Viriato Oliveira

Viriato Oliveira

n. 1955 PT PT

n. 1955-12-02, Lisboa

Perfil
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Os seres "superiores"

                         Os seres "superiores" têm rodas.
                         Os seres "inferiores" não.
                         Para alguns, não têm espinhos as rosas.
                         Para outros, toda a vida é um desvão.

                          E sobem trepadeiras p'lo orvalho.
                          É tão fria a manhã como a memória dela.
                          Por isso é que o passado é um espantalho,
                          tão frágil é, por isso, a caravela.

                           Zanzibar, Tonga -para o significado disto.
                           Não ria tanto desde a invenção da roda.
                           Cada religião tem por força o seu Cristo,
                           e cada roseiral a sua poda.

                           Sim, é claro que se irão lembrar de mim...

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Biografia
Desde cedo adquiri um gosto pela leitura, lendo então Camões, Bocage, Quental e outros. Em breve comecei também a escrever sonetos. Mais tarde, senti a necessidade de me libertar dos constrangimentos da rima, e a minha poesia adquiriu um estilo mais pessoal; conheci outros poetas como José Régio, Florbela Espanca e Fernando Pessoa. O meu acervo poético representa o que escrevi desde os anos 70 até ao dia de hoje. Autor do livro "Poemas Para o Mundo", da Editorial Minerva. V.O.

Poemas

39

RELEMBRO O PASSADO (1981)

Relembro o passado.
Ninguém, de facto, me falou totalmente.
Nem eu segredei demasiadas vezes.
Os meus actos, fui eu a sua primeira e última testemunha.
Sempre fui eu a colher os frutos bons e os maus.
Não sei qual foi o entendimento entre mim e os outros,
creio que terá sido defeituoso em qualquer dos casos.
O meu perfume, ninguém o percebeu,
e ao mesmo tempo os meus sentidos ignoraram fragrâncias.
Fui talvez monstro, mas não para mim.
Sempre me julguei o herói da história,
mesmo no momento de ser enforcado.
Nunca dei nem recebi muito,
dias de tempestade, tive-os, como qualquer outro
mas, que eu saiba, as minhas tempestades sempre foram exclusivas...
128

O AMOR (1978)

O amor canta-se com quatro letras.
Contrói-se em cidades infinitas.
Tudo derruba e tudo constrói,
e cria mesmo o que foi destruído.
Não se escreve, canta-se.
Não se canta, sente-se.
Não se sente, respira-se com os olhos da alma.
Ele já corria pelas planícies antes de existir planícies
e, no fim de tudo,
continuará a correr pelas planícies...
113

VOANDO PELO ESPAÇO (1978)

Voando pelo espaço,
   estatelado no chão.
   Agarro-me ao balão
   e subo pelo traço.

   Mais uma vez o céu rodou um círculo completo à volta do horizonte 
e veio parar azul outra vez à minha janela.
   E eu, meio estúpido,
transformado em ave batendo as asas sem voar,
             fico a sonhar com todos e com ela,
   embalado nos braços de abstracto cúpido.
125

NAQUELE DIA

Naquele dia procurei-te no café. Estava calor e o sol delirava. Não estavas lá.
   Desesperado, procurei-te por onde pudesses estar. 
   Fui espreitar o jardim encantado, de flores vermelhas; por um telescópio espreitei o espaço, mas o foguetão que vi não tinha uma janela
por onde me pudesses acenar; procurei-te nas ruas, e descobri que as estrelas também dormem sem te encontrar.
   No café, os saquinhos de açucar continuavam a subir e a descer.
   Silencioso, olhei a tua fotografia. Fitavas-me com um sorriso cheio de desejo. Então, quando as palavras se juntavam num último orgasmo,
procurei-te em delírio para te pedir um cigarro.
   Não te encontrei e a noite caiu.
128

As coisas nem sempre são tão más como parecem

As coisas nem sempre são tão más como parecem; às vezes são muito, muito piores.
121

A Verdade

A Verdade pode ser pura, mas nunca é simples.
115

PRECIPITADA CALMA (1980)

Precipitada calma.
O aroma de frutos entre a horta e a colheita.
O sol na janela, manhã cedo.

A pomba dos meus sonhos esvoaçava ainda nos jardins de outrora.
E esse passado era uma planície verde nos campos da memória.
A vastidão era menos vasta;
mas nesses momentos o pensamento não via diferença alguma.
Sim, se eu rir...
se eu rir, de que rirei eu ?
Rirei do meu temor, às sombras calmas da tarde,
do meu sono fatigado, cheio de ecos ao longe.
Rirei da tua imagem,
a tua imagem longínqua que me afasta de mim,
da tua luz no teu olhar, a desfazer os horizontes do sonho...
Rirei das minhas lágrimas, ao poente da minha lembrança triste.
E ver-te-ei surgir, descendo docemente da fonte,
emoldurada de flores e dissipando suaves perfumes.
Rirei outra vez do meu cansaço estúpido.
O meu sonho de te sonhar tinha sido apenas o estar longe de ti.
113

JARDIM PARADISÍACO (1978)

Jardim paradisíaco
onde as mãos se encontravam,
e os sonhos passeavam
num horizonte idílico...
espessuras onde as aves
assomavam no céu,
e das franjas de um véu
pendiam risos graves.

Jardim nocturno onde à noite as árvores caminhavam libertas
pelas sombras das fontes,
em passos vegetais de raízes
e movimentos sincrónicos com a luz,
sorrindo no jardim
e mostrando o caminho para a casa de duendes amigos
que nos abriam na floresta a sua porta
e nos ofereciam à mesa os seus manjares mais raros,
partilhados com aves
e ocultos nas curvas acidentadas do jardim da cidade...
jardim onde a música escorria dos bancos e atravessava a praça,
às horas mortas em que os namorados tinham ido para casa
e o céu começava, com mãos amigas,
a lembrar que era tempo de recolher ao descanço da noite...
jardim louco onde se dançava à chuva, ignorando os espectros que passavam ao lado,
estendendo a mão e mostrando os olhos fixos no vazio,
enquanto procissões de formas sem conteúdo explodiam no espaço
e deixavam cores vivas no céu,
lá em cima no céu, no céu azul tão cheio de estrelas,
no doce céu que, sorrindo, nos viu nascer e crescer,
em banhos de azul que se perderam com o tempo...
jardim de dança onde se pousava o fardo por alguns momentos,
fingindo beber um pouco de água fresca
e encher o peito de brisas trigueiras e quentes,
para depis voltar à ceifa
e aos trabalhos pesados da faina...
jardim, jardim onde as palavras dançavam connosco,
em danças embalantes e sem sentido,
suando duramente das entranhas do ritmo
e atingindo cumes que nos eram proibídos,
dos quais tentávamos avistar a paisagem que sabíamos distante,
a paisagem que sabíamos invisível e oculta,
e por isso ali estávamos no jardim 
bebendo as sombras e o céu e as estrelas e a cidade e a luz,
à espera que a procissão passasse,
à espera de caírmos para dentro do beijo infinito e ilimitado,
sem jardins nem visões, nem estrelas, nem ânsias,
sem cidades nem céus...










130

NAVEGAR (1984)

Navego pela consciência de não pensar nisto.
   a tentar mascarar a minha solidão
   e a sonhar com o inverso do que me pesa
   pela janela aberta voam borboletas
   de dentro para fora
   e o ar é frio
   e eu estou do lado de dentro mas sei que o ar é frio do lado de fora. 
   a minha mente ultrapassa-me
   nesta corrida sem meta real
   e eu, o atleta que nunca vence,
   atiro-me abaixo do precipício de me cantarem na pela a vitória...
119

CALMARIA (1974)


Há qualquer coisa de calmo nessas folhas
será paz, distância ou apatia
-é a noite que cai...
há cores no céu, vermelho plácido
há árvores tombadas e livremente selvagens
do vento que soprou...
é a pequena morte de um dia de trabalho,
o silêncio é mais duro
e as folhas são ainda mais calmas...
há amor nas pedras, e nisso há já um pouco de ódio
há beleza no ar, e nisso há já um pouco de fealdade
mas a Natureza parece imutável...
nela há qualquer coisa de calmo, e nisso há já agitação
ao longe há montanhas e céu como aqui
de longe vem a agitação indecisa
que me torna humano
e me faz contemplar a calmaria da terra...
131

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