NOITE COMO ASSUNTO – Rafael Rocha - Do livro “Meio a Meio” (1981)
Não! Não sejam necessárias as reminiscências
Minhas noites sempre têm mais luzes
Maiores multidões de segredos
Muitas e imensas solidões
Para início de conversa eis as estrelas:
Tão separadas umas das outras que dá pena vê-las
Mensageiras de sinais ignorados do cosmos infinito!
Não!
Recordações passadas não são necessárias
Para construir um poema para a noite/hoje
Com o tempero incerto da noite/amanhã
Faço isso com minhas ideias.
Simplesmente!
A noite tem mais luzes e mais abrigos
Recantos onde todos curtem sorrisos e tristezas
Possui feminilidade e perfumes
Bares abertos
Ouvidos atentos para milhões de lábios
A noite tem próprios refúgios:
Locais onde podemos argumentar sem medo
Ruas desertas para ouvir/curtir a madrugada
Vias onde caminhamos ao acaso
Com e sem possibilidade de retorno
Há o cais do meretrício
Desaguadouro de mágoas em ventres amplos
E ainda os botecos das ruas estreitas
(fétidos de fezes e de urina)
Com seus imensos braços abertos
Cadeiras, mesas, copos, garrafas
Refrões claros e escuros
Muitas mãos gesticulando
Outras compassadas em eterna espera
Toda uma completa vivência da noite/hoje
Nalguma batucada vibrátil
Compasso de algum beijo
No tilintar dos copos em elevação ritual
Existem despedidas provisórias
Existem despedidas sem nexo
Existem despedidas amargas e eternas
E todos parecem na espera ilusória de algum sol...