no começo da vida,

colecionou cartões telefônicos,

figurinhas de Copa do Mundo

e bolinhas de gude;

depois colecionou

camisetas de bandas,

pingentes e bottons;

 

chegando à vida adulta

percebeu que, na verdade,

em vez de acumular bens,

acumulava perdas.

 

no início, perdeu

a infância e a juventude,

e com elas perdeu

os cartões telefônicos,

as figurinhas de Copa do Mundo,

as bolinhas de gude,

as camisetas de bandas,

os pingentes e os bottons.

 

da mesma forma que os cabelos

no topo da cabeça,

esses itens foram sumindo

gradativa e imperceptivelmente,

surrupiados pelo Tempo,

e o desfalque só foi notado

quando lhe faltava pouco.

 

as perdas se sucediam:

perdeu os amigos de infância

para a morte ou para a vida adulta,

perdeu três cachorros,

perdeu a bicicleta,

perdeu o futuro que planejara

na juventude.

 

perdeu ônibus e trens,

perdeu oportunidades

de falar e de ficar calado,

perdeu empregos,

perdeu os avós,

perdeu paixões,

perdeu um amor,

perdeu a imagem que tinha de si.

 

quanto mais velho ficava,

maior se tornava a coleção de perdas,

aglomeradas num quartinho da memória

que se revelava cada vez mais estreito

para tantos suvenires.

 

perdeu mais amigos

para a morte e para a vida,

perdeu o carro,

perdeu tios e tias,

perdeu outro cachorro,

perdeu o pai,

perdeu a mãe,

perdeu a fé.

 

o que era a vida

senão um passeio

ao longo de um corredor

de degustações? —

veja, experimente um pouco,

só um pouquinho,

porque nada pode te pertencer

por muito tempo.

 

a coleção de perdas aumentava:

perdeu o segundo amor,

perdeu outras paixões,

perdeu a beleza,

perdeu o tesão,

perdeu mais amigos para a morte,

perdeu as versões de si

que havia colocado no lugar

das versões perdidas.

 

foi perdendo também as lembranças,

de modo que o quartinho da memória,

antes abarrotado com a coleção de perdas,

foi se esvaziando e se esvaziando,

numa varredura brutal do Tempo,

que deixaria ficar, empoeiradas,

apenas as lembranças mais importantes.

 

por fim perderia a vida,

afinal, começara a morrer

a partir do primeiro suspiro

na sala de parto.

 

mas não importava que fosse

um colecionador de perdas,

porque para perder

momentos, amigos e amores

era necessário haver possuído

momentos, amigos e amores,

ainda que por um instante,

 

de modo que, estranhamente,

colecionar perdas

como troféus no quarto da memória

simbolizava a maior façanha

que um ser humano

poderia realizar.

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