O país do não-país (VI) (1977)
O não-país surge depois das festas, quando as luzes se apagam e se compreende que nunca houve festa.
Quando os sentidos se quebram como um palhaço partido, a mente vagueando pelas colinas, a música soando
ao longe.
O não-país surge quando se olha o céu, com os pés tocando a terra já só por acaso. Quando a tempestade
se acerca com palavras de amor e a festa se antevê, com as portas abertas de par em par.
Não há pátria nem há gente. E as insígnias dos velhos generais jazem nos subterrâneos, cobertas de pó.
Não há batalhas nem há glória.
Há uma música de flauta que percorre todo o tempo, libertando corpúsculos de anti-matéria multicolorida.
Há rios que correm apenas na imaginação, quando ela imagina rios.
No país do não-país ninguém se abraça na despedida, porque nunca há abraços e nunca há despedidas.
Ninguém se abraça à chegada, porque nunca há chegada, e quando se chega nunca se abraça ninguém,
porque nunca há ninguém.
Há uma estrada, um núcleo, e isso basta.
Não há luz, porque a luz é apenas o reverso das trevas, e em não-país nunca existem trevas.
Impossível saber quando se está em não-país.
Transpor o seu limiar significa não o perder jamais.
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