ITINERÁRIOS - Rafael Rocha - Do livro Poemas Escolhidos!
(1)
Pelo tempo hei de fazer itinerários
Para o amor que o teu corpo oferta.
Hei de deixar a minha porta aberta
Meu relógio parado e sem horários
Podes chegar ainda hoje de surpresa
Nalgum instante extraordinário
Passar por mim no rumo contrário
Se não vires a minha luz acesa
Teus olhos buscam a poesia fugitiva
Pintada em sonho para te fazer cativa
Nos belos versos que eu nunca fiz
Dizendo meu amor em altos brados
Conjugados nos verbos dos passados
Loucos desejos de te fazer feliz
(2)
No caminho quando os meus amores
Marcarem os versos escritos a pedido
Chorarás quando eu tiver partido
Para o mundo escuro e sem cores
Teu belo corpo lembrará (arrependido)
Nada ter feito contra os dissabores
Ter arrancado do teu jardim as flores
Plantadas num poema entristecido
E ao releres estes versos desleixados
Conhecerás os desejos procurados
Da eterna busca de um poeta aprendiz
E a lágrima por teus olhos derramada
Irá molhar a flor rubra abandonada
Na tumba fria a tentar criar raiz
(3)
Olho teu corpo adormecido aqui na cama
Marcando as curvas entre os lençóis
E sinto o quanto eu e tu fomos heróis
Vivendo ambos na vida o eterno drama
De saber: sempre curtindo sóis a sós
Mas nossa louca paixão ainda chama
Hoje trazendo apenas o holograma
Do passado longínquo para nós
Toco a pele! Sinto os lábios entreabertos
Como à espera da água dos desertos
Sem oásis a iludir o sonho feliz
E aos beijos recriamos nossa história
Indo ao longe e trazendo à memória:
O quanto a vida é uma meretriz!
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(4)
Nos caminhos novos sangues recriados
Marcam genes onde ambos laboramos
Durante as horas em que mergulhamos
Na paixão louca dos apaixonados
E se um dia itinerários lhes pensamos
Eles seguem caminhos desmembrados
Apagando nossos rumos dos passados
Criando rotas que não as deixamos
Mas algo resta desses seres insistentes
Tal a ternura e o amor polivalentes
Trazendo a nós o bem que lhes condiz
De belos filhos e pessoas consistentes
Feitas das carnes e das nossas mentes
Onde a paixão deixou marcada a cicatriz
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(5)
Relógio então parado e sem horários
Há de restar na vida mais incerta
Inda que eu deixe essa porta aberta
O tempo já marcou os itinerários
Não mais precisa o amor da luz acesa
Nem vai passar no meu rumo contrário
Já lá se foi o instante extraordinário
A vida agora não traz nova surpresa
Conjugamos nos verbos dos passados
Paixão e amor em poemas destacados
E até hoje nada em terra nos desdiz
Sua mente agora da poesia é cativa
Lembrando o quanto era fugitiva
Ao tentar fazer meu sonho de infeliz