Luís F. Simões

Luís F. Simões

n. 1966 PT PT

o escultor decepou braços amputou pernas decapitou, cabeças(!) reparou: a dor não tem um rosto

n. 1966-05-24, Lisboa

Perfil
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Canto Com CorPo

hoje esse canto

não me traz o brilho anunciado

hoje os pássaros que silvam

não me calam o silêncio...



afasto-me

nos segundos em que repouso

num corpo inundado de insónias



estranho à lucidez

devoro o imaginário

desço ao limite da imensidão



no vagar que se desmorona

batem-me à porta dizendo:



tinha um corpo

que evocava instante a instante

a beleza incerta por desvendar



tinha um corpo

que se derretia

no enorme engano que é o teu desejo



frenético

tracei um caminho ocasional

no qual prossigo por dentro



hoje

pernoito comigo mesmo

num contínuo alucinar murmurante



hoje

sempre que posso saio

para ter o prazer de voltar



porque hoje, tenho um corpo

cuja forma é disforme

por entre nocturnos dispersos,

tenho um corpo

um precipício

uma euforia imensurável

um vocabulário por descodificar
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Poemas

3

Canto Com CorPo

hoje esse canto

não me traz o brilho anunciado

hoje os pássaros que silvam

não me calam o silêncio...



afasto-me

nos segundos em que repouso

num corpo inundado de insónias



estranho à lucidez

devoro o imaginário

desço ao limite da imensidão



no vagar que se desmorona

batem-me à porta dizendo:



tinha um corpo

que evocava instante a instante

a beleza incerta por desvendar



tinha um corpo

que se derretia

no enorme engano que é o teu desejo



frenético

tracei um caminho ocasional

no qual prossigo por dentro



hoje

pernoito comigo mesmo

num contínuo alucinar murmurante



hoje

sempre que posso saio

para ter o prazer de voltar



porque hoje, tenho um corpo

cuja forma é disforme

por entre nocturnos dispersos,

tenho um corpo

um precipício

uma euforia imensurável

um vocabulário por descodificar
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À boneca de olhar turvo

fará duas décadas esta década

que um infinito de absurdo colidiu com o meu destino


na encosta de uma serra

uma boneca fabricava impulsos até à insignificância

transformava a criação em tédio e desespero

enquanto a paixão e o amor passeavam indiferentes pelo mundo


com frequência desmedida confessava estar apaixonada

até que durante um momento de insatisfação

um inevitável hiato deu-se e dela ouviu-se:

"dê o mundo as voltas que der estarei sempre contigo

tenho a certeza que nos reencontraremos

para sermos felizes"


como recusava o horrível silêncio da ternura que se afastava

e precisava de algo para lá do grotesco e do inútil

que se denomina e caracteriza ausência

arrastei-me cabisbaixo por entre aquela densa ramagem

apodrecida e lamacenta

levando dentro do meu ser resmas de palavras inúteis


à medida que avançava

sentia aprofundar os pés no mistério

na memória envelhecida, no simulacro,

enormes bocas brotaram sequiosas...

num canto, ao fundo,

junto a umas mãos diáfanas da virgindade,

a boneca envolvia-se num expressivo xaile

... nele escondia-se o resto de um sonho que caminhara comigo


apesar da distância

foi possível reparar que os seus olhos se encontravam turvos

não lhe quis perguntar porquê

porque as respostas servem para tornar as "coisas" finitas
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O velho homem

há muito que se recostou

ao tronco da velha árvore

deixando as rugosidades por comparar


da criança que há muito se despediu

aos adereços momentâneos que foram seus pais

tudo o estimula

principalmente a perda de mais um sorriso


há muito

que se sente ser as duas coisas

por engano
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