Lista de Poemas

Aperto

Se estivéssemos aqui
amparávamos a amargura dos dias
rijos, cansados e desfeitos.

Dias nossos
apanhados nas margens
estanques, assépticas e doridas
do tempo que não se faz.


Arno Mikinnen

924

Poesia

A poesia não (me) serve apenas para dizer o que não consigo e não posso dizer de outra forma.

A poesia também me ajuda a suportar o mundo,
aquele a que chamam real e o que há dentro de mim,
que também é muito real para mim.


Josephine Cardin

667

Curativo

Ensaiei uma tela para o lugar da que perdeste.
Com as ligaduras.

Lavei-as bem
estiquei-as ao sol
e pu-las a comer a goma que fiz.

Vai servir-te quando descobrires as tintas que também largaste
por aí...
Ou talvez estejam distribuídas pelas gavetas do homem do divã...
É que nem sabes daquela bem cremosa com que pintavas o ondulado do lençol negro de seda.
A dos cambiantes. Para evitar a obscuridade, brincavas.

Depois de espreitar as gavetas do homem de olhar fundo, quase mau,
(- sabes que ao Dali lhe deu para as pintar, às gavetas? -),
com as ligaduras
ensaiei velas de barcos
para largar
por aí...

Daria Endresen

704

Clareza

Se eu tivesse que escolher uma cor para as tuas palavras seria o cinza.
Não pelo negrume da tristeza. Bonito, esse teu negrume, sabias?
Seria pela calma. É isso. Pela calma que me trazes às margens das manhãs ou das tardes.
Conforme a inclinação do sol.

As tuas palavras só não têm a cor branca porque não as descobriria nesta folha.
Mas são brancos, esses bordados de luz que te escorrem entre os dedos.


Aráquem Alcantara

669

Jardim

Desviara o candeeiro do mundo
para deixar a luz desenhar-me de ti.

A conjugação irrequieta das letras
que me derramas em palavras bem alinhadas
no altar de silêncio.

Como se fossem pétalas
essas palavras.
Lisas, sempre lisas.
Fortes, às vezes.
Cansadas, outras vezes.
Amplas, sempre amplas.

Aproximo-me da luz
para te beber melhor.
Provar as pétalas imensas
que soltas
que desenhas
que me dás
para erguer os dias.

Uma chama invisível nasce no peito...
Algo de bom espalhas
por essas vestes de pétalas.


Casa de Santa Maria | Cascais | 5 Outubro 2016

Pormenor de vestido de Agatha Ruiz de la Prada

645

(escrito a pensar na arte de ser feliz, aquela que a Cecília escreveu)

... durante aqueles dias, todas as manhãs, na sala envidraçada que beijava o mar, serviram-me café antigo que sabia a lar.
havia os cestos de fruta, o pão macio e quente, e as compotas.
a textura das toalhas de linho nas madeiras desgastadas.
'tem ido à praia?', perguntou-me...


825

Recados

Não precisas de substituir o teu lápis de cor preta que me emprestavas para pintar as madrugadas. Estou a usar o cinza e o azul misturado com uma pitada de branco. Já experimentei hoje. Está a ficar bonito e o resto do preto ainda dá para o risco dos meus olhos.
Mas podes deixar o lençol negro, o de seda ondulada a mar. Para encher de ar, como se fora o peito de uma pomba orgulhosa, enfunada, a fazer-se velas de barco salpicadas de sol. À conta do teu lápis amarelo, este sim a precisar de substituição. Não vá faltar-te na primavera. De caminho, compra um saco de laranjas para desenhar o pôr-do-sol. Olha que têm de ser das gordas. Traz o pacote com as tuas estrelas mais brilhantes. E a lua? Pensa no que há-de ser para fazer a lua. Arruma o guarda-chuva e põe o regador a jeito.
Só falta uma coisa: retira o meu coração da barrela.


Assemblage | Joseph Cornell

559

Delonga

E foi na camada intermédia do mar que forra a cidade
que bebeu o ondulado da timidez a adoçar-lhe a figura imponente
onde encaixara o olhar perdido
difícil de segurar.

Veio estender-se na praia
à espera de o encontrar.
Os olhos perdidos em grãos de timidez costumam fazer cama nos interstícios dos dias.



Belleza Spark | Série: Saying 'no' sometimes is 'ok'

501

passo a passo

no escorrer descansado dos dias,
aquela linha que segue sem freios ou normas que pressionam para decidir e para agir,
bebe-se a camada que sabe a leveza,
que até pode saber a moleza,
para mais tarde entender-se ser alimento.

parecido com o nevoeiro mas sem toldar.
é mais como um soro que se vai entranhando no morno dos organismos
até os chamar à vida.

é nesse tempo que segue sem tempo de dentro
e que até dizes não perceber muito bem o que está à volta,
que te espreguiças e me ensinas sem saberes (ou sabes?)
que só se ganha e conquista alguém quando também é esse o seu desejo.

Hiroki Inoue | Local: Hokkaido, Japão | 1º. lugar na categoria "Natureza" - The 2016 National Geographic Traveler Photo Contest
Romance is in the air. It was the time of day immediately following sunset. I heard a voice. "Wherever you go, I will follow you" the voice says.
H. I.


585

solidão

seis meses de maturação no fundo do mar
eram setecentas
muito bem alinhadas debaixo das barcas
cinquenta a cinquenta dispostas verticalmente
o circuito de manutenção para as algas
às vezes o meu tempo também estagia muito devagar
como as garrafas no fundo do mar
qual teste à minha profundidade
a temperatura, a corrente, a luminosidade
o meu trio sob averiguação
para ver o que serve melhor o envelhecimento
e fica vago, muito vago
deito o meu vazio...
- qual vazio, se o vazio não existe?
- então será o pleno de indefinição?
cala-te e sai do caminho
... deito o meio vazio no teu lindo lençol de seda negra
e sinto-me menos só com o corpo




Hengki Koentjoro | Série Waterscape (*), nº. 11

___________________________
(*) Captured in its various countenances, water poses in these series as an enchanting backdrop to the center stage figures. It roars through the gaps among a group of stoical rocks and it dances around a water temple creating a mystical mist. The combination of the static and the dynamic elements forms a composition with strength of presence that sends the rest of the world fading into the background.
542

Comentários (1)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.
davinci

muito bom o seu poetar...