Darlan de Matos Cunha

Darlan de Matos Cunha

n. 1951 BR BR

n. 1951-11-22, Medina, MG

Perfil
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Amanhã é longe

Amanhã é longe mas não redimirá 
o quanto poderás ser ou não ser nele,
e não digas nada, absortos não falam
embora comam íleos e bebam teores
nos mamilos da Mãe Pressa, sim
amanhã é longe de já não teres como
o alcançar seja como for
mas talvez tenhas ainda alguma ira;
humano demasiado humano 
a escassez geral medra de tal forma
que um rei disse algo sobre 
"bombardeio informático".

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Biografia
Darlan M Cunha publicou os livros Umma (romance, Editora Virtual Books - Pará de Minas, MG), Esboços e Reveses: o silêncio (poesia, Editora CBJE - RJ), O ar em seu estado natural - Textos sobre letras do Clube da Esquina (Editora CBJE - RJ). Entende-se com um instrumento musical, tenta aprender entradas e bandeiras, preparando-se para encontros e despedidas, apreende algo mais da sociologia e da psicologia dos fatos cotidianos.

Poemas

404

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O escritor busca incógnitas

esse demente com um teclado
e a sociedade no pensamento.
Vive assim de olho nas feridas,
no imponderável, alquebrado
à espera do imprevisível,
de vez em quando salta dele
uma lágrima ou um sorriso
cheio de palavras não percebidas.
883

Teoria aérea



Sob temporal a aldeia grita

mundo gasto mundo, onde já se viu
o amor não reagir ao coma
o pavor não ter fundo?


Se alguém sonha deus na terra
e ele no céu, é viável essa troca
já agora com o fim à vista
de fauna e flora e da humana hora ?


798

Soma




O corpo sofre variações sob sol maior
e racha no gelo, a pressão variando
sob o salário do medo
no atacado e no varejo murmura-se
"vou me jogar debaixo de algum amém."

Na aldeia com seus climas psíquicos
deteriorados, procura-se tábua de salvação
nem sempre apta, mas tubarões há
na rampa do navio, porque corpo é danação
e tu somatizas o que não queres

sofrendo variações em ré sustenido menor.
852

João em Sevilha



Dias de cão quem não os teve, quem
não os viveu na conta da língua ?
quem não os absorveu dolorosa míngua ?
Dias de negativas, de más assertivas
quem não engoliu saparia, noite e dia ?
Somos o que à mesa pomos: a sopa
ou o amargo das sementes de mamão.
Pelo caminho há sempre alguma onda
de espanto, mas de vez em quando
os ombros sentem as mãos do encanto
e assim a apostasia e os cálculos renais
dissolvem-se sem menos e sem mais
nos dias e noites de um pão que a vida fatia.
Ó, quem não percebeu em si estes rituais,
chame-se Laura, Rafael, João ou Maria ?

*

NOTA: Poema escrito sob a lembrança, a admiração,
ou seja lá o que for, dos anos em que o diplomata
João Cabral de Melo Neto trabalhou na cidade de
Sevilha - cidade pela qual tomou grande afeição.
983

Trevos



De uma forma ou de outra
vamos à cata de grãos que vinguem
e de água que nos lave os erros.

Anda-se nos calcanhares
com a linha do equador nos cotovelos
e o amor mastigando dúvidas

e se no verso infinito da solidão
um homem corre com outro, demente,
o dia fecha em baixa

porque outro homem foi morto
a toque de caixa, por juros pendentes.
1 025

Sancho Pança revisitado



Prepara-te, Sancho, para os encontros e as despedidas                                                                              de hoje, que os ângulos do amanhã não podem esperaar                                                                     (serás governador, porque o delirante prometeu-te).

Areja então as mãos com o sumo do espanto, e conta                                                                             mais aforismos e pilhérias que mantenham cegos de riso
os da feira - pura filosofia entre legumes e frutas e vinho. 

Ao longe o mar, do outro lado da rua 
luz trêmula, luz de melaço, sempre um teatro por fazer
num lugar por visitar; Prepara-te, velho poltrão,
que o mundo te quer sempre rolando feito um seixo.
 

907

Têmpera



Reiterando sua rede de percepções
um homem vai a mais dúvidas, mais pedras, que a ele 
não lhe cabe nada ameno, só babar pelo risco dos metais.

Vida de voo está mais além disso.

Quem sabe se com os ossos de ontem, as dívidas a cobrar,
e se bem medida a reação dos vivos abra-se o assombro
por trás do qual há pessoas rindo-se

à vaca solta, desatentos ao teor dos véus
em sua crista, que um homem sabe o que fazer de outro: 
pasta espelho relho ralo tambor cinzas.

799

Teia


Visão do apocalipse é o que vês
sobre os morros fumegando
mas te enganas de todo 
quando pões estranhezas no natural.

Eis o crime, normal, à tua porta

a boca da injúria vindo em ondas
 
como um jorro que as luzes
da aldeia disfarçam com ânsia
doentia, renovada, e as peças

do tabuleiro mudam de conceito
sem se darem por isso os da aldeia.

Cansados estão velhos e moços
sem prumo definido, em paz

não se dorme num batente de cruz.

938

Sete anéis



1.
Dar cobro aos assuntos
cobertos, nem mesmo apostasias a salvo

2.
o tempo será abolido, mãe pressa
espaço perderá memória, memória de dois tempos de verbo
coisa pouca, danação é viver
para trás

3.
nomes no muro
não há notícia de que o céu
da boca tenha caído em desuso
e o inferno
desistido de suas causas. Correr corremos
enquanto lutamos

4.
eis o homem e sua corte: fala
riso andadura
cuspo sêmen suor lágrima fatura

5.
se o peito se faz museu
onde cavalos antigos trotam sobre a inércia ou solução final
de tantos, ir ao circo - palhaços são emplastro talvez panaceia
não eufemismo

6.
os loucos estão em fila os prepostos do malsão
dispostos em fila indiana no pátio
desgarrados riem
e só baratas percevejos pulgas e ratos parecem sabê-los como são
de fato

7.
buscar pelo pormenor em falta
o que nos distingue anuros micruros ou macruros
873

Milagre dos peixes

 

Não recordo como eras no último outono, mas

embora passado pouco tempo, os peixes
chamando por ti, e com o assunto reclamando vistas,
fui aos peixes, não a milagres
que pudesse talvez o amor fazer; por isso não me lembro
como eras no último verão em que salgamos em demasia
a carne, e logo se fez tenebroso inverno, e sob a capa de gelo
nenhum peixe foi mais possível. Nada.

Restou a ponte da amizade.

***

Darlan M Cunha. O ar em seu estado natural  - Textos sobre letras do Clube da Esquina.
Editora CBJE, Rio de Janeiro, 2010, p. 40
992

Livros

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Comentários (3)

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Bopa poesia Darlan (continua)

Sônia Brandão
Sônia Brandão

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

sergioricardo

Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.