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Infinitos de cor pelos olhos filtram-se, cansados
são muitas estrelas onde também vivo,
vivo, sempre vivo, não obstante tudo
a morte sempre presente,
companheira fiel desde o berço
a música também, mas esporádicamente
sem solução para nada mas criando novos problemas
bem-vindos ao meu mundo, que afinal não é meu,
apenas sou um transeunte das sombras,
a beleza morreu para mim,
vejo-a com os olhos mas sinto-a distante,
afinal toda a beleza conduz à mesma loucura,
aquela mulher tão linda com olhos cor do mar onde caravelas se afundam,
seios nacarados a perscrutar orgasmos,
essa mulher traz abismos no olhar, o seu nome é loucura
o mundo tem bem e mal em partes iguais,
apenas o mal é muito mais visível
mas é infinito o bem que ainda persiste...
que estranho projecto este da "humanidade",
deve haver um propósito superior para tudo isto
mas ninguém sabe qual é.
O vento que é viageiro é que nos pode ensinar,
que há, para além do visível ?
que há, para além da vida e da morte ?
que há, de cada lado da loucura,
para lá dos abismos no olhar de uma mulher ?
Sem título
Das montanhas do absurdo eu desci, e encontrei-me sonhando por entre vapores de amor e loucura, ocultado de mim mesmo pelo nevoeiro da dúvida e da ignorância.
Longo foi o sonho do qual não tenho memória de ter nunca despertado, e o que vejo agora é uma pálida memória do que então vi.
Mas o amor parece transcender tudo, projectando sombras de colinas sobre a imensa vastidão, através de uma luz que arde mais brilhante do que as mais brilhantes estrelas.
Através da ignorância e da ilusão, de algum modo eu entendo a essência das coisas, disfarçada de contorcidas faces de loucura, erro e ódio irracional. A minha febre confunde a minha consciência até ao último limite, até que o doce descanso do sono vence o paroxismo de pensamentos desordenados, num voo etéreo que limpa e purifica o meu espírito.
E através da noite sobrevivo, esquecendo que sou imortal, circundando tempo e espaço, para retornar por fim ao meu precário corpo como o sol retorna a uma nova alvorada, um novo jardim de esperança.
Eu e o mundo
Verto sobre este papel sensações que me ultrapassam. O que sou eu para o mundo, e o que é ele para mim ?
Do meu percurso apenas mal conheço uma parte, e sei que é efémera e transitória, na escala maior do Universo. O mundo, onde nasci e onde hei-de perecer, existe há biliões de anos e o seu fim, se o tiver, está fora da nossa compreensão.
Se alguma vez compreendi o mundo não o poderia dizer, e suspeito que nem ele me compreendeu nunca. Cheguei por um acidente que afinal nada tinha de acidental; tinha que chegar e cheguei, nada mais.
Mas o correr dos anos não me harmonizou com o mundo, antes pelo contrário nos distanciou cada vez mais; inconsequente o facto de eu viver nele.
A minha infância e juventude foram peculiares, mas não muito distantes do que é entendido por normal. Os meus pais, que não eram analfabetos, tinham qualidades e defeitos como todos os outros, e ensinaram-me a viver da melhor maneira que sabiam. Nunca cheguei a duvidar do seu amor, mesmo quando
a prática dos seus ensinamentos lançou sombras sobre mim.
Mas entendo que o mundo nunca foi criado para ser perfeito; a verdade é que me encontrei aqui, onde tenho que viver sob leis que nunca aceitei e de que discordo. Eu e o mundo, como amantes que se uniram num momento de paixão mas que um dia se chegaram a detestar sem remédio nem apaziguamento.
Dentro da minha alma, a dúvida e o espanto são quase tão vastos como a minha ignorância; não sei o que deixei para trás nem o que encontrarei adiante.
E este momento em que escrevo é-me tão estranho como tudo mais, um sonho do qual nunca se acorda senão quando dormimos, um sonho que me fala de
amor, egoísta, imperfeito e incompleto.
TERRA (1973)
Terra da paranóia do amor
nunca mais te verão como eras dantes
acabaste, terra distante,
nunca mais te verão com mulheres nuas
com gatafunhos de vida vomitada
não, nunca mais te verão
como tu realmente eras, louca profundamente
terra da paranóia do amor
onde os dias se jogam e a derrota é tempo perdido
onde se bebe e onde se delira
onde se é tudo para além do monstro consciente
não nunca mais te verão
o sol à sexta-feira não fará de ti uma sombra
o sol não mais brincará contigo
porque não mais te verá...
ri-te agora dos que te chamaram louca
continuas a sê-lo, mas podes rir bem alto
és finalmente corpo enganador
e nunca mais te verão como eras
abstraíndo tudo ficam os que se riram de ti
os que te puderam tocar com as mãos
os que te viram
os que se julgaram um pouco mais acima
os que nunca mais te verão
na primavera das praias quentes abertas
das grutas das ondas da obscuridade
das estrelas amigas que nada puderam fazer por ti...
nunca mais te verão
país da paranóia do amor
onde o sol não surge à sexta-feira
DELÍRIO OU IMAGINAÇÃO (1973)
Arrastado, ergo-me violentamente contra o poema,
poema cintilante de cristal, de orvalho colorido
doiradas as palavras afluem em gritos eléctrónicos
em génesis de medo e êxodos
pela estrada da imaginação, nebulosa e fria,
grotescas formas saltam, e acusam, e correm,
longas vestes transparentes e infinitas
repletas de minúsculos espelhos multicores...
no ar do meu poema, gaivotas cospem restos de fascismo,
adornadas de estrelas, livres, vermelhas...
rochas de plástico marginam o mar fotografado,
irisadas de sal, nenúfares e arvéolas,
sonhando que o Homem já chegou à lua !...
suor cristalizado escorre nas faces dos palhaços,
que não representam mas vivem a sua vida,
com estilhaços de bandeiras que não puderam aproveitar.
eu, sem derrotar o poema estereoscópico,
ponho-lhe no túmulo uma flor fresca de papel
e digo-lhe que ninguém é culpado da minha
imaginação
RELEMBRO O PASSADO (1981)
Relembro o passado.
Ninguém, de facto, me falou totalmente.
Nem eu segredei demasiadas vezes.
Os meus actos, fui eu a sua primeira e última testemunha.
Sempre fui eu a colher os frutos bons e os maus.
Não sei qual foi o entendimento entre mim e os outros,
creio que terá sido defeituoso em qualquer dos casos.
O meu perfume, ninguém o percebeu,
e ao mesmo tempo os meus sentidos ignoraram fragrâncias.
Fui talvez monstro, mas não para mim.
Sempre me julguei o herói da história,
mesmo no momento de ser enforcado.
Nunca dei nem recebi muito,
dias de tempestade, tive-os, como qualquer outro
mas, que eu saiba, as minhas tempestades sempre foram exclusivas...
JARDIM PARADISÍACO (1978)
Jardim paradisíaco
onde as mãos se encontravam,
e os sonhos passeavam
num horizonte idílico...
espessuras onde as aves
assomavam no céu,
e das franjas de um véu
pendiam risos graves.
Jardim nocturno onde à noite as árvores caminhavam libertas
pelas sombras das fontes,
em passos vegetais de raízes
e movimentos sincrónicos com a luz,
sorrindo no jardim
e mostrando o caminho para a casa de duendes amigos
que nos abriam na floresta a sua porta
e nos ofereciam à mesa os seus manjares mais raros,
partilhados com aves
e ocultos nas curvas acidentadas do jardim da cidade...
jardim onde a música escorria dos bancos e atravessava a praça,
às horas mortas em que os namorados tinham ido para casa
e o céu começava, com mãos amigas,
a lembrar que era tempo de recolher ao descanço da noite...
jardim louco onde se dançava à chuva, ignorando os espectros que passavam ao lado,
estendendo a mão e mostrando os olhos fixos no vazio,
enquanto procissões de formas sem conteúdo explodiam no espaço
e deixavam cores vivas no céu,
lá em cima no céu, no céu azul tão cheio de estrelas,
no doce céu que, sorrindo, nos viu nascer e crescer,
em banhos de azul que se perderam com o tempo...
jardim de dança onde se pousava o fardo por alguns momentos,
fingindo beber um pouco de água fresca
e encher o peito de brisas trigueiras e quentes,
para depis voltar à ceifa
e aos trabalhos pesados da faina...
jardim, jardim onde as palavras dançavam connosco,
em danças embalantes e sem sentido,
suando duramente das entranhas do ritmo
e atingindo cumes que nos eram proibídos,
dos quais tentávamos avistar a paisagem que sabíamos distante,
a paisagem que sabíamos invisível e oculta,
e por isso ali estávamos no jardim
bebendo as sombras e o céu e as estrelas e a cidade e a luz,
à espera que a procissão passasse,
à espera de caírmos para dentro do beijo infinito e ilimitado,
sem jardins nem visões, nem estrelas, nem ânsias,
sem cidades nem céus...
NAQUELE DIA
Naquele dia procurei-te no café. Estava calor e o sol delirava. Não estavas lá.
Desesperado, procurei-te por onde pudesses estar.
Fui espreitar o jardim encantado, de flores vermelhas; por um telescópio espreitei o espaço, mas o foguetão que vi não tinha uma janela
por onde me pudesses acenar; procurei-te nas ruas, e descobri que as estrelas também dormem sem te encontrar.
No café, os saquinhos de açucar continuavam a subir e a descer.
Silencioso, olhei a tua fotografia. Fitavas-me com um sorriso cheio de desejo. Então, quando as palavras se juntavam num último orgasmo,
procurei-te em delírio para te pedir um cigarro.
Não te encontrei e a noite caiu.
NÃO HÁ ESPAÇO (1979)
Não há espaço para as paredes subirem verticais até ao sol que nasce.
Não há escalas para a desentoação original das palavras.
Não há nada concreto que tenha para vos dizer.,
apenas as silhuetas altas dos meus poemas
e rios que correm, formando um espelho à superfície,
mariposas breves que andam a abraçar as flores,
aromas que os céus trazem nas tardes chilreantes de verão,
paisagens brancas que vêm com o inverno.
Não há espaço para nada, as realidades acutilam-se
como se estivessem todas fechadas numa sala pequena e escura.
Só as planícies do além é que devem ser amplas e belas.