PRELÚDIO – Rafael Rocha - Do livro “Meio a Meio” (1981)
É meia-noite e estão tantos ao meu lado
Muitos riem e esvaziam os copos
Tratam de frivolidades
E não vale a pena falar do tempo
Eu fumo meu cigarro
Eu olho para todos. Espero...
Todos são provisórios
E em todos não haverá indestrutibilidade
É meia-noite...
Como acho amarga essa madrugada depressiva!
Saudades de coisas nunca feitas noutros dias
Angústia de ter sido trêmulo no perigo
Áspero na quietude do vento
Tentei enclausurar nas mãos a verdade
Para amigar-me com os homens
Infelizmente, a fome andava nas cercanias
O mundo estava desordenado
E assim que passou o tempo
Eu pereci e nós perecemos
E não escapamos do poder dos patrões
Eu podia pouco com isso
Eu preferia não ser eu. Penso que preferia
Tanto porque escolhi a não violência
A justiça e a alegria e o sol e a paciência...
Mas era pequeno o meu limite
E quase tudo ficava tão longe...
Longe dos nossos pés desesperados
E perto de nós só a revolta e os carrascos e a fome
Desculpem-me vocês: eu não tive forças
Prepararam errado o caminho da nossa realidade
E eu não pude ser o outro que tantos queriam,
Ainda quero que os objetivos pequenos continuem na penumbra
E que todos esqueçam essas futilidades
Eu quero todos rindo e esvaziando os copos
Não vale mesmo a pena falar do tempo sem sol
É mais de meia-noite...
Fumando eu espero...
Não adianta falar das nossas fraquezas
Se o governo da pátria acaricia assassinos.