Lista de Poemas
Às vezes basta
às vezes basta
uma palavra
uma flor ou apenas uma pétala
um sorriso
o voo rasante das gaivotas
não sentir e não me importar
uma colher de arroz-doce, mas com a parte da canela
o cheiro a mar
uma pinta na folha
o frio da pedra e o quente de uma respiração
o fumegar do café
importar-me com o teu sentir
o lápis de cor amarelo, para pintar o sol
aqueles teus fios de música que fazem estremecer
uma impressão, mesmo que vaga, de felicidade
o ondulado da seda negra
a lembrança sempre presente de ti
para a vida prosseguir

Mark Power | Paris. Palais Garnier. Stage curtain. February 2004.
Ortografia íntima
como se fora um baloiço que oscila entre
as palavras grafadas com todas as letras e
a infância da língua com que me fazes adivinhar
as vogais e as consoantes que preencheriam os intervalos em falta
senão ficassem amarradas ao teu coração.

Descoberta
Mesmo que transmutada
em palavras
ou ondulações de beijos a marcar as marés
ou até em filamentos geométricos de sorrisos
é sempre a tua luz que encurta a minha solidão.
Jordan Sweke
Áνατέμνω
só porque são tuas
diz muito sobre a resistência do meu músculo cardíaco.
Há dias em que lhe acrescento uma quinta cavidade
para guardar os búzios
pendurar as estrelas
abrir a caixinha dos sonhos
ver os teus olhos dançar
sentir o teu sangue bombear
até que o barco alcance um braço de mar.

Laura Makabresku
Sus|Penso (ou das histórias com borboletas)
Desenhaste-me sorrisos com as palavras que tão bem sabes pintar. Os meus sorrisos, que não são nada fáceis de arrancar, ganharam comprimento para bater à tua janela. Queria que me ajudasses a fixá-los nos contornos da minha boca. Foi o que te pedi enquanto calçava as meias de que mais gostas. Uma carta que sofre de quebras de tensão e que queria equilibrada com a tua sensibilidade e lucidez.
Não sei o que fizeste aos lápis de cor.
Não sei o que fizeste às aguarelas novas.
Não sei o que fizeste à tela que te comprei.
Temi não poder saber se continuavas a respirar. Temi não poder confirmá-lo.
Não se morre só da carne, dos ossos e do coração que decide parar. Também se morre pelas borboletas que deixaram de voar.
Com os dedos, tatuámos um acordo. Nos dias em que quisermos escorrer doçura, abriremos a porta do borboletário. Para que a maior, a belbellita de asas de veludo negro e pintas vermelhas, possa treinar o voo nas entrelinhas do nosso passeio.

Fuck
Quando não consegues contrariar a interrupção da felicidade conquistada, f...

Pierre Pellegrini
o meu coração transborda de quente bom
o meu coração transborda de quente bom
no esplendor do corpo feito chão
que vestes de beijos
brisa suave
também sentes o amor
na surpresa diária da felicidade
como um presente inesperado que brota da vida igual por fora?
também sentes
essa espécie de murmúrio bom ou brisa suave
que nasce dos pequeninos gestos
e faz-se mundo inteiro?
esta noite
esta noite
desenhei a beijos contornos do divino
como quem dá vida a novas ilhas
e baptiza territórios recém-conquistados
casa
o amor dá outra vida às palavras. a certas palavras
há palavras ou conjuntos delas que têm uma nova respiração
a nossa minha e tua
ao ponto de se tornarem referências ou códigos, colagens até
a funcionarem assim: ouço ou digo aquela conjugação que se fez senha por acaso, sem esforço, e como um passo de magia, vou até ti, apareces-me.
é o que acontece com casa
uma palavra que engordou de significado, engrandeceu
libertou-se da arquitectura do mundo para se transformar em eixo-símbolo do quente
o nosso meu e teu
tal como o sol já tinha conquistado esse poder de transmutação
em chuva-luz a descer-te pelos ombros
Comentários (1)
muito bom o seu poetar...