palavras-cor


o desenho já não me chega.
o desenho das palavras já não chega para te dizer
como se movimentam os peixes no mar
como as gaivotas sobrevoaram o pedaço da muralha na hora da notícia do exame mau mas as novas foram boas e por isso cantaram (aquele friso branco da escadaria a combinar tão bem com paz)
o quanto gostei das quase lágrimas, aquelas à beirinha, que me chegaram quando vi o poema deitado na seda negra (ficou bonito!)
como me comovem ainda os dias
que das leis do universo continuo sem saber e a deslumbrar-me
a grafia até nem chega para te dizer o quanto gostei de te dar o chocolate para substituir o que deixaste derreter e não foi nada por não o querer para mim.

é por isso que ando a escolher com devoção as cores para encher as palavras que te desenho.
descubro os tons que aplico a cada fiada de letras e invento aguarelas de mesclas.
mesclas de
sons
flexões de músculos que fazem expressões
texturas de pele
cheiro a maresia
olhos com pinceladas de tristeza (os olhos bonitos têm de a ter, à tristeza)
e até mesclas de sabor a canela, que é descobrimentos, leite-creme (o meu), lábios macios e a ilha que inventaram na quinta para nos rirmos dos enjoos da tempestade. sim, o camões bebeu muito, mas não foi só por isso.

como me comovem ainda os dias
é para pintar com que cores?


Bordado | Katerina Marchenko

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