O ídolo, de costas
O ídolo, de costas.
Não é o tempo de acreditar em ídolos,
é senti-los esvoaçar no fantástico.
Voltando-se, devagar.
Nada mais resta.
Tudo está caído pelo chão,
como uma alma morta e ausente
a sentir nos ouvidos a música de ontem.
A pedra, o monumento.
A figura geométrica sobre um papel.
As palavras em leque,
imagens de feiras perpassadas de nevoeiro.
O amigo.
De costas, voltando-se devagar.
Do seu rosto pendem flocos de neve,
e nos seus olhos vibra a música sem sentido.
Estendo a mão, plano.
Nada.
Tudo está acabado,
a caminho de uma grande manhã.
É uma névoa que está na noite.
É um fantasma alado sem olhos e sem braços,
colhendo pétalas de flor de lótus.
É uma criança olhando o poente,
um prado com uma ponte.
A estátua e a estrada para o além,
ladeada de árvores e retiros familiares.
Tudo permanece em movimento.
O chão, as casas.
O plano e o tempo.
O ídolo,
cravando os seus olhos de barro
em teatros mágicos.
Tudo permanece encerrado em si mesmo.
Tudo concentrado em tudo.
Os sons, com braços de outros corpos,
o mar, com reflexos de outras coisas...
O ídolo, a pedra e a memória.
Os horizontes transmutados.
A permutação de tudo.
Fora um pequeno ramo, que baloiça devagar.
Algures há um caminho empoeirado
Algures há um caminho empoeirado,
de um pó feliz, voando em turbilhões.
Feliz porque ignora as multidões,
porque é das gentes frias ignorado.
Nele vagueia um Deus amortalhado,
porque, cansado de tantas ilusões,
o Homem já não crê suas visões,
já não concebe um Ser crucificado.
Mas Ele existe, e é grande a sua história,
porque até mesmo p'ra criar este mundo de escória
foi necessário um Ser de dons supremos.
O tal caminho já o perdeu a Humanidade.
Fica muito longe, na terra da verdade,
e nele habita um Deus. Aonde ? Não sabemos !...
Outono revisitado (1993)
Imagino pomares em que os ramos pendem pelo peso dos frutos,
poentes calmos depois de uma tarde ligeira,
não obstante um labor talvez pesado.
Imagino o canto atarefado de aves que esvoaçam,
procurando o abrigo que lhes está reservado.
O amanhã é longínquo como o ontem
mas agora há uma noção suave de regressar ao lar.
E eu sei que esse instante não durará sempre,
será esquecido, será perdido.
Os frutos cairão de podres,
ouvir-se-á falar de parasitas
e os ramos tombarão sobre as ervas daninhas.
Os poentes tomarão tonalidades novas,
mas ninguém estará lá para limpar o suor do rosto.
Nem o lar será mais o que fora outrora.
Aves esvoaçam, sim,
como um elo elemental ligando o passado ao futuro
ou o presente ao passado.
Eu, como um fantasma vivo, observo as árvores,
absorvo o poente e os frutos ao redor de mim
e desconheço profundamente o rumo e o destino
deste teatro tão real...
Como passou, Sr. Alberto Caeiro ?
Como passou, Sr. Alberto Caeiro ?
Aperte aí a mão,
mas tire os óculos primeiro.
Então esses poemas de solidão ?
Aperte aí a mão como sabe fazer,
e mostre lá o poema que ainda não mostrou
a todos nós, que o queremos ler...
os outros, foi uma núvem que passou...
Não vale a pena ler o que escreveu,
porque foi só o que teria que ser.
Mas o tal poema em que viveu,
esse é que queremos ver.
É um fantasma, o Sr. Alberto Caeiro !
Digam-me que este navio vai chegar amanhã
Digam-me que este navio vai chegar amanhã
a um porto de sol.
Que as gaivotas virão comer à nossa mão.
Digam-me que a bruxa Fiama está morta,
que sorri, mas que o seu sorriso é de morte.
Digam-me que brincaram,
que apenas pretendiam jogar à cabra-cega.
Hoje, os cães ladraram como se não fosse hoje.
Se eu fosse cão, tinha mordido.
Se eu fosse gato, tinha arranhado.
Se eu fosse sonho, tinha fugido para os pés do Senhor Krishna.
Se eu fosse eu, tinha sentido montanhas de amor.
Deve haver outro sentido para a vida
Deve haver outro sentido para a realidade lúcida da vida.
Deve haver outro estado de ser
onde a alegria serena não seja só um acidente.
Este mundo pesa-me, cheio de despedidas.
Vejo as cicatrizes e oiço os rufares de realidades bélicas,
tudo isso às vezes só na cabeça de alguns.
E a união aqui toma a forma macabra de rebanhos.
Vejo o sol sempre implacávelmente pontual,
embora por vezes os relógios tenham opinião diferente.
Vejo a lua, os livros cheios de Tao,
e a minha alma sofre com tudo isso,
sofre como se tivesse sangue e sangrasse,
como um louco consciente que não consegue adormecer nunca...
Terei eu a genialidade da poesia ?
E que bem virá ao mundo, se eu a tiver ?
Que espécie de gente serão esses a quem chamam poetas,
que incessantemente pensam em abrir portas e janelas
e querem crer que vêm através das portas e janelas fechadas
que nunca abriram, e provávelmente nunca abrirão ?
Ah! Deve haver por aí outra realidade para a realidade disto !
Deve haver por aí beijos e coisas,
patamares definitivos que nos tirem de vez esta impaciência estúpida,
que nos levem de novo para de onde nunca devíamos ter saído,
para brincarmos de novo
com os berlindes de cristal da realidade verdadeiramente lúcida,
da realidade final que fica para além de todos os enigmas...
A noite dos loucos
Caiu por fim a noite enluarada
no carnaval dos loucos invisíveis,
já sem fim nem princípio, insensíveis
tanto à fada do sonho como à sede do nada.
Mas de todas as cores está pintada
essa mente e esse corpo, imprevisíveis.
Amor... razão... loucuras impossíveis
já há muito deixaram a face desgrenhada.
Ecos... estrelas... a noite permanente...
os sorrisos na mão de toda a gente
como a máscara cruel de uma visão...
ao longe o mar... a festa inacabada...
e o frio macabro de lâmina de espada
a palpitar atrás do coração...
Há muito tempo
Há muito tempo, creio que durante a minha adolescência, cheguei a pensar que um dia poderia ser padre. Não é muito estranho, se considerarmos que também escrevi um soneto enaltecendo Salazar, um dos demónios portugueses. E não pensei só no sacerdócio, mas também
noutras categorias, como por exemplo monge. Monge é uma figura mais ascética, mais removida da religião visível, mais atraente para os
desiludidos da sociedade.
Existem figuras no meu passado que eu não sei se alguma vez foram reais, ou se foram apenas produtos da minha imaginação.
E isso leva-me a considerar se eu mesmo sou real, ou uma ilusão que permanece durante muito tempo.
Há muitos anos, mais do que a minha memória consegue esquecer, visitei com os meus pais o que restava de um mosteiro no alto de um
monte, no norte de portugal; ali, Deus tinha sido adorado, esquecido e ultrajado. Mas, não obstante isso, o ar era puro e altivo, desprendido
da planície, como que a meio caminho do céu. A igreja era linda, embora eu não me recorde dela, mas na sacristia, onde guardavam os
paramentos dos sacerdotes, havia um baú de madeira com muitos metros, e a tampa, também de madeira, era uma peça sólida e inteira.
Impossível saber se assim eram os intelectos dos que por ali passaram; não duvidando da sua fé ardente, quantas seriam as brechas, e
que profundas, nas almas dos ascetas ?
Mas o meu espírito elevou-se com essa experiência; o lugar era alto e extraordinário e falava do que mais puro pode existir entre nós.
A paisagem era fascinante, o vento soprava com uma liberdade benigna, o ar era rico e fragrante.
Nem eu, no dia de hoje, posso afirmar se o que percebi era real.
O dia avançava sobre si mesmo, e eu, miserável humano, senti fome. Uma refeição de pão e queijo foi encontrada, por boa vontade
dos locais, e até hoje outra igual não encontrei. Os cavalos regressavam do pasto, por si sós, pelas ruas da aldeia. Alucinações não eram. É
verdade que vi cavalos a trote pelas ruas da aldeia sem ninguém a guiá-los, mas eles sabiam aonde iam.
Gostaria de poder dizer isso, então, sobre mim próprio.
Mas senti, sem o poder compreender, que nesse mosteiro no cimo do monte, sem a luxúria de um futuro ainda desconhecido, me
poderia encontrar a mim mesmo, sem ver o meu rumo desviado por ilusões estranhas às minhas, nem sequer pelas minhas próprias
fraquezas.
Não sei porquê, mas chegámos tarde para o jantar.
Falo cantando
Falo cantando e o meu canto não é belo
falo cantando e o meu canto tem a cor do luar
rio e o meu riso é máscara infinita
-quem me dera ser sonho para acabar depressa...
deram-me a fala como prémio
e os olhos como castigo
vejo, e o que vejo quase me cega
como se os meus olhos fossem os únicos culpados
choro como se as lágrimas fossem a única realidade,
felizes os que olham a vida como uma manhã,
falo e deliro como um sol de tempestade,
é noite é chuva é cansaço,
loucos os que nunca foram loucos
os que nunca falharam,
mas eu agradeço a todos os leigos
que vivem comigo e me purificam
e me preparam para outros mundos
onde ninguém ainda chegou
Os tambores já há muito se calaram
Não, os tambores já há muito se calaram
este batuque que oiço e do qual faço parte
é imaginação apenas
eu queria comprar o infinito
-louco, porque ele só dado é bom-
queria não ter nada por descobrir
e vejo coisas estranhas quando olho à minha volta
-vejo tardes de vida insubstancial,
perigosamente intensa e alheia.
Olha, amigo,
tu és tanto que és nada para mim,
um clarão tão violento que apenas vejo azul,
sonho tão forte, tão brusco, tão total,
e descubro que não posso comprar o infinito,
mas amo,
e há estátuas que sorriem...