Lista de Poemas
canteiro de flores felizes
canteiro de flores felizes
com o primeiro sol escaldante de bom a entrar-me no corpo
sigo a linha conhecida de rio que me sabe sempre a nova
e sinto um canteiro de girassóis a despontar no meu peito.
os girassóis vestem-se de saudade e num passe de mágica
levam a árvore de natal tardia a pulverizar de alegria os campos nus
num abraço que procura raízes e quer as árvores de todos os dias.
até que a cidade se pinta de noite
e o girassol grande entrega-me uma memória de menina:
quando era criança
a minha mãe dizia muitas vezes
que se devia falar com as flores
"para elas crescerem melhor e ficarem mais bonitas", acreditava.
achas que se falarmos com as árvores
acontece o mesmo?
poesia
todos os dias têm poesia
uma linha que seja
quando não a vejo
fecho os olhos
para sentir o vento a dançar
estremecimento
o amor sabe sempre a novo barrado de familiaridade
um estremecimento
como o verão que há dentro do outono ou aquela brisa que há dentro do verão
braços de quente e luz a inundar o peito
como se fora o brotar de flores num campo seco
os lábios a chegarem-se aos teus
uma inquietação
a pele a vestir-se de água
um sorriso um grito murmúrios
em chão de silêncio
das histórias sem importância
nas histórias sem importância que nos nascem de mão dada
deitados de costas a olhar o céu
disse-te que o amor é fruto de flores que crescem para dentro
dias de sal
deposito no teu peito
a concha bonita que apanhei na ilha
- a mais-que-imperfeita, digo a sorrir de verdade infantil -
e sinto que as geografias se sobrepõem em planos intercalados
como transparências de longe e perto
dia e noite mar e corpo caminhos-pele
dos dias de sal que trazemos nos dedos
para serem casa
gosto de sentir
gosto de sentir
os fios das histórias com borboletas
que deixas preguiçar na minha nuca
Celebração
com as mãos abro uma estrada no negrume
que me leva ao mar dos teus olhos
e encontro os teus braços feitos barcos de outubro
a fazer riscos no céu para roubar as estrelas
iguais ao meu vestido, mas que tu não te lembras,
tal era a pressa de me iluminares.
num quase finados
numa quase noite
a disfarçar a timidez com movimentos de lábios
cumpriu a purificação
que lhe escrevera
a ondulados
no lindo lençol de seda negra.
Herbert List | Liguria, Itália, 1936
das descobertas do abismo
vestido a redondo de palavras, flexão de músculo ou brilho de olhos,
em apontamentos perenes
de memória
mesmo quando o tempo é de marés vivas
e as vagas teimam em apagar os desenhos
em movimentos inglórios
das dobras dos dias que se
enlaçam
sorvem
escoam.
silent wind blowing

Comentários (1)
muito bom o seu poetar...
