Como passou, Sr. Alberto Caeiro ?
Como passou, Sr. Alberto Caeiro ?
Aperte aí a mão,
mas tire os óculos primeiro.
Então esses poemas de solidão ?
Aperte aí a mão como sabe fazer,
e mostre lá o poema que ainda não mostrou
a todos nós, que o queremos ler...
os outros, foi uma núvem que passou...
Não vale a pena ler o que escreveu,
porque foi só o que teria que ser.
Mas o tal poema em que viveu,
esse é que queremos ver.
É um fantasma, o Sr. Alberto Caeiro !
Dúvidas
Duvido das minhas certezas, mas estou certo das minhas dúvidas.
Os tambores já há muito se calaram
Não, os tambores já há muito se calaram
este batuque que oiço e do qual faço parte
é imaginação apenas
eu queria comprar o infinito
-louco, porque ele só dado é bom-
queria não ter nada por descobrir
e vejo coisas estranhas quando olho à minha volta
-vejo tardes de vida insubstancial,
perigosamente intensa e alheia.
Olha, amigo,
tu és tanto que és nada para mim,
um clarão tão violento que apenas vejo azul,
sonho tão forte, tão brusco, tão total,
e descubro que não posso comprar o infinito,
mas amo,
e há estátuas que sorriem...
Sorriso medieval
Sorriso medieval estático
a vibrar por dentro das cores
e um gesto hierático
desdobrando-se em diversos amores.
O rio e a floresta
bastante longe disto.
Os ecos de uma festa
em que se escolhe um Cristo.
E a montanha e a neve,
suores cristalizados de um teatro passageiro;
um sonho brusco e leve
mas que nos surge inteiro.
Um arrastar de asa dormente
de um réptil estelar,
a interjeição que persiste na mente
na hora de acordar.
E um riso. E um grito.
Desmaterializar a vida.
Fazer parte do mito
de uma espécie perdida.
Ave voando sobre o mar,
vento inclinando as árvores muito,
o sol outra vez a brilhar
e um silêncio furtuito.
Há um musgo a bater na filha,
sorvendo a vida com grandes colheradas de açucar
e preto-verde à beira-mar
como devem ser todas as algas
à beira-mar,
com um casaco de pescador sobre os ombros
e um cachimbo a flutuar nas marés,
com a voz dos afogados,
das estrelas marinhas,
e de todas as crianças famintas, com as mãos estendidas
a pontuar o luar...
Algures há um caminho empoeirado
Algures há um caminho empoeirado,
de um pó feliz, voando em turbilhões.
Feliz porque ignora as multidões,
porque é das gentes frias ignorado.
Nele vagueia um Deus amortalhado,
porque, cansado de tantas ilusões,
o Homem já não crê suas visões,
já não concebe um Ser crucificado.
Mas Ele existe, e é grande a sua história,
porque até mesmo p'ra criar este mundo de escória
foi necessário um Ser de dons supremos.
O tal caminho já o perdeu a Humanidade.
Fica muito longe, na terra da verdade,
e nele habita um Deus. Aonde ? Não sabemos !...
.
Sem pensamento não existe erro.
Digam-me que este navio vai chegar amanhã
Digam-me que este navio vai chegar amanhã
a um porto de sol.
Que as gaivotas virão comer à nossa mão.
Digam-me que a bruxa Fiama está morta,
que sorri, mas que o seu sorriso é de morte.
Digam-me que brincaram,
que apenas pretendiam jogar à cabra-cega.
Hoje, os cães ladraram como se não fosse hoje.
Se eu fosse cão, tinha mordido.
Se eu fosse gato, tinha arranhado.
Se eu fosse sonho, tinha fugido para os pés do Senhor Krishna.
Se eu fosse eu, tinha sentido montanhas de amor.
Falo cantando
Falo cantando e o meu canto não é belo
falo cantando e o meu canto tem a cor do luar
rio e o meu riso é máscara infinita
-quem me dera ser sonho para acabar depressa...
deram-me a fala como prémio
e os olhos como castigo
vejo, e o que vejo quase me cega
como se os meus olhos fossem os únicos culpados
choro como se as lágrimas fossem a única realidade,
felizes os que olham a vida como uma manhã,
falo e deliro como um sol de tempestade,
é noite é chuva é cansaço,
loucos os que nunca foram loucos
os que nunca falharam,
mas eu agradeço a todos os leigos
que vivem comigo e me purificam
e me preparam para outros mundos
onde ninguém ainda chegou
O ídolo, de costas
O ídolo, de costas.
Não é o tempo de acreditar em ídolos,
é senti-los esvoaçar no fantástico.
Voltando-se, devagar.
Nada mais resta.
Tudo está caído pelo chão,
como uma alma morta e ausente
a sentir nos ouvidos a música de ontem.
A pedra, o monumento.
A figura geométrica sobre um papel.
As palavras em leque,
imagens de feiras perpassadas de nevoeiro.
O amigo.
De costas, voltando-se devagar.
Do seu rosto pendem flocos de neve,
e nos seus olhos vibra a música sem sentido.
Estendo a mão, plano.
Nada.
Tudo está acabado,
a caminho de uma grande manhã.
É uma névoa que está na noite.
É um fantasma alado sem olhos e sem braços,
colhendo pétalas de flor de lótus.
É uma criança olhando o poente,
um prado com uma ponte.
A estátua e a estrada para o além,
ladeada de árvores e retiros familiares.
Tudo permanece em movimento.
O chão, as casas.
O plano e o tempo.
O ídolo,
cravando os seus olhos de barro
em teatros mágicos.
Tudo permanece encerrado em si mesmo.
Tudo concentrado em tudo.
Os sons, com braços de outros corpos,
o mar, com reflexos de outras coisas...
O ídolo, a pedra e a memória.
Os horizontes transmutados.
A permutação de tudo.
Fora um pequeno ramo, que baloiça devagar.