Os seres "superiores"
Os seres "superiores" têm rodas.
Os seres "inferiores" não.
Para alguns, não têm espinhos as rosas.
Para outros, toda a vida é um desvão.
E sobem trepadeiras p'lo orvalho.
É tão fria a manhã como a memória dela.
Por isso é que o passado é um espantalho,
tão frágil é, por isso, a caravela.
Zanzibar, Tonga -para o significado disto.
Não ria tanto desde a invenção da roda.
Cada religião tem por força o seu Cristo,
e cada roseiral a sua poda.
Sim, é claro que se irão lembrar de mim...
Luz ao fundo do tunel
A luz ao fundo do tunel pode ser a de um combóio.
Lendo Pessoa
Ah, Fernando, ainda um dia gostaria de conversar contigo, sem pressas, ao entardecer sereno de Lisboa.
A nossa conversa seria entre os espaços das palavras e a sua sombra em nós, entre o teu tempo e o meu, espíritos
partilhando algo universal, algo que transcende carpinteiros e poetas.
Se eu não sei o que é ser poeta, porque não mo explicas tu ? Mas tu não podes, viveste em Lisboa e partiste
para o indefinido muito antes de eu nascer. E, mesmo que tivéssemos sido contemporâneos, igual seria. Suspeito
que também tu não sabias o que é ser poeta.
Serias tu poeta ? Que fazias naquele tempo em Portugal, na Rua dos Douradores, discorrendo sobre assuntos
tão removidos do tempo e do espaço, sobretudo do espaço ? Ninguém te entendeu, ninguém jamais te entenderá.
Eu, serei apenas um leitor confuso, ou um escritor confuso, que julga ver nas entrelinhas de ti algo de real, ou o que
de real têm os sonhos.
O que tu não conseguiste dizer, nem eu nem ninguém o conseguirá nunca, mas tu tentáste-o sem medo e
sem escrúpulos, com toda a força da tua alma e da tua inteligência. Está aí o teu génio. Talvez, no entanto, o
tivesses dito, e muitas vezes, mas é que, afinal, tudo se esbateu por entre o sol poente.
Não acredites em magia
Não acredites em magia
ou em nada mais
desconfia das palavras
desconfia até da tua desconfiança
não te apaixones por nada
incluíndo tu próprio
não permitas que a alvorada te leve para sítios escuros
não tomes a luz do sol por garantida
o mundo não te deve nada
e tu nada deves ao mundo
não te apaixones
não acredites no que os teus olhos vêm
mas nem por isso deixes de o acreditar
deita fora o coração,
ele é inútil, é um fardo que não conduz a nada
se tiveres que ser louco
então sê louco
além disso, desconfia de tudo
Sem título
Das montanhas do absurdo eu desci, e encontrei-me sonhando por entre vapores de amor e loucura, ocultado de mim mesmo pelo nevoeiro da dúvida e da ignorância.
Longo foi o sonho do qual não tenho memória de ter nunca despertado, e o que vejo agora é uma pálida memória do que então vi.
Mas o amor parece transcender tudo, projectando sombras de colinas sobre a imensa vastidão, através de uma luz que arde mais brilhante do que as mais brilhantes estrelas.
Através da ignorância e da ilusão, de algum modo eu entendo a essência das coisas, disfarçada de contorcidas faces de loucura, erro e ódio irracional. A minha febre confunde a minha consciência até ao último limite, até que o doce descanso do sono vence o paroxismo de pensamentos desordenados, num voo etéreo que limpa e purifica o meu espírito.
E através da noite sobrevivo, esquecendo que sou imortal, circundando tempo e espaço, para retornar por fim ao meu precário corpo como o sol retorna a uma nova alvorada, um novo jardim de esperança.
Eu e o mundo
Verto sobre este papel sensações que me ultrapassam. O que sou eu para o mundo, e o que é ele para mim ?
Do meu percurso apenas mal conheço uma parte, e sei que é efémera e transitória, na escala maior do Universo. O mundo, onde nasci e onde hei-de perecer, existe há biliões de anos e o seu fim, se o tiver, está fora da nossa compreensão.
Se alguma vez compreendi o mundo não o poderia dizer, e suspeito que nem ele me compreendeu nunca. Cheguei por um acidente que afinal nada tinha de acidental; tinha que chegar e cheguei, nada mais.
Mas o correr dos anos não me harmonizou com o mundo, antes pelo contrário nos distanciou cada vez mais; inconsequente o facto de eu viver nele.
A minha infância e juventude foram peculiares, mas não muito distantes do que é entendido por normal. Os meus pais, que não eram analfabetos, tinham qualidades e defeitos como todos os outros, e ensinaram-me a viver da melhor maneira que sabiam. Nunca cheguei a duvidar do seu amor, mesmo quando
a prática dos seus ensinamentos lançou sombras sobre mim.
Mas entendo que o mundo nunca foi criado para ser perfeito; a verdade é que me encontrei aqui, onde tenho que viver sob leis que nunca aceitei e de que discordo. Eu e o mundo, como amantes que se uniram num momento de paixão mas que um dia se chegaram a detestar sem remédio nem apaziguamento.
Dentro da minha alma, a dúvida e o espanto são quase tão vastos como a minha ignorância; não sei o que deixei para trás nem o que encontrarei adiante.
E este momento em que escrevo é-me tão estranho como tudo mais, um sonho do qual nunca se acorda senão quando dormimos, um sonho que me fala de
amor, egoísta, imperfeito e incompleto.
DELÍRIO OU IMAGINAÇÃO (1973)
Arrastado, ergo-me violentamente contra o poema,
poema cintilante de cristal, de orvalho colorido
doiradas as palavras afluem em gritos eléctrónicos
em génesis de medo e êxodos
pela estrada da imaginação, nebulosa e fria,
grotescas formas saltam, e acusam, e correm,
longas vestes transparentes e infinitas
repletas de minúsculos espelhos multicores...
no ar do meu poema, gaivotas cospem restos de fascismo,
adornadas de estrelas, livres, vermelhas...
rochas de plástico marginam o mar fotografado,
irisadas de sal, nenúfares e arvéolas,
sonhando que o Homem já chegou à lua !...
suor cristalizado escorre nas faces dos palhaços,
que não representam mas vivem a sua vida,
com estilhaços de bandeiras que não puderam aproveitar.
eu, sem derrotar o poema estereoscópico,
ponho-lhe no túmulo uma flor fresca de papel
e digo-lhe que ninguém é culpado da minha
imaginação
TERRA (1973)
Terra da paranóia do amor
nunca mais te verão como eras dantes
acabaste, terra distante,
nunca mais te verão com mulheres nuas
com gatafunhos de vida vomitada
não, nunca mais te verão
como tu realmente eras, louca profundamente
terra da paranóia do amor
onde os dias se jogam e a derrota é tempo perdido
onde se bebe e onde se delira
onde se é tudo para além do monstro consciente
não nunca mais te verão
o sol à sexta-feira não fará de ti uma sombra
o sol não mais brincará contigo
porque não mais te verá...
ri-te agora dos que te chamaram louca
continuas a sê-lo, mas podes rir bem alto
és finalmente corpo enganador
e nunca mais te verão como eras
abstraíndo tudo ficam os que se riram de ti
os que te puderam tocar com as mãos
os que te viram
os que se julgaram um pouco mais acima
os que nunca mais te verão
na primavera das praias quentes abertas
das grutas das ondas da obscuridade
das estrelas amigas que nada puderam fazer por ti...
nunca mais te verão
país da paranóia do amor
onde o sol não surge à sexta-feira