Rostos
Bendito seja eu que não tinha esse rosto de ontem
nem de trasanteontem e menos ainda o rosto do amanhã,
porque o amanhã não existe para os mortos, e tu e eu
já assim estamos: debaixo do limo, sim, há tempos
a terra nos salga, lembra: em certas aldeias ainda se é recebido
com salva de prata contendo sal e pão, mas já não somos
admitidos, nem um e nem outro, portanto, maldito seja eu
maldita sejas tu, aclimatada estejas tu também no que
te cabe neste novo infernal latifúndio.*
*****
Neste poema há alusão a Fernando Pessoa e Cecília Meireles (ambos na primeira estrofe)
e João Cabral de Melo Neto (última estrofe).
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