ainda existiam trens de passageiros.

meu avô ainda existia.

estavam indo para Uberlândia.

meu pai era criança.

portanto, não era, ainda, meu pai.

a tia Josane não tinha nascido

e obviamente não havia morrido.

seria poético se eu dissesse que,

mesmo assim, minha avó sentia falta dela.

mas, é claro, não sentia,

assim como minha ausência

não importava para ela

e para o menino que balançava os pezinhos,

sentado no banco.

 

minha avó tinha

os mesmos trinta anos

que eu tenho agora.

ela espiava pela janela.

acomodada no vagão de trás,

durante uma curva acentuada,

observou a locomotiva,

lá na frente, abrir caminho

e puxar o trem,

arrastando o vagão

em que estavam.

era como se pudesse

vislumbrar o futuro,

os trilhos que viria a percorrer.

 

então e ainda,

sentia-se completa.

todos se sentiam completos.

o marido jovem e vigoroso. vivo, é claro.

o filho unigênito,

com sapatinhos de lona,

que seria promovido a primogênito,

o irmão de alguém, o pai de alguém.

mas naquele instante,

ainda eram três, apenas três,

e se sentiam completos.

mal sabiam quanto espaço

e vazio pode haver

dentro de um coração.

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