Lista de Poemas

Esboço



Não fale de ti
fale do Outro
em ti, comoção
afinidade eletiva
a mais e a menos valia
o que quer dizer

fratura ?
327

Grãos



Pousa ao largo dessa estrada o teu cansaço
e o dos outros, todos em fila indiana
rumo ao que também será tua
medida. Cansaço é isso: imolar-se
até chegar a ele, sem remissão de recado algum,
torcer para que os grãos que lançaste te vinguem.
385

Kalimba



Chegaram por ali, dos primeiros aos últimos a mesma sina
de apatia pelo jogo marcado nos porões de uma singradura
eterna enquanto durasse - muita onda rolou e se quebrou
até que as pernas e os braços da espera se juntassem
e a sina de apatia se levantasse das perdas e danos
nunca de todo sanados - o diabo sobre a colina
no convés e em todo lugar a ausência de deuses protestantes
ateus pagãos e cristãos, senão de africanas divindades, sim
vieram por aquele corredor de sal e estrelas apagadas
os homens e as mulheres com algo mais do que essa kalimba.
365

Peste, praga



Lu Sin grava no cerne da agonia
a fala da teocracia, enfim, uma teratologia
sem resquício de espanto em sua boca.

Somos uma louca e um alienado
numa assembleia de traficantes
com uma paleta de cores, naturezas mortas,
enquanto vais à feira de rua, vestida ou quase nua
e o mundo girando a 27 mil km hora.

Lu Sin destrincha um frango imaginário
com estes subviventes, razias na suicidade
onde ninguém tem segura a identidade
ninguém a salvo de si mesmo no mundo de rinhas
demolindo muros com o tom de Zaratustra:

"Por quê ainda chocalhar, ó cascavéis ?"*
314

Ano nenhum



Nada de nada entre o estupor do boi rumo à última
alienação (nada sabia do matadouro), e os portais
abertos à turba geral. Nada de nada consta
no dorso das pedras com as quais construímos barbáries
(apagado da memória, do sono REM, de tudo)
mas cá estamos, que por nós procuramos.
317

Nove círculos ou mais



O Diabo agarra-se na crina da mula
esporeia a aflição com o fogo de sempre
no seu jogo de mestre da sombra
tomando a si a depuração dos crentes,
que o Demo em sua elegância
em sua presteza e leveza de intentos
cava e escava, tece e retece em torno da soberba
o fio condutor ao melhor de sua Casa
onde o amor vai de penetra
mas nenhuma queimadura sara ou vaza,
e o castigo, segundo o povo, vem a galope, não se atrasa.
327

Elementar



"Só amanhecem o grão e a solidão" - diz o poeta*
pelo que riscam os dentes
no ar os de sempre, lisos de vontade
a neblina desgrenhando o teto
da mata próxima, cobrindo os espetos da monstrópole, hoje
sangrar é tema compartilhado que a rede encesta:
só adormecem o sim e a espera.
335

Das repetições



Os pés e as mãos são extensões de um ter
e haver naturais, partes de um maquinário
ferrenho em diluir dúvidas, quanto em fazê-las,
aprimorando intentos nunca de todo claros, tortos.
O nariz às vezes sobrevive aos olhos, estes, sim
linha de frente de um combate sem trégua
mesmo para os cegos, mesmo para os mortos.
328

Água riscada



O navio aporta, ninguém recepciona
nos domínios do casco não há som
nenhum repasto no navio

vazio, então, onde os marujos
e os gatunos de cruzeiro
vagando seu riso pelo convés ?
Não, não há nada no navio calado, incapaz de levantar

âncora. O que houve com quem a bordo
se casou, com os botes o que houve
que a capela foi saqueada por alguém
com pressa de viver
de não morrer no navio que sozinho aportou ?
338

Trasgo



Babuja esse prato essa bandeja essa cama
suja esta manhã e amarra com a tua sátira
a distância entre os seres cada vez mais
rabujentos, tu podes porque és um trasgo
e a tua gênese te concede oprimir pela sátira
a pátina dos baixos mentores, a dança dos falsos
e o sono dos sujos, tu podes e deves minar
a calçada a ponte o salão de festas da aldeia a fé.
405

Comentários (4)

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namastibet

Bopa poesia Darlan (continua)

Sônia Brandão
Sônia Brandão

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

Sônia Brandão
Sônia Brandão

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

sergioricardo

Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.

Darlan M Cunha publicou os livros Umma (romance, Editora Virtual Books - Pará de Minas, MG), Esboços e Reveses: o silêncio (poesia, Editora CBJE - RJ), O ar em seu estado natural - Textos sobre letras do Clube da Esquina (Editora CBJE - RJ). Entende-se com um instrumento musical, tenta aprender entradas e bandeiras, preparando-se para encontros e despedidas, apreende algo mais da sociologia e da psicologia dos fatos cotidianos.