hoje esse canto

não me traz o brilho anunciado

hoje os pássaros que silvam

não me calam o silêncio...



afasto-me

nos segundos em que repouso

num corpo inundado de insónias



estranho à lucidez

devoro o imaginário

desço ao limite da imensidão



no vagar que se desmorona

batem-me à porta dizendo:



tinha um corpo

que evocava instante a instante

a beleza incerta por desvendar



tinha um corpo

que se derretia

no enorme engano que é o teu desejo



frenético

tracei um caminho ocasional

no qual prossigo por dentro



hoje

pernoito comigo mesmo

num contínuo alucinar murmurante



hoje

sempre que posso saio

para ter o prazer de voltar



porque hoje, tenho um corpo

cuja forma é disforme

por entre nocturnos dispersos,

tenho um corpo

um precipício

uma euforia imensurável

um vocabulário por descodificar
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