Viriato Oliveira

Viriato Oliveira

n. 1955 PT PT

n. 1955-12-02, Lisboa

Perfil
6 679 Visualizações

Lendo Pessoa

Ah, Fernando, ainda um dia gostaria de conversar contigo, sem pressas, ao entardecer sereno de Lisboa.
A nossa conversa seria entre os espaços das palavras e a sua sombra em nós, entre o teu tempo e o meu, espíritos
partilhando algo universal, algo que transcende carpinteiros e poetas.

          Se eu não sei o que é ser poeta, porque não mo explicas tu ? Mas tu não podes, viveste em Lisboa e partiste
para o indefinido muito antes de eu nascer. E, mesmo que tivéssemos sido contemporâneos, igual seria. Suspeito
que também tu não sabias o que é ser poeta.
           Serias tu poeta ? Que fazias naquele tempo em Portugal, na Rua dos Douradores, discorrendo sobre assuntos
tão removidos do tempo e do espaço, sobretudo do espaço ? Ninguém te entendeu, ninguém jamais te entenderá.
Eu, serei apenas um leitor confuso, ou um escritor confuso, que julga ver nas entrelinhas de ti algo de real, ou o que
de real têm os sonhos.
           O que tu não conseguiste dizer, nem eu nem ninguém o conseguirá nunca, mas tu tentáste-o sem medo e
sem escrúpulos, com toda a força da tua alma e da tua inteligência. Está aí o teu génio. Talvez, no entanto, o
tivesses dito, e muitas vezes, mas é que, afinal, tudo se esbateu por entre o sol poente.
Ler poema completo

Poemas

34

Digam-me que este navio vai chegar amanhã

Digam-me que este navio vai chegar amanhã
a um porto de sol.
Que as gaivotas virão comer à nossa mão.
Digam-me que a bruxa Fiama está morta,
que sorri, mas que o seu sorriso é de morte.
Digam-me que brincaram,
que apenas pretendiam jogar à cabra-cega.
Hoje, os cães ladraram como se não fosse hoje.
Se eu fosse cão, tinha mordido.
Se eu fosse gato, tinha arranhado.
Se eu fosse sonho, tinha fugido para os pés do Senhor Krishna.
Se eu fosse eu, tinha sentido montanhas de amor.
261

Os tambores já há muito se calaram

Não, os tambores já há muito se calaram
este batuque que oiço e do qual faço parte
é imaginação apenas
eu queria comprar o infinito
-louco, porque ele só dado é bom-
queria não ter nada por descobrir
e vejo coisas estranhas quando olho à minha volta
-vejo tardes de vida insubstancial,
perigosamente intensa e alheia.
Olha, amigo,
tu és tanto que és nada para mim,
um clarão tão violento que apenas vejo azul,
sonho tão forte, tão brusco, tão total,
e descubro que não posso comprar o infinito,
mas amo,
e há estátuas que sorriem...
252

Algures há um caminho empoeirado

Algures há um caminho empoeirado,
de um pó feliz, voando em turbilhões.
Feliz porque ignora as multidões,
porque é das gentes frias ignorado.

Nele vagueia um Deus amortalhado,
porque, cansado de tantas ilusões,
o Homem já não crê suas visões,
já não concebe um Ser crucificado.

Mas Ele existe, e é grande a sua história,
porque até mesmo p'ra criar este mundo de escória
foi necessário um Ser de dons supremos.

O tal caminho já o perdeu a Humanidade.
Fica muito longe, na terra da verdade,
e nele habita um Deus. Aonde ? Não sabemos !...
256

O ídolo, de costas

O ídolo, de costas.
Não é o tempo de acreditar em ídolos,
é senti-los esvoaçar no fantástico.
Voltando-se, devagar.
Nada mais resta.
Tudo está caído pelo chão,
como uma alma morta e ausente
a sentir nos ouvidos a música de ontem.
A pedra, o monumento.
A figura geométrica sobre um papel.
As palavras em leque,
imagens de feiras perpassadas de nevoeiro.
O amigo.
De costas, voltando-se devagar.
Do seu rosto pendem flocos de neve,
e nos seus olhos vibra a música sem sentido.
Estendo a mão, plano.
Nada.
Tudo está acabado,
a caminho de uma grande manhã.
É uma névoa que está na noite.
É um fantasma alado sem olhos e sem braços,
colhendo pétalas de flor de lótus.
É uma criança olhando o poente,
um prado com uma ponte.
A estátua e a estrada para o além,
ladeada de árvores e retiros familiares.
Tudo permanece em movimento.
O chão, as casas.
O plano e o tempo.
O ídolo,
cravando os seus olhos de barro
em teatros mágicos.
Tudo permanece encerrado em si mesmo.
Tudo concentrado em tudo.
Os sons, com braços de outros corpos,
o mar, com reflexos de outras coisas...
O ídolo, a pedra e a memória.
Os horizontes transmutados.
A permutação de tudo.
Fora um pequeno ramo, que baloiça devagar.
250

Viajo

Viajo sobre uma linha recta sem princípio nem fim, que separa a loucura do mundo da razão. Ao caminhar pela vida, os meus pés pisam
alternadamente um e outro lado, num esforço permanente para manter o equilíbrio.
        Mas, ao caminhar sobre esta linha como um funâmbulo, já não sei de que lado é o abismo mais profundo, nem sei se os abismos, reais ou
imaginários, estão para baixo ou para cima de mim.
        Para preservar a sanidade mental que me resta, tenho que admitir a existência do cinzento, do meio termo, não obstante a minha inclinação
para pensar a preto e branco: as coisas ou são ou não são; se não são verdadeiras então são falsas, se não são reais então são imaginárias. As
tonalidades das cores serão para os poetas, naquela desmedida ânsia que também é a minha, de imitar o fantástico.
        Porque a realidade é absurda, e o absurdo é real.
        Aonde está a escuridão pode entrar a luz, mas onde está a luz não pode entrar a escuridão.
        O meu destino humano é caminhar sobre aquela linha, sem saber de onde vim nem o que encontrarei amanhã; mas sei que é necessário
manter um passo firme e certo, sem fitar os abismos, sem temores irracionais nem vertigens de espanto.
        Arde em mim um profundo sentido de mortalidade, sabendo no entanto que a minha essência é imortal.
250

Há muito tempo

Há muito tempo, creio que durante a minha adolescência, cheguei a pensar que um dia poderia ser padre. Não é muito estranho, se considerarmos que também escrevi um soneto enaltecendo Salazar, um dos demónios portugueses. E não pensei só no sacerdócio, mas também
noutras categorias, como por exemplo monge. Monge é uma figura mais ascética, mais removida da religião visível, mais atraente para os
desiludidos da sociedade.
        Existem figuras no meu passado que eu não sei se alguma vez foram reais, ou se foram apenas produtos da minha imaginação.
        E isso leva-me a considerar se eu mesmo sou real, ou uma ilusão que permanece durante muito tempo.
        Há muitos anos, mais do que a minha memória consegue esquecer, visitei com os meus pais o que restava de um mosteiro no alto de um
monte, no norte de portugal; ali, Deus tinha sido adorado, esquecido e ultrajado. Mas, não obstante isso, o ar era puro e altivo, desprendido
da planície, como que a meio caminho do céu. A igreja era linda, embora eu não me recorde dela, mas na sacristia, onde guardavam os
paramentos dos sacerdotes, havia um baú de madeira com muitos metros, e a tampa, também de madeira, era uma peça sólida e inteira.
        Impossível saber se assim eram os intelectos dos que por ali passaram; não duvidando da sua fé ardente, quantas seriam as brechas, e
que profundas, nas almas dos ascetas ?
        Mas o meu espírito elevou-se com essa experiência; o lugar era alto e extraordinário e falava do que mais puro pode existir entre nós.
A paisagem era fascinante, o vento soprava com uma liberdade benigna, o ar era rico e fragrante.
         Nem eu, no dia de hoje, posso afirmar se o que percebi era real.
         O dia avançava sobre si mesmo, e eu, miserável humano, senti fome. Uma refeição de pão e queijo foi encontrada, por boa vontade
dos locais, e até hoje outra igual não encontrei. Os cavalos regressavam do pasto, por si sós, pelas ruas da aldeia. Alucinações não eram. É
verdade que vi cavalos  a trote pelas ruas da aldeia sem ninguém a guiá-los, mas eles sabiam aonde iam.
         Gostaria de poder dizer isso, então, sobre mim próprio.
         Mas senti, sem o poder compreender, que nesse mosteiro no cimo do monte, sem a luxúria de um futuro ainda desconhecido, me
poderia  encontrar a mim mesmo, sem ver o meu rumo desviado por ilusões estranhas às minhas, nem sequer pelas minhas próprias
fraquezas.
         Não sei porquê, mas chegámos tarde para o jantar.
256

Falo cantando

Falo cantando e o meu canto não é belo
falo cantando e o meu canto tem a cor do luar
rio e o meu riso é máscara infinita
-quem me dera ser sonho para acabar depressa...
deram-me a fala como prémio
e os olhos como castigo
vejo, e o que vejo quase me cega
como se os meus olhos fossem os únicos culpados
choro como se as lágrimas fossem a única realidade,
felizes os que olham a vida como uma manhã,
falo e deliro como um sol de tempestade,
é noite      é chuva      é cansaço,
loucos os que nunca foram loucos
os que nunca falharam,
mas eu        agradeço a todos os leigos
que vivem comigo e me purificam
e me preparam para outros mundos
onde ninguém ainda chegou
237

O prado é diferente do abismo

O prado é muito diferente do abismo,
príncipalmente se tem flores,
e a realidade é uma bola de sabão
que vai para onde a leva o vento.
Reparar nisto
é como estar sentado na montanha,
com o sol lá em cima
e o rio lá em baixo,
vendo as casas ao longe
e gostando de as ver longe.
A realidade é deixar o sossego das árvores
e correr para onde a pressa nos chama.

No meio do prado há um abismo.
E é impossível recordar, para lá do horizonte...
255

Arte

Arte é a procura do Absoluto.
259

Dúvidas

Duvido das minhas certezas, mas estou certo das minhas dúvidas.
262

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.