A inquietação que não tinha nome

Havia algo diferente.

Não era tristeza.

Também não era felicidade.

Era apenas um silêncio
que se instalava por dentro
sempre que o mundo
ficava em paz.

Os dias seguiam iguais.

O relógio cumpria seu ofício.

As estações mudavam de roupa.

As pessoas sorriam,
planejavam,
corriam.

Mas havia uma parte da alma
que já não acompanhava
o mesmo ritmo.

Era como ouvir,
ao longe,
uma melodia
que ninguém mais parecia escutar.

Tentou dar nomes.

Chamou de cansaço.

Depois de saudade.

Mais tarde,
de medo.

Nenhum deles serviu.

Porque algumas inquietações
não nascem da dor.

Nascem do crescimento.

São sementes rompendo a terra,
raízes procurando profundidade,
asas descobrindo
que já não pertencem ao chão.

Há mudanças
que começam muito antes
de qualquer decisão.

Primeiro,
a alma deixa de caber
na vida que conhecia.

Depois,
o coração aprende
a desejar horizontes
que os olhos
ainda não conseguem enxergar.

E só muito tempo depois
a mente compreende
aquilo que o silêncio
já sabia desde o início:

a inquietação
nunca foi um problema.

Era apenas a vida
chamando,
com delicadeza,
para um lugar
onde ainda não existiam
palavras,

mas já existia
destino.

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