SONHO – Rafael Rocha (Do livro “Felizes na Dor” – Tributo a Charles Bukowski)
dava para sonhar...
pele e pelos e boca e olhos e o que viesse a mais
talvez o sonho habitante de outro sonho
dentro de meu cérebro embriagado
a cidade é linda na madrugada vazia
o rio corre em seu leito à procura do mar
e homens e mulheres reais e simples noitejam
conhecendo luzes de bares e de postes
sentindo pele e pelos e bocas e olhos
dá para sonhar...
ela sentou-se ao meu lado à mesa
acendeu um cigarro e ficou fitando a fumaça
depois deu-se a olhar para mim
depois suspirou aquele suspiro de resignação
dava para sonhá-la...
dentro da beleza da madrugada vazia
um gole de cerveja a deslizar pela garganta
um toque de dedos e de mãos
um beijo...
quase não escutei a sua voz pedindo
o anseio de irmos para um outro lugar
onde pudéssemos concatenar coisas reais
e menos provisórias que numa mesa de bar
meus olhos se puseram em seus olhos
vi como os dela estavam cansados
sentimo-nos dois párias perdidos na rua
tendo a mesa de bar como o centro do mundo
acendi um cigarro e olhei a fumaça
suspirei resignado
dava para sonhá-la...
a cidade se punha em alto pedestal para o prazer
nossas bocas se encontraram em vertigem
e ela pediu de novo o espaço de um outro lugar
para ganhar beijos e carinhos em outros lugares
mais amplos do que a sua boca vermelha e carnuda
eu estava ousando sonhá-la
mas ela me sonhava como se eu fosse esperança
e eu era apenas um bêbado dentro da noite
um solitário bêbado dentro da noite
nem merecia sonhá-la...
não sei como as névoas da madrugada deixaram
as suas marcas no outro dia
mas a cama continuava vazia como sempre
se a sonhei
não a devia ter sonhado...