Vejo, porque não sou totalmente cego, o que está defronte e o que está detrás, também o que se esconde
nas arestas do mundo, neste e noutros onde nem a imaginação consegue penetrar.
Vejo os sorrisos e os risos, os esgares e as máscaras que parecem tão reais, sinto os aromas que projectam
sombras sobre passados e presentes, tudo fechado em um feixe de emoções que nada nos dizem ao mesmo
tempo que nos dizem tudo.
Percebo as imagens nos espelhos e também o que está por detrás, a vida é feita de vidros partidos, sinfonias
incompletas, claustros por acabar... livros que foram escritos com sangue, para depois alimentarem as traças
em bibliotecas que já ninguém consulta...
O meu problema, no fundo, é perceber tudo de variadas maneiras diferentes. Antevejo a verdade, mas escondida
por detrás de inúmeras portas, cada uma com o seu significado. Todas são reais, embora se contradigam umas
às outras; lutando pelo seu significado, vidas foram sacrificadas e paixões estranguladas, tempos em que a honra
tinha algum valor, ainda que a própria vida pouco tivesse.
O nosso mundo e a nossa vida não são lineares e ainda menos justas. Nem o tempo é garantia de nada.
Aqui estamos, lutando contra cavaleiros imaginários, religiões demoníacas, ignorância, nem o próprio Diabo sabe
porque razão está tão mal visto; afinal, parece que também ele foi vítima de influência russa ou chinesa.
E agora, na era da alegada inteligência artificial", quem sabe dizer o que mente e o que diz a verdade ? Pois a
melhor mentira é aquela que tem um pouco de verdade, e quem de entre nós ainda acredita na existência
da verdade ?
Vejo imagens reflectidas de espelhos, na procura permanente de distinguir imagens das suas reflexões; mas
essa epopeia é relegada para poetas e filósofos, embora alguns loucos também apresentem teorias que por
vezes parecem fazer todo o sentido.
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