Ipês-amarelos o ano inteiro

hoje não posso morrer

porque amanhã preciso

entregar um relatório.

 

(essa necessidade

de agradar é uma forma

esquisita de narcisismo.)

 

atravesso a passarela

e sinto o ímpeto de mergulhar

de ponta no asfalto, mas

 

hoje não posso morrer

porque o RH preparou

uma campanha legal

 

de setembro amarelo

e seria inconveniente

morrer por agora.

 

(é curioso que,

em setembro, os ipês pintem

a cidade de amarelo —

 

como se Deus

quisesse nos transmitir

uma mensagem.)

 

hoje não posso morrer

porque quero mandar

meu chefe à puta que pariu,

 

não que eu fazê-lo,

mas gosto da ideia

de haver essa possibilidade.

 

a Morte me espreita,

apaixonada, e nosso flerte

se estende há anos, mas

 

hoje não posso morrer

porque nunca comi camarão

e pode ser que seja bom.

 

(as coisas que não fiz

serão sempre mais numerosas

do que aquelas que fiz,

 

mas, pensando bem,

as coisas que não vou repetir

são as que me doem mais —

 

hoje não posso morrer

porque as lembranças

precisam de mim para existir.)

 

hoje não posso morrer

porque ainda estou reunindo

os convidados do meu funeral.

 

(não busco pessoas que chorem

a minha morte, mas que sorriam

ao lembrar que eu existi.)

 

hoje não posso morrer

porque é possível que eu encontre

um amor para recomeçar,

 

não que eu encontrá-lo,

mas gosto da ideia

de haver essa possibilidade.

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