Viriato Oliveira

Viriato Oliveira

n. 1955 PT PT

n. 1955-12-02, Lisboa

Perfil
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Os seres "superiores"

                         Os seres "superiores" têm rodas.
                         Os seres "inferiores" não.
                         Para alguns, não têm espinhos as rosas.
                         Para outros, toda a vida é um desvão.

                          E sobem trepadeiras p'lo orvalho.
                          É tão fria a manhã como a memória dela.
                          Por isso é que o passado é um espantalho,
                          tão frágil é, por isso, a caravela.

                           Zanzibar, Tonga -para o significado disto.
                           Não ria tanto desde a invenção da roda.
                           Cada religião tem por força o seu Cristo,
                           e cada roseiral a sua poda.

                           Sim, é claro que se irão lembrar de mim...

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Biografia
Desde cedo adquiri um gosto pela leitura, lendo então Camões, Bocage, Quental e outros. Em breve comecei também a escrever sonetos. Mais tarde, senti a necessidade de me libertar dos constrangimentos da rima, e a minha poesia adquiriu um estilo mais pessoal; conheci outros poetas como José Régio, Florbela Espanca e Fernando Pessoa. O meu acervo poético representa o que escrevi desde os anos 70 até ao dia de hoje. Autor do livro "Poemas Para o Mundo", da Editorial Minerva. V.O.

Poemas

39

NÃO HÁ ESPAÇO (1979)

Não há espaço para as paredes subirem verticais até ao sol que nasce.
Não há escalas para a desentoação  original das palavras.
Não há nada concreto que tenha para vos dizer.,
apenas as silhuetas altas dos meus poemas
e rios que correm, formando um espelho à superfície,
mariposas breves que andam a abraçar as flores,
aromas que os céus trazem nas tardes chilreantes de verão,
paisagens brancas que vêm com o inverno.
Não há espaço para nada, as realidades acutilam-se
como se estivessem todas fechadas numa sala pequena e escura.
Só as planícies do além é que devem ser amplas e belas.
125

Covid-19

Covid-19.
               Não a primeira pandemia nem a última.
               Aqui estamos, enfrentando um inimigo comum, mas com diversas estratégias que
por vezes se atacam entre si com mais violência do que atacam o inimigo; mas é aqui que
estamos, onde a força de viver se mistura com considerações económicas. Parece que aqueles
que amamos estão a prejudicar o futuro dos nossos investimentos; afinal, os mortos não
parecem produtivos e os vivos já não sabem se querem realmente viver.
               Isto não é de admirar, para quem de algum modo tem observado o percurso da
"humanidade" com uma mente fria e analítica.
               Também em evidência (para quem estiver acordado) estão as contradições
inerentes ao sistema capitalista. Este último, já tão encurralado até aos seus limites, sofre
agora un desafio gigantesco.
               Como é comum neste sistema, os mais fracos morrem primeiro. Paradoxalmente, a
lei da Natureza coincide com ele. Mas a Natureza, funcional como é e não mecânica, elude-nos
a todos. Os mais fracos são-no por variados motivos, talvez sofram de defeitos genéticos,
doenças crónicas, idade avançada, sistemas imunitários deficientes, ou talvez tenham
simplesmente um estatuto social inferior.
               Os sobreviventes, quaisquer que eles sejam, podem sobreviver apenas um curto 
espaço de tempo: em termos geológicos, um milénio é um abrir e fechar de olhos.
As economias, tal como estão construídas, estão a desmoronar-se. A própria vida parece
estar a perder valor, em face da necessidade de produzir.
               Mas produzir o quê? Mais riqueza para os que já são ricos ? Um mundo melhor
com menos poluição, menos guerras e menos fome ? Mais umas semanas de vida, para 
sucumbir mais adiante a este ou a outro vírus, ou a qualquer catástrofe que a ciência
ainda não antecipou ?
               Porque, meus amigos, a biologia é absolutamente apolítica, com um total
desprezo por estatutos sociais, pelas economias e pelas inconveniências que pode causar
às pessoas.
               Hesitamos entre preservar a vida e preservar a economia; é realmente uma
escolha pré-apocalíptica. Porque, segundo eu sei, os mortos não são produtivos nem 
podem sustentar indústrias de turismo, nem de armamento, nem de tráfico de droga,
nem de telefones inteligentes; esse é o domínio dos vivos.
               Quais são então os perigos que nos esperam ? Será o terrorismo, será o
Covid-19 ou o Covid-20, será algum asteróide inter-galáctico que se esmague contra o
planeta Terra, será o egoísmo e a ignorância que nos consomem, será a estúpidez que
acompanha a inteligência da nossa espécie, será algum outro perigo totalmente
desconhecido ?
               A espécie humana seguirá o seu percurso até ao fim; quando este terá lugar,
se o tiver, não sabemos.
               A Natureza, funcional e não mecânica, ultrapassar-nos-á. Quando finalmente
pensarmos que a conquistámos, isso marcará o fim dos nossos dias, e não seremos mais
do que dinossauros num Universo em constante mudança.
254

Há muito tempo

Há muito tempo, creio que durante a minha adolescência, cheguei a pensar que um dia poderia ser padre. Não é muito estranho, se considerarmos que também escrevi um soneto enaltecendo Salazar, um dos demónios portugueses. E não pensei só no sacerdócio, mas também
noutras categorias, como por exemplo monge. Monge é uma figura mais ascética, mais removida da religião visível, mais atraente para os
desiludidos da sociedade.
        Existem figuras no meu passado que eu não sei se alguma vez foram reais, ou se foram apenas produtos da minha imaginação.
        E isso leva-me a considerar se eu mesmo sou real, ou uma ilusão que permanece durante muito tempo.
        Há muitos anos, mais do que a minha memória consegue esquecer, visitei com os meus pais o que restava de um mosteiro no alto de um
monte, no norte de portugal; ali, Deus tinha sido adorado, esquecido e ultrajado. Mas, não obstante isso, o ar era puro e altivo, desprendido
da planície, como que a meio caminho do céu. A igreja era linda, embora eu não me recorde dela, mas na sacristia, onde guardavam os
paramentos dos sacerdotes, havia um baú de madeira com muitos metros, e a tampa, também de madeira, era uma peça sólida e inteira.
        Impossível saber se assim eram os intelectos dos que por ali passaram; não duvidando da sua fé ardente, quantas seriam as brechas, e
que profundas, nas almas dos ascetas ?
        Mas o meu espírito elevou-se com essa experiência; o lugar era alto e extraordinário e falava do que mais puro pode existir entre nós.
A paisagem era fascinante, o vento soprava com uma liberdade benigna, o ar era rico e fragrante.
         Nem eu, no dia de hoje, posso afirmar se o que percebi era real.
         O dia avançava sobre si mesmo, e eu, miserável humano, senti fome. Uma refeição de pão e queijo foi encontrada, por boa vontade
dos locais, e até hoje outra igual não encontrei. Os cavalos regressavam do pasto, por si sós, pelas ruas da aldeia. Alucinações não eram. É
verdade que vi cavalos  a trote pelas ruas da aldeia sem ninguém a guiá-los, mas eles sabiam aonde iam.
         Gostaria de poder dizer isso, então, sobre mim próprio.
         Mas senti, sem o poder compreender, que nesse mosteiro no cimo do monte, sem a luxúria de um futuro ainda desconhecido, me
poderia  encontrar a mim mesmo, sem ver o meu rumo desviado por ilusões estranhas às minhas, nem sequer pelas minhas próprias
fraquezas.
         Não sei porquê, mas chegámos tarde para o jantar.
261

Outono revisitado (1993)

Imagino pomares em que os ramos pendem pelo peso dos frutos,
poentes calmos depois de uma tarde ligeira,
não obstante um labor talvez pesado.
Imagino o canto atarefado de aves que esvoaçam,
procurando o abrigo que lhes está reservado.
O amanhã é longínquo como o ontem
mas agora há uma noção suave de regressar ao lar.
E eu sei que esse instante não durará sempre,
será esquecido, será perdido.
Os frutos cairão de podres,
ouvir-se-á falar de parasitas
e os ramos tombarão sobre as ervas daninhas.
Os poentes tomarão tonalidades novas,
mas ninguém estará lá para limpar o suor do rosto.
Nem o lar será mais o que fora outrora.
Aves esvoaçam, sim,
como um elo elemental ligando o passado ao futuro
ou o presente ao passado.
Eu, como um fantasma vivo, observo as árvores,
absorvo o poente e os frutos ao redor de mim
e desconheço profundamente o rumo e o destino
deste teatro tão real...
276

Viajo

Viajo sobre uma linha recta sem princípio nem fim, que separa a loucura do mundo da razão. Ao caminhar pela vida, os meus pés pisam
alternadamente um e outro lado, num esforço permanente para manter o equilíbrio.
        Mas, ao caminhar sobre esta linha como um funâmbulo, já não sei de que lado é o abismo mais profundo, nem sei se os abismos, reais ou
imaginários, estão para baixo ou para cima de mim.
        Para preservar a sanidade mental que me resta, tenho que admitir a existência do cinzento, do meio termo, não obstante a minha inclinação
para pensar a preto e branco: as coisas ou são ou não são; se não são verdadeiras então são falsas, se não são reais então são imaginárias. As
tonalidades das cores serão para os poetas, naquela desmedida ânsia que também é a minha, de imitar o fantástico.
        Porque a realidade é absurda, e o absurdo é real.
        Aonde está a escuridão pode entrar a luz, mas onde está a luz não pode entrar a escuridão.
        O meu destino humano é caminhar sobre aquela linha, sem saber de onde vim nem o que encontrarei amanhã; mas sei que é necessário
manter um passo firme e certo, sem fitar os abismos, sem temores irracionais nem vertigens de espanto.
        Arde em mim um profundo sentido de mortalidade, sabendo no entanto que a minha essência é imortal.
255

O prado é diferente do abismo

O prado é muito diferente do abismo,
príncipalmente se tem flores,
e a realidade é uma bola de sabão
que vai para onde a leva o vento.
Reparar nisto
é como estar sentado na montanha,
com o sol lá em cima
e o rio lá em baixo,
vendo as casas ao longe
e gostando de as ver longe.
A realidade é deixar o sossego das árvores
e correr para onde a pressa nos chama.

No meio do prado há um abismo.
E é impossível recordar, para lá do horizonte...
258

Arte

Arte é a procura do Absoluto.
263

A noite dos loucos

Caiu por fim a noite enluarada
no carnaval dos loucos invisíveis,
já sem fim nem princípio, insensíveis
tanto à fada do sonho como à sede do nada.

Mas de todas as cores está pintada
essa mente e esse corpo, imprevisíveis.
Amor... razão... loucuras impossíveis
já há muito deixaram a face desgrenhada.

Ecos... estrelas... a noite permanente...
os sorrisos na mão de toda a gente
como a máscara cruel de uma visão...

ao longe o mar... a festa inacabada...
e o frio macabro de lâmina de espada
a palpitar atrás do coração...
258

Conhecimento e ignorância

O que ignoro é mais vasto do que aquilo que conheço.
353

Deve haver outro sentido para a vida

Deve haver outro sentido para a realidade lúcida da vida.
Deve haver outro estado de ser
onde a alegria serena não seja só um acidente.
Este mundo pesa-me, cheio de despedidas.
Vejo as cicatrizes e oiço os rufares de realidades bélicas,
tudo isso às vezes só na cabeça de alguns.
E a união aqui toma a forma macabra de rebanhos.
Vejo o sol sempre implacávelmente pontual,
embora por vezes os relógios tenham opinião diferente.
Vejo a lua, os livros cheios de Tao,
e a minha alma sofre com tudo isso,
sofre como se tivesse sangue e sangrasse,
como um louco consciente que não consegue adormecer nunca...
Terei eu a genialidade da poesia ?
E que bem virá ao mundo, se eu a tiver ?
Que espécie de gente serão esses a quem chamam poetas,
que incessantemente pensam em abrir portas e janelas
e querem crer que vêm através das portas e janelas fechadas
que nunca abriram, e provávelmente nunca abrirão ?
Ah! Deve haver por aí outra realidade para a realidade disto !
Deve haver por aí beijos e coisas,
patamares definitivos que nos tirem de vez esta impaciência estúpida,
que nos levem de novo para de onde nunca devíamos ter saído,
para brincarmos de novo
com os berlindes de cristal da realidade verdadeiramente lúcida,
da realidade final que fica para além de todos os enigmas...
269

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