Viriato Oliveira

Viriato Oliveira

n. 1955 PT PT

n. 1955-12-02, Lisboa

Perfil
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Lendo Pessoa

Ah, Fernando, ainda um dia gostaria de conversar contigo, sem pressas, ao entardecer sereno de Lisboa.
A nossa conversa seria entre os espaços das palavras e a sua sombra em nós, entre o teu tempo e o meu, espíritos
partilhando algo universal, algo que transcende carpinteiros e poetas.

          Se eu não sei o que é ser poeta, porque não mo explicas tu ? Mas tu não podes, viveste em Lisboa e partiste
para o indefinido muito antes de eu nascer. E, mesmo que tivéssemos sido contemporâneos, igual seria. Suspeito
que também tu não sabias o que é ser poeta.
           Serias tu poeta ? Que fazias naquele tempo em Portugal, na Rua dos Douradores, discorrendo sobre assuntos
tão removidos do tempo e do espaço, sobretudo do espaço ? Ninguém te entendeu, ninguém jamais te entenderá.
Eu, serei apenas um leitor confuso, ou um escritor confuso, que julga ver nas entrelinhas de ti algo de real, ou o que
de real têm os sonhos.
           O que tu não conseguiste dizer, nem eu nem ninguém o conseguirá nunca, mas tu tentáste-o sem medo e
sem escrúpulos, com toda a força da tua alma e da tua inteligência. Está aí o teu génio. Talvez, no entanto, o
tivesses dito, e muitas vezes, mas é que, afinal, tudo se esbateu por entre o sol poente.
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Biografia
Desde cedo adquiri um gosto pela leitura, lendo então Camões, Bocage, Quental e outros. Em breve comecei também a escrever sonetos. Mais tarde, senti a necessidade de me libertar dos constrangimentos da rima, e a minha poesia adquiriu um estilo mais pessoal; conheci outros poetas como José Régio, Florbela Espanca e Fernando Pessoa. O meu acervo poético representa o que escrevi desde os anos 70 até ao dia de hoje. Autor do livro "Poemas Para o Mundo", da Editorial Minerva. V.O.

Poemas

45

As coisas nem sempre são tão más como parecem

As coisas nem sempre são tão más como parecem; às vezes são muito, muito piores.
122

NAVEGAR (1984)

Navego pela consciência de não pensar nisto.
   a tentar mascarar a minha solidão
   e a sonhar com o inverso do que me pesa
   pela janela aberta voam borboletas
   de dentro para fora
   e o ar é frio
   e eu estou do lado de dentro mas sei que o ar é frio do lado de fora. 
   a minha mente ultrapassa-me
   nesta corrida sem meta real
   e eu, o atleta que nunca vence,
   atiro-me abaixo do precipício de me cantarem na pela a vitória...
121

CALMARIA (1974)


Há qualquer coisa de calmo nessas folhas
será paz, distância ou apatia
-é a noite que cai...
há cores no céu, vermelho plácido
há árvores tombadas e livremente selvagens
do vento que soprou...
é a pequena morte de um dia de trabalho,
o silêncio é mais duro
e as folhas são ainda mais calmas...
há amor nas pedras, e nisso há já um pouco de ódio
há beleza no ar, e nisso há já um pouco de fealdade
mas a Natureza parece imutável...
nela há qualquer coisa de calmo, e nisso há já agitação
ao longe há montanhas e céu como aqui
de longe vem a agitação indecisa
que me torna humano
e me faz contemplar a calmaria da terra...
132

VOANDO PELO ESPAÇO (1978)

Voando pelo espaço,
   estatelado no chão.
   Agarro-me ao balão
   e subo pelo traço.

   Mais uma vez o céu rodou um círculo completo à volta do horizonte 
e veio parar azul outra vez à minha janela.
   E eu, meio estúpido,
transformado em ave batendo as asas sem voar,
             fico a sonhar com todos e com ela,
   embalado nos braços de abstracto cúpido.
128

PRECIPITADA CALMA (1980)

Precipitada calma.
O aroma de frutos entre a horta e a colheita.
O sol na janela, manhã cedo.

A pomba dos meus sonhos esvoaçava ainda nos jardins de outrora.
E esse passado era uma planície verde nos campos da memória.
A vastidão era menos vasta;
mas nesses momentos o pensamento não via diferença alguma.
Sim, se eu rir...
se eu rir, de que rirei eu ?
Rirei do meu temor, às sombras calmas da tarde,
do meu sono fatigado, cheio de ecos ao longe.
Rirei da tua imagem,
a tua imagem longínqua que me afasta de mim,
da tua luz no teu olhar, a desfazer os horizontes do sonho...
Rirei das minhas lágrimas, ao poente da minha lembrança triste.
E ver-te-ei surgir, descendo docemente da fonte,
emoldurada de flores e dissipando suaves perfumes.
Rirei outra vez do meu cansaço estúpido.
O meu sonho de te sonhar tinha sido apenas o estar longe de ti.
113

A Verdade

A Verdade pode ser pura, mas nunca é simples.
117

O AMOR (1978)

O amor canta-se com quatro letras.
Contrói-se em cidades infinitas.
Tudo derruba e tudo constrói,
e cria mesmo o que foi destruído.
Não se escreve, canta-se.
Não se canta, sente-se.
Não se sente, respira-se com os olhos da alma.
Ele já corria pelas planícies antes de existir planícies
e, no fim de tudo,
continuará a correr pelas planícies...
114

Covid-19

Covid-19.
               Não a primeira pandemia nem a última.
               Aqui estamos, enfrentando um inimigo comum, mas com diversas estratégias que
por vezes se atacam entre si com mais violência do que atacam o inimigo; mas é aqui que
estamos, onde a força de viver se mistura com considerações económicas. Parece que aqueles
que amamos estão a prejudicar o futuro dos nossos investimentos; afinal, os mortos não
parecem produtivos e os vivos já não sabem se querem realmente viver.
               Isto não é de admirar, para quem de algum modo tem observado o percurso da
"humanidade" com uma mente fria e analítica.
               Também em evidência (para quem estiver acordado) estão as contradições
inerentes ao sistema capitalista. Este último, já tão encurralado até aos seus limites, sofre
agora un desafio gigantesco.
               Como é comum neste sistema, os mais fracos morrem primeiro. Paradoxalmente, a
lei da Natureza coincide com ele. Mas a Natureza, funcional como é e não mecânica, elude-nos
a todos. Os mais fracos são-no por variados motivos, talvez sofram de defeitos genéticos,
doenças crónicas, idade avançada, sistemas imunitários deficientes, ou talvez tenham
simplesmente um estatuto social inferior.
               Os sobreviventes, quaisquer que eles sejam, podem sobreviver apenas um curto 
espaço de tempo: em termos geológicos, um milénio é um abrir e fechar de olhos.
As economias, tal como estão construídas, estão a desmoronar-se. A própria vida parece
estar a perder valor, em face da necessidade de produzir.
               Mas produzir o quê? Mais riqueza para os que já são ricos ? Um mundo melhor
com menos poluição, menos guerras e menos fome ? Mais umas semanas de vida, para 
sucumbir mais adiante a este ou a outro vírus, ou a qualquer catástrofe que a ciência
ainda não antecipou ?
               Porque, meus amigos, a biologia é absolutamente apolítica, com um total
desprezo por estatutos sociais, pelas economias e pelas inconveniências que pode causar
às pessoas.
               Hesitamos entre preservar a vida e preservar a economia; é realmente uma
escolha pré-apocalíptica. Porque, segundo eu sei, os mortos não são produtivos nem 
podem sustentar indústrias de turismo, nem de armamento, nem de tráfico de droga,
nem de telefones inteligentes; esse é o domínio dos vivos.
               Quais são então os perigos que nos esperam ? Será o terrorismo, será o
Covid-19 ou o Covid-20, será algum asteróide inter-galáctico que se esmague contra o
planeta Terra, será o egoísmo e a ignorância que nos consomem, será a estúpidez que
acompanha a inteligência da nossa espécie, será algum outro perigo totalmente
desconhecido ?
               A espécie humana seguirá o seu percurso até ao fim; quando este terá lugar,
se o tiver, não sabemos.
               A Natureza, funcional e não mecânica, ultrapassar-nos-á. Quando finalmente
pensarmos que a conquistámos, isso marcará o fim dos nossos dias, e não seremos mais
do que dinossauros num Universo em constante mudança.
257

Viajo

Viajo sobre uma linha recta sem princípio nem fim, que separa a loucura do mundo da razão. Ao caminhar pela vida, os meus pés pisam
alternadamente um e outro lado, num esforço permanente para manter o equilíbrio.
        Mas, ao caminhar sobre esta linha como um funâmbulo, já não sei de que lado é o abismo mais profundo, nem sei se os abismos, reais ou
imaginários, estão para baixo ou para cima de mim.
        Para preservar a sanidade mental que me resta, tenho que admitir a existência do cinzento, do meio termo, não obstante a minha inclinação
para pensar a preto e branco: as coisas ou são ou não são; se não são verdadeiras então são falsas, se não são reais então são imaginárias. As
tonalidades das cores serão para os poetas, naquela desmedida ânsia que também é a minha, de imitar o fantástico.
        Porque a realidade é absurda, e o absurdo é real.
        Aonde está a escuridão pode entrar a luz, mas onde está a luz não pode entrar a escuridão.
        O meu destino humano é caminhar sobre aquela linha, sem saber de onde vim nem o que encontrarei amanhã; mas sei que é necessário
manter um passo firme e certo, sem fitar os abismos, sem temores irracionais nem vertigens de espanto.
        Arde em mim um profundo sentido de mortalidade, sabendo no entanto que a minha essência é imortal.
257

O prado é diferente do abismo

O prado é muito diferente do abismo,
príncipalmente se tem flores,
e a realidade é uma bola de sabão
que vai para onde a leva o vento.
Reparar nisto
é como estar sentado na montanha,
com o sol lá em cima
e o rio lá em baixo,
vendo as casas ao longe
e gostando de as ver longe.
A realidade é deixar o sossego das árvores
e correr para onde a pressa nos chama.

No meio do prado há um abismo.
E é impossível recordar, para lá do horizonte...
262

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