Lista de Poemas
Aperto

Arno Mikinnen
Poesia
A poesia não (me) serve apenas para dizer o que não consigo e não posso dizer de outra forma.
A poesia também me ajuda a suportar o mundo,
aquele a que chamam real e o que há dentro de mim,
que também é muito real para mim.

Josephine Cardin
Curativo
Ensaiei uma tela para o lugar da que perdeste.
Com as ligaduras.
Lavei-as bem
estiquei-as ao sol
e pu-las a comer a goma que fiz.
Vai servir-te quando descobrires as tintas que também largaste
por aí...
Ou talvez estejam distribuídas pelas gavetas do homem do divã...
É que nem sabes daquela bem cremosa com que pintavas o ondulado do lençol negro de seda.
A dos cambiantes. Para evitar a obscuridade, brincavas.
Depois de espreitar as gavetas do homem de olhar fundo, quase mau,
(- sabes que ao Dali lhe deu para as pintar, às gavetas? -),
com as ligaduras
ensaiei velas de barcos
para largar
por aí...

Daria Endresen
Clareza
Se eu tivesse que escolher uma cor para as tuas palavras seria o cinza.
Não pelo negrume da tristeza. Bonito, esse teu negrume, sabias?
Seria pela calma. É isso. Pela calma que me trazes às margens das manhãs ou das tardes.
Conforme a inclinação do sol.
As tuas palavras só não têm a cor branca porque não as descobriria nesta folha.
Mas são brancos, esses bordados de luz que te escorrem entre os dedos.

Aráquem Alcantara
Jardim
Desviara o candeeiro do mundo
para deixar a luz desenhar-me de ti.
A conjugação irrequieta das letras
que me derramas em palavras bem alinhadas
no altar de silêncio.
Como se fossem pétalas
essas palavras.
Lisas, sempre lisas.
Fortes, às vezes.
Cansadas, outras vezes.
Amplas, sempre amplas.
Aproximo-me da luz
para te beber melhor.
Provar as pétalas imensas
que soltas
que desenhas
que me dás
para erguer os dias.
Uma chama invisível nasce no peito...
Algo de bom espalhas
por essas vestes de pétalas.
Casa de Santa Maria | Cascais | 5 Outubro 2016
Pormenor de vestido de Agatha Ruiz de la Prada
(escrito a pensar na arte de ser feliz, aquela que a Cecília escreveu)

Recados
Não precisas de substituir o teu lápis de cor preta que me emprestavas para pintar as madrugadas. Estou a usar o cinza e o azul misturado com uma pitada de branco. Já experimentei hoje. Está a ficar bonito e o resto do preto ainda dá para o risco dos meus olhos.
Mas podes deixar o lençol negro, o de seda ondulada a mar. Para encher de ar, como se fora o peito de uma pomba orgulhosa, enfunada, a fazer-se velas de barco salpicadas de sol. À conta do teu lápis amarelo, este sim a precisar de substituição. Não vá faltar-te na primavera. De caminho, compra um saco de laranjas para desenhar o pôr-do-sol. Olha que têm de ser das gordas. Traz o pacote com as tuas estrelas mais brilhantes. E a lua? Pensa no que há-de ser para fazer a lua. Arruma o guarda-chuva e põe o regador a jeito.
Só falta uma coisa: retira o meu coração da barrela.

Assemblage | Joseph Cornell
Delonga
E foi na camada intermédia do mar que forra a cidade
que bebeu o ondulado da timidez a adoçar-lhe a figura imponente
onde encaixara o olhar perdido
difícil de segurar.
Veio estender-se na praia
à espera de o encontrar.
Os olhos perdidos em grãos de timidez costumam fazer cama nos interstícios dos dias.

Belleza Spark | Série: Saying 'no' sometimes is 'ok'
passo a passo

Romance is in the air. It was the time of day immediately following sunset. I heard a voice. "Wherever you go, I will follow you" the voice says.
H. I.
solidão

Hengki Koentjoro | Série Waterscape (*), nº. 11
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(*) Captured in its various countenances, water poses in these series as an enchanting backdrop to the center stage figures. It roars through the gaps among a group of stoical rocks and it dances around a water temple creating a mystical mist. The combination of the static and the dynamic elements forms a composition with strength of presence that sends the rest of the world fading into the background.
Comentários (1)
muito bom o seu poetar...