Lista de Poemas

PRECIPITADA CALMA (1980)

Precipitada calma.
O aroma de frutos entre a horta e a colheita.
O sol na janela, manhã cedo.

A pomba dos meus sonhos esvoaçava ainda nos jardins de outrora.
E esse passado era uma planície verde nos campos da memória.
A vastidão era menos vasta;
mas nesses momentos o pensamento não via diferença alguma.
Sim, se eu rir...
se eu rir, de que rirei eu ?
Rirei do meu temor, às sombras calmas da tarde,
do meu sono fatigado, cheio de ecos ao longe.
Rirei da tua imagem,
a tua imagem longínqua que me afasta de mim,
da tua luz no teu olhar, a desfazer os horizontes do sonho...
Rirei das minhas lágrimas, ao poente da minha lembrança triste.
E ver-te-ei surgir, descendo docemente da fonte,
emoldurada de flores e dissipando suaves perfumes.
Rirei outra vez do meu cansaço estúpido.
O meu sonho de te sonhar tinha sido apenas o estar longe de ti.
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RELEMBRO O PASSADO (1981)

Relembro o passado.
Ninguém, de facto, me falou totalmente.
Nem eu segredei demasiadas vezes.
Os meus actos, fui eu a sua primeira e última testemunha.
Sempre fui eu a colher os frutos bons e os maus.
Não sei qual foi o entendimento entre mim e os outros,
creio que terá sido defeituoso em qualquer dos casos.
O meu perfume, ninguém o percebeu,
e ao mesmo tempo os meus sentidos ignoraram fragrâncias.
Fui talvez monstro, mas não para mim.
Sempre me julguei o herói da história,
mesmo no momento de ser enforcado.
Nunca dei nem recebi muito,
dias de tempestade, tive-os, como qualquer outro
mas, que eu saiba, as minhas tempestades sempre foram exclusivas...
111

VOANDO PELO ESPAÇO (1978)

Voando pelo espaço,
   estatelado no chão.
   Agarro-me ao balão
   e subo pelo traço.

   Mais uma vez o céu rodou um círculo completo à volta do horizonte 
e veio parar azul outra vez à minha janela.
   E eu, meio estúpido,
transformado em ave batendo as asas sem voar,
             fico a sonhar com todos e com ela,
   embalado nos braços de abstracto cúpido.
110

A Verdade

A Verdade pode ser pura, mas nunca é simples.
99

O AMOR (1978)

O amor canta-se com quatro letras.
Contrói-se em cidades infinitas.
Tudo derruba e tudo constrói,
e cria mesmo o que foi destruído.
Não se escreve, canta-se.
Não se canta, sente-se.
Não se sente, respira-se com os olhos da alma.
Ele já corria pelas planícies antes de existir planícies
e, no fim de tudo,
continuará a correr pelas planícies...
94

As coisas nem sempre são tão más como parecem

As coisas nem sempre são tão más como parecem; às vezes são muito, muito piores.
104

Covid-19

Covid-19.
               Não a primeira pandemia nem a última.
               Aqui estamos, enfrentando um inimigo comum, mas com diversas estratégias que
por vezes se atacam entre si com mais violência do que atacam o inimigo; mas é aqui que
estamos, onde a força de viver se mistura com considerações económicas. Parece que aqueles
que amamos estão a prejudicar o futuro dos nossos investimentos; afinal, os mortos não
parecem produtivos e os vivos já não sabem se querem realmente viver.
               Isto não é de admirar, para quem de algum modo tem observado o percurso da
"humanidade" com uma mente fria e analítica.
               Também em evidência (para quem estiver acordado) estão as contradições
inerentes ao sistema capitalista. Este último, já tão encurralado até aos seus limites, sofre
agora un desafio gigantesco.
               Como é comum neste sistema, os mais fracos morrem primeiro. Paradoxalmente, a
lei da Natureza coincide com ele. Mas a Natureza, funcional como é e não mecânica, elude-nos
a todos. Os mais fracos são-no por variados motivos, talvez sofram de defeitos genéticos,
doenças crónicas, idade avançada, sistemas imunitários deficientes, ou talvez tenham
simplesmente um estatuto social inferior.
               Os sobreviventes, quaisquer que eles sejam, podem sobreviver apenas um curto 
espaço de tempo: em termos geológicos, um milénio é um abrir e fechar de olhos.
As economias, tal como estão construídas, estão a desmoronar-se. A própria vida parece
estar a perder valor, em face da necessidade de produzir.
               Mas produzir o quê? Mais riqueza para os que já são ricos ? Um mundo melhor
com menos poluição, menos guerras e menos fome ? Mais umas semanas de vida, para 
sucumbir mais adiante a este ou a outro vírus, ou a qualquer catástrofe que a ciência
ainda não antecipou ?
               Porque, meus amigos, a biologia é absolutamente apolítica, com um total
desprezo por estatutos sociais, pelas economias e pelas inconveniências que pode causar
às pessoas.
               Hesitamos entre preservar a vida e preservar a economia; é realmente uma
escolha pré-apocalíptica. Porque, segundo eu sei, os mortos não são produtivos nem 
podem sustentar indústrias de turismo, nem de armamento, nem de tráfico de droga,
nem de telefones inteligentes; esse é o domínio dos vivos.
               Quais são então os perigos que nos esperam ? Será o terrorismo, será o
Covid-19 ou o Covid-20, será algum asteróide inter-galáctico que se esmague contra o
planeta Terra, será o egoísmo e a ignorância que nos consomem, será a estúpidez que
acompanha a inteligência da nossa espécie, será algum outro perigo totalmente
desconhecido ?
               A espécie humana seguirá o seu percurso até ao fim; quando este terá lugar,
se o tiver, não sabemos.
               A Natureza, funcional e não mecânica, ultrapassar-nos-á. Quando finalmente
pensarmos que a conquistámos, isso marcará o fim dos nossos dias, e não seremos mais
do que dinossauros num Universo em constante mudança.
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A noite dos loucos

Caiu por fim a noite enluarada
no carnaval dos loucos invisíveis,
já sem fim nem princípio, insensíveis
tanto à fada do sonho como à sede do nada.

Mas de todas as cores está pintada
essa mente e esse corpo, imprevisíveis.
Amor... razão... loucuras impossíveis
já há muito deixaram a face desgrenhada.

Ecos... estrelas... a noite permanente...
os sorrisos na mão de toda a gente
como a máscara cruel de uma visão...

ao longe o mar... a festa inacabada...
e o frio macabro de lâmina de espada
a palpitar atrás do coração...
244

O ídolo, de costas

O ídolo, de costas.
Não é o tempo de acreditar em ídolos,
é senti-los esvoaçar no fantástico.
Voltando-se, devagar.
Nada mais resta.
Tudo está caído pelo chão,
como uma alma morta e ausente
a sentir nos ouvidos a música de ontem.
A pedra, o monumento.
A figura geométrica sobre um papel.
As palavras em leque,
imagens de feiras perpassadas de nevoeiro.
O amigo.
De costas, voltando-se devagar.
Do seu rosto pendem flocos de neve,
e nos seus olhos vibra a música sem sentido.
Estendo a mão, plano.
Nada.
Tudo está acabado,
a caminho de uma grande manhã.
É uma névoa que está na noite.
É um fantasma alado sem olhos e sem braços,
colhendo pétalas de flor de lótus.
É uma criança olhando o poente,
um prado com uma ponte.
A estátua e a estrada para o além,
ladeada de árvores e retiros familiares.
Tudo permanece em movimento.
O chão, as casas.
O plano e o tempo.
O ídolo,
cravando os seus olhos de barro
em teatros mágicos.
Tudo permanece encerrado em si mesmo.
Tudo concentrado em tudo.
Os sons, com braços de outros corpos,
o mar, com reflexos de outras coisas...
O ídolo, a pedra e a memória.
Os horizontes transmutados.
A permutação de tudo.
Fora um pequeno ramo, que baloiça devagar.
241

Há muito tempo

Há muito tempo, creio que durante a minha adolescência, cheguei a pensar que um dia poderia ser padre. Não é muito estranho, se considerarmos que também escrevi um soneto enaltecendo Salazar, um dos demónios portugueses. E não pensei só no sacerdócio, mas também
noutras categorias, como por exemplo monge. Monge é uma figura mais ascética, mais removida da religião visível, mais atraente para os
desiludidos da sociedade.
        Existem figuras no meu passado que eu não sei se alguma vez foram reais, ou se foram apenas produtos da minha imaginação.
        E isso leva-me a considerar se eu mesmo sou real, ou uma ilusão que permanece durante muito tempo.
        Há muitos anos, mais do que a minha memória consegue esquecer, visitei com os meus pais o que restava de um mosteiro no alto de um
monte, no norte de portugal; ali, Deus tinha sido adorado, esquecido e ultrajado. Mas, não obstante isso, o ar era puro e altivo, desprendido
da planície, como que a meio caminho do céu. A igreja era linda, embora eu não me recorde dela, mas na sacristia, onde guardavam os
paramentos dos sacerdotes, havia um baú de madeira com muitos metros, e a tampa, também de madeira, era uma peça sólida e inteira.
        Impossível saber se assim eram os intelectos dos que por ali passaram; não duvidando da sua fé ardente, quantas seriam as brechas, e
que profundas, nas almas dos ascetas ?
        Mas o meu espírito elevou-se com essa experiência; o lugar era alto e extraordinário e falava do que mais puro pode existir entre nós.
A paisagem era fascinante, o vento soprava com uma liberdade benigna, o ar era rico e fragrante.
         Nem eu, no dia de hoje, posso afirmar se o que percebi era real.
         O dia avançava sobre si mesmo, e eu, miserável humano, senti fome. Uma refeição de pão e queijo foi encontrada, por boa vontade
dos locais, e até hoje outra igual não encontrei. Os cavalos regressavam do pasto, por si sós, pelas ruas da aldeia. Alucinações não eram. É
verdade que vi cavalos  a trote pelas ruas da aldeia sem ninguém a guiá-los, mas eles sabiam aonde iam.
         Gostaria de poder dizer isso, então, sobre mim próprio.
         Mas senti, sem o poder compreender, que nesse mosteiro no cimo do monte, sem a luxúria de um futuro ainda desconhecido, me
poderia  encontrar a mim mesmo, sem ver o meu rumo desviado por ilusões estranhas às minhas, nem sequer pelas minhas próprias
fraquezas.
         Não sei porquê, mas chegámos tarde para o jantar.
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