)

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namastibet

Bopa poesia Darlan (continua)

Sônia Brandão
Sônia Brandão

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

Sônia Brandão
Sônia Brandão

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

sergioricardo

Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.

Darlan M Cunha publicou os livros Umma (romance, Editora Virtual Books - Pará de Minas, MG), Esboços e Reveses: o silêncio (poesia, Editora CBJE - RJ), O ar em seu estado natural - Textos sobre letras do Clube da Esquina (Editora CBJE - RJ). Entende-se com um instrumento musical, tenta aprender entradas e bandeiras, preparando-se para encontros e despedidas, apreende algo mais da sociologia e da psicologia dos fatos cotidianos.