Lista de Poemas
Como passou, Sr. Alberto Caeiro ?
Como passou, Sr. Alberto Caeiro ?
Aperte aí a mão,
mas tire os óculos primeiro.
Então esses poemas de solidão ?
Aperte aí a mão como sabe fazer,
e mostre lá o poema que ainda não mostrou
a todos nós, que o queremos ler...
os outros, foi uma núvem que passou...
Não vale a pena ler o que escreveu,
porque foi só o que teria que ser.
Mas o tal poema em que viveu,
esse é que queremos ver.
É um fantasma, o Sr. Alberto Caeiro !
Aperte aí a mão,
mas tire os óculos primeiro.
Então esses poemas de solidão ?
Aperte aí a mão como sabe fazer,
e mostre lá o poema que ainda não mostrou
a todos nós, que o queremos ler...
os outros, foi uma núvem que passou...
Não vale a pena ler o que escreveu,
porque foi só o que teria que ser.
Mas o tal poema em que viveu,
esse é que queremos ver.
É um fantasma, o Sr. Alberto Caeiro !
244
O prado é diferente do abismo
O prado é muito diferente do abismo,
príncipalmente se tem flores,
e a realidade é uma bola de sabão
que vai para onde a leva o vento.
Reparar nisto
é como estar sentado na montanha,
com o sol lá em cima
e o rio lá em baixo,
vendo as casas ao longe
e gostando de as ver longe.
A realidade é deixar o sossego das árvores
e correr para onde a pressa nos chama.
No meio do prado há um abismo.
E é impossível recordar, para lá do horizonte...
príncipalmente se tem flores,
e a realidade é uma bola de sabão
que vai para onde a leva o vento.
Reparar nisto
é como estar sentado na montanha,
com o sol lá em cima
e o rio lá em baixo,
vendo as casas ao longe
e gostando de as ver longe.
A realidade é deixar o sossego das árvores
e correr para onde a pressa nos chama.
No meio do prado há um abismo.
E é impossível recordar, para lá do horizonte...
246
Digam-me que este navio vai chegar amanhã
Digam-me que este navio vai chegar amanhã
a um porto de sol.
Que as gaivotas virão comer à nossa mão.
Digam-me que a bruxa Fiama está morta,
que sorri, mas que o seu sorriso é de morte.
Digam-me que brincaram,
que apenas pretendiam jogar à cabra-cega.
Hoje, os cães ladraram como se não fosse hoje.
Se eu fosse cão, tinha mordido.
Se eu fosse gato, tinha arranhado.
Se eu fosse sonho, tinha fugido para os pés do Senhor Krishna.
Se eu fosse eu, tinha sentido montanhas de amor.
a um porto de sol.
Que as gaivotas virão comer à nossa mão.
Digam-me que a bruxa Fiama está morta,
que sorri, mas que o seu sorriso é de morte.
Digam-me que brincaram,
que apenas pretendiam jogar à cabra-cega.
Hoje, os cães ladraram como se não fosse hoje.
Se eu fosse cão, tinha mordido.
Se eu fosse gato, tinha arranhado.
Se eu fosse sonho, tinha fugido para os pés do Senhor Krishna.
Se eu fosse eu, tinha sentido montanhas de amor.
251
Sorriso medieval
Sorriso medieval estático
a vibrar por dentro das cores
e um gesto hierático
desdobrando-se em diversos amores.
O rio e a floresta
bastante longe disto.
Os ecos de uma festa
em que se escolhe um Cristo.
E a montanha e a neve,
suores cristalizados de um teatro passageiro;
um sonho brusco e leve
mas que nos surge inteiro.
Um arrastar de asa dormente
de um réptil estelar,
a interjeição que persiste na mente
na hora de acordar.
E um riso. E um grito.
Desmaterializar a vida.
Fazer parte do mito
de uma espécie perdida.
Ave voando sobre o mar,
vento inclinando as árvores muito,
o sol outra vez a brilhar
e um silêncio furtuito.
Há um musgo a bater na filha,
sorvendo a vida com grandes colheradas de açucar
e preto-verde à beira-mar
como devem ser todas as algas
à beira-mar,
com um casaco de pescador sobre os ombros
e um cachimbo a flutuar nas marés,
com a voz dos afogados,
das estrelas marinhas,
e de todas as crianças famintas, com as mãos estendidas
a pontuar o luar...
a vibrar por dentro das cores
e um gesto hierático
desdobrando-se em diversos amores.
O rio e a floresta
bastante longe disto.
Os ecos de uma festa
em que se escolhe um Cristo.
E a montanha e a neve,
suores cristalizados de um teatro passageiro;
um sonho brusco e leve
mas que nos surge inteiro.
Um arrastar de asa dormente
de um réptil estelar,
a interjeição que persiste na mente
na hora de acordar.
E um riso. E um grito.
Desmaterializar a vida.
Fazer parte do mito
de uma espécie perdida.
Ave voando sobre o mar,
vento inclinando as árvores muito,
o sol outra vez a brilhar
e um silêncio furtuito.
Há um musgo a bater na filha,
sorvendo a vida com grandes colheradas de açucar
e preto-verde à beira-mar
como devem ser todas as algas
à beira-mar,
com um casaco de pescador sobre os ombros
e um cachimbo a flutuar nas marés,
com a voz dos afogados,
das estrelas marinhas,
e de todas as crianças famintas, com as mãos estendidas
a pontuar o luar...
232
Viajo
Viajo sobre uma linha recta sem princípio nem fim, que separa a loucura do mundo da razão. Ao caminhar pela vida, os meus pés pisam
alternadamente um e outro lado, num esforço permanente para manter o equilíbrio.
Mas, ao caminhar sobre esta linha como um funâmbulo, já não sei de que lado é o abismo mais profundo, nem sei se os abismos, reais ou
imaginários, estão para baixo ou para cima de mim.
Para preservar a sanidade mental que me resta, tenho que admitir a existência do cinzento, do meio termo, não obstante a minha inclinação
para pensar a preto e branco: as coisas ou são ou não são; se não são verdadeiras então são falsas, se não são reais então são imaginárias. As
tonalidades das cores serão para os poetas, naquela desmedida ânsia que também é a minha, de imitar o fantástico.
Porque a realidade é absurda, e o absurdo é real.
Aonde está a escuridão pode entrar a luz, mas onde está a luz não pode entrar a escuridão.
O meu destino humano é caminhar sobre aquela linha, sem saber de onde vim nem o que encontrarei amanhã; mas sei que é necessário
manter um passo firme e certo, sem fitar os abismos, sem temores irracionais nem vertigens de espanto.
Arde em mim um profundo sentido de mortalidade, sabendo no entanto que a minha essência é imortal.
alternadamente um e outro lado, num esforço permanente para manter o equilíbrio.
Mas, ao caminhar sobre esta linha como um funâmbulo, já não sei de que lado é o abismo mais profundo, nem sei se os abismos, reais ou
imaginários, estão para baixo ou para cima de mim.
Para preservar a sanidade mental que me resta, tenho que admitir a existência do cinzento, do meio termo, não obstante a minha inclinação
para pensar a preto e branco: as coisas ou são ou não são; se não são verdadeiras então são falsas, se não são reais então são imaginárias. As
tonalidades das cores serão para os poetas, naquela desmedida ânsia que também é a minha, de imitar o fantástico.
Porque a realidade é absurda, e o absurdo é real.
Aonde está a escuridão pode entrar a luz, mas onde está a luz não pode entrar a escuridão.
O meu destino humano é caminhar sobre aquela linha, sem saber de onde vim nem o que encontrarei amanhã; mas sei que é necessário
manter um passo firme e certo, sem fitar os abismos, sem temores irracionais nem vertigens de espanto.
Arde em mim um profundo sentido de mortalidade, sabendo no entanto que a minha essência é imortal.
237
Falo cantando
Falo cantando e o meu canto não é belo
falo cantando e o meu canto tem a cor do luar
rio e o meu riso é máscara infinita
-quem me dera ser sonho para acabar depressa...
deram-me a fala como prémio
e os olhos como castigo
vejo, e o que vejo quase me cega
como se os meus olhos fossem os únicos culpados
choro como se as lágrimas fossem a única realidade,
felizes os que olham a vida como uma manhã,
falo e deliro como um sol de tempestade,
é noite é chuva é cansaço,
loucos os que nunca foram loucos
os que nunca falharam,
mas eu agradeço a todos os leigos
que vivem comigo e me purificam
e me preparam para outros mundos
onde ninguém ainda chegou
falo cantando e o meu canto tem a cor do luar
rio e o meu riso é máscara infinita
-quem me dera ser sonho para acabar depressa...
deram-me a fala como prémio
e os olhos como castigo
vejo, e o que vejo quase me cega
como se os meus olhos fossem os únicos culpados
choro como se as lágrimas fossem a única realidade,
felizes os que olham a vida como uma manhã,
falo e deliro como um sol de tempestade,
é noite é chuva é cansaço,
loucos os que nunca foram loucos
os que nunca falharam,
mas eu agradeço a todos os leigos
que vivem comigo e me purificam
e me preparam para outros mundos
onde ninguém ainda chegou
228
Os tambores já há muito se calaram
Não, os tambores já há muito se calaram
este batuque que oiço e do qual faço parte
é imaginação apenas
eu queria comprar o infinito
-louco, porque ele só dado é bom-
queria não ter nada por descobrir
e vejo coisas estranhas quando olho à minha volta
-vejo tardes de vida insubstancial,
perigosamente intensa e alheia.
Olha, amigo,
tu és tanto que és nada para mim,
um clarão tão violento que apenas vejo azul,
sonho tão forte, tão brusco, tão total,
e descubro que não posso comprar o infinito,
mas amo,
e há estátuas que sorriem...
este batuque que oiço e do qual faço parte
é imaginação apenas
eu queria comprar o infinito
-louco, porque ele só dado é bom-
queria não ter nada por descobrir
e vejo coisas estranhas quando olho à minha volta
-vejo tardes de vida insubstancial,
perigosamente intensa e alheia.
Olha, amigo,
tu és tanto que és nada para mim,
um clarão tão violento que apenas vejo azul,
sonho tão forte, tão brusco, tão total,
e descubro que não posso comprar o infinito,
mas amo,
e há estátuas que sorriem...
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