Lista de Poemas

canteiro de flores felizes

canteiro de flores felizes

com o primeiro sol escaldante de bom a entrar-me no corpo

sigo a linha conhecida de rio que me sabe sempre a nova

e sinto um canteiro de girassóis a despontar no meu peito.
 

os girassóis vestem-se de saudade e num passe de mágica

levam a árvore de natal tardia a pulverizar de alegria os campos nus

num abraço que procura raízes e quer as árvores de todos os dias.
 

até que a cidade se pinta de noite

e o girassol grande entrega-me uma memória de menina:

quando era criança

a minha mãe dizia muitas vezes

que se devia falar com as flores

"para elas crescerem melhor e ficarem mais bonitas", acreditava.
 

achas que se falarmos com as árvores

acontece o mesmo?

12

poesia

todos os dias têm poesia 
uma linha que seja 

quando não a vejo 
fecho os olhos 
para sentir o vento a dançar

43

estremecimento

o  amor sabe sempre a novo barrado de familiaridade

um estremecimento

como o verão que há dentro do outono ou aquela brisa que há dentro do verão

braços de quente e luz a inundar o peito

como se fora o brotar de flores num campo seco

os lábios a chegarem-se aos teus

uma inquietação

a pele a vestir-se de água

um sorriso    um grito    murmúrios

em chão de silêncio

 

26

das histórias sem importância

nas histórias sem importância que nos nascem de mão dada

deitados de costas a olhar o céu

disse-te que o amor é fruto de flores que crescem para dentro

14

dias de sal

     deposito no teu peito
  
     a concha bonita que apanhei na ilha

      - a mais-que-imperfeita, digo a sorrir de verdade infantil -

      e sinto que as geografias se sobrepõem em planos intercalados

      como transparências de longe e perto

      dia e noite    mar e corpo    caminhos-pele

      dos dias de sal que trazemos nos dedos 

      para serem casa   

38

gosto de sentir

gosto de sentir

os fios das histórias com borboletas

que deixas preguiçar na minha nuca

23

Celebração

é nos dias longos e opacos
que mais me aproximo da tua imagem.

com as mãos abro uma estrada no negrume
que me leva ao mar dos teus olhos
e encontro os teus braços feitos barcos de outubro
a fazer riscos no céu para roubar as estrelas
iguais ao meu vestido, mas que tu não te lembras,
tal era a pressa de me iluminares.

num quase finados
numa quase noite
a disfarçar a timidez com movimentos de lábios
cumpriu a purificação
que lhe escrevera
a ondulados
no lindo lençol de seda negra.

Herbert List | Liguria, Itália, 1936



850

das descobertas do abismo

encontrar-te num qualquer traço
vestido a redondo de palavras, flexão de músculo ou brilho de olhos,
em apontamentos perenes
de memória
mesmo quando o tempo é de marés vivas
e as vagas teimam em apagar os desenhos
em movimentos inglórios
das dobras dos dias que se
enlaçam
sorvem
escoam.

Bill Brandt


589

silent wind blowing

mesmo quando não podes e não consegues chegar ao que eu quero,
surpreendes-me sempre pelo lado bonito.
percebo, então, que o que quero pode não ser o mais precioso naquele momento,
ainda que o primeiro sabor que vem à boca seja o de fim de outono.
uma espécie de morno da agonia que sei encontrar lá à frente o quente do quase verão.


Silent Wind Blowing | Vivienne Bellini
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Grande

Não são os espaços revestidos a emoções mais pronunciadas - a alegria e a tristeza - que mais me comovem.

A minha perturbação emotiva dá-se melhor naquele altar em que me deixas as palavras e te adivinho o olhar grande.

Zazielona

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Comentários (1)

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davinci

muito bom o seu poetar...