SOLIDÃO RECIFENSE – Rafael Rocha - Do livro “Meio a Meio” (1981)

Amigos, eu tinha um poema nos arquivos da memória
Mas ele se escondeu lá no bairro de Santo Antônio
Entre os gabaritos ociosos dos arranha-céus da Guararapes
E como era já tarde veio o sono
O eco do Capibaribe como se chorasse
Um passado inverno que o verão escondeu
Atravessei a tarde devagar com meus soluços
E toda a mendicidade estendia as mãos raquíticas
Eu era muito mais mendigo do que todos
E via o Recife como um morto
O amor das suas ruas entranhado no meu amor morto
A dor que era minha entranhada no Recife morto
E eu voltava de um dia que nada fora
Senão uma dor e um amor perdido nessas calçadas
Um amor construído sob o brasão desta cidade
Sob suas estrelas e suas auroras e suas noites
E hoje adormecendo consumiu-se meu esteio
Um dia a mais ou outro dia qualquer não fará falta
A cidade será sempre a mesma
Cada vez mais acrescentada de dor e ódio
E de um brilho ínfimo das auroras inúteis

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