À boneca de olhar turvo

fará duas décadas esta década

que um infinito de absurdo colidiu com o meu destino


na encosta de uma serra

uma boneca fabricava impulsos até à insignificância

transformava a criação em tédio e desespero

enquanto a paixão e o amor passeavam indiferentes pelo mundo


com frequência desmedida confessava estar apaixonada

até que durante um momento de insatisfação

um inevitável hiato deu-se e dela ouviu-se:

"dê o mundo as voltas que der estarei sempre contigo

tenho a certeza que nos reencontraremos

para sermos felizes"


como recusava o horrível silêncio da ternura que se afastava

e precisava de algo para lá do grotesco e do inútil

que se denomina e caracteriza ausência

arrastei-me cabisbaixo por entre aquela densa ramagem

apodrecida e lamacenta

levando dentro do meu ser resmas de palavras inúteis


à medida que avançava

sentia aprofundar os pés no mistério

na memória envelhecida, no simulacro,

enormes bocas brotaram sequiosas...

num canto, ao fundo,

junto a umas mãos diáfanas da virgindade,

a boneca envolvia-se num expressivo xaile

... nele escondia-se o resto de um sonho que caminhara comigo


apesar da distância

foi possível reparar que os seus olhos se encontravam turvos

não lhe quis perguntar porquê

porque as respostas servem para tornar as "coisas" finitas
541 Visualizações
Partilhar

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.