Vale Mais (O Elogio do In-concreto)

*

Vale Mais


Não vale a pena
ir a pensar demais
em coisa alguma,
sentir os fluxos
dos arredores
e os meus
influxos
é mais,
senti-los assim
inconcretos
e in-concreto
por meio de mim, 

é o "não ata nem desata"
relaxado
e no reflexo adequado
entre estar sozinho
e estar
namorado,


pressinto quem sou eu:
entre as inumeráveis "conexões",
"flexões" e reflexões... 

 

À-parte, entre dois pontos 

e mais... 

 

(2016.-2020.)


*


Nota sobre a obra: Escrito num arco temporal de quatro anos (2016–2020), Vale Mais reflete sobre a necessidade contemporânea de abrandar o intelecto. Numa filiação filosófica que evoca a recusa do pensamento de Fernando Pessoa (particularmente o olhar de Alberto Caeiro), o poema resolve a angústia existencial através da aceitação pacífica do limbo e da contemplação sensorial do presente.


"Vale Mais" é um manifesto lírico sobre a libertação mental e a valorização da intuição, estabelecendo um diálogo direto com a tradição literária de Fernando Pessoa ao abordar o clássico conflito entre o sentir e o pensar. No entanto, distanciando-se do desassossego e da angústia pessoanos, o eu lírico encontra a paz ao recusar o pensamento obsessivo. O texto celebra a suspensão e o limbo — o famoso "não ata nem desata" — como um estado puramente relaxado, transformando o sujeito poético no canal que materializa o abstrato por meio de si próprio e descobre a sua identidade no silêncio do mundo moderno.


Ensaio Crítico: A Poética da Suspensão e a Matéria do Ser

 

Título do Ensaio: Entre o Fluxo e a Carne: O Paradoxo do Sentir em "Vale Mais"

O poema "Vale Mais", maturado ao longo de um arco temporal de quatro anos (2016–2020), apresenta-se como um manifesto contemporâneo da quietude e uma investigação profunda sobre os limites da consciência humana. Logo nos versos de abertura, o eu lírico estabelece uma premissa radical: a recusa da hiper-racionalização ("Não vale a pena / ir a pensar demais / em coisa alguma"). Trata-se de uma renúncia deliberada ao ruído do intelecto em favor de uma entrega fenomenológica aos sentidos.

Esta postura estabelece um diálogo imediato e inevitável com a tradição literária de Fernando Pessoa, ecoando com particular força o "caeirismo". A máxima de Alberto Caeiro de que "pensar é estar doente dos olhos" encontra no poema uma releitura pacífica. No entanto, onde o universo dos heterónimos pessoanos frequentemente claudica perante a angústia e o desassossego inevitáveis do ato de pensar, o eu lírico de "Vale Mais" opera uma transição bem-sucedida rumo à paz. O limbo existencial — encapsulado na expressão popular "não ata nem desata" — é despido de qualquer carga dramática ou melancólica, sendo re-significado como um estado puramente "relaxado", um ponto de equilíbrio exato entre a solitude e a alteridade ("entre estar sozinho / e estar / namorado").

O cerne filosófico e a maior riqueza estilística da obra residem no jogo conceptual entre as palavras "inconcretos" e "in-concreto". Num primeiro momento, o plural sem hífen aponta para a abstração fluida dos estímulos do mundo e dos afetos interiores. De seguida, a fratura gráfica provocada pelo hífen em "in-concreto" desdobra-se em múltiplas camadas psicológicas. Por um lado, o termo mimetiza a expressão oral "em concreto", sugerindo que o intangível se materializa e ganha carne através da experiência viva do sujeito poético ("por meio de mim"). Por outro lado, o prefixo aponta para um movimento de incubação interior: o ato de habitar o próprio corpo e recusar a solidificação de uma identidade rígida. O eu lírico prefere manter-se na fase maleável do ser, resistindo ao endurecimento imposto pelas "inumeráveis 'conexões'" da modernidade.

Ao encerrar com a suspensão visual e pontual de "e mais...", o poema não busca um fechamento dogmático. Pelo contrário, afirma a identidade como um pressentimento silencioso e um processo contínuo. "Vale Mais" é, em última análise, uma belíssima afirmação da soberania do sentir sobre o pensar, onde a cura para o desassossego contemporâneo não é encontrada na resposta lógica, mas na coragem de habitar o espaço intermédio da existência.

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