Lista de Poemas
decantação
tu e a tua possibilidade
- e eu não tenho a certeza se esta possibilidade tem o nome de saudade,
ou se é mais um movimento de mar -
barram-me de um lastro
que permite apanhar a realidade do lado doce.
como as garrafas no fundo do mar
que foram à procura do doce.
não te esqueças que são setecentas
perfeitamente alinhadas debaixo das barcas
cinquenta a cinquenta, alinhadas verticalmente,
e cobertas com o teu lindo lençol de seda negra.
quando provamos?

Geometria
Tinha tudo para o achar um homem banal. De uma banalidade desinteressante, especificou com gestos minuciosos dos dedos. Mas bastou apanhar-lhe um pedaço de ângulo melancólico na flexão do tronco, para o encher de importância.

James Bort
(escrito numa tarde triste)

Mar da Indonésia | Hengki Koentjoro
Desespero
O maluco da ala psiquiátrica. A cada dois passos, um toque igual na bordadura de madeira da parede. Três dedos da mão direita, em perfeita sincronia.
Uma cadência para equilibrar os dias que têm horas e minutos.
Uma cadência próxima da rotina que é necessária para agarrar a familiaridade do tempo e do espaço. Dos que estão do lado de fora da psiquiatria. Às vezes por acaso.
E se ao maluco falhar a bordadura de madeira? Se ela desaparecer?
E se ao outro - a mim, a ti... - falharem os traços que conhecem?
O maluco não me sai da cabeça.

Eliza Kinchington
epifania

Gravura com renda e bordado | Izziyana Suhaimi
Casa
Oliveira | Barragem de Belver | Setembro 2016
Tristeza
Há uma perturbação acrescida na tristeza que se apanha nos dias compridos e limpos. Uma distensão e claridade que se afiguram violentas pelo contraste com o negro baço que não se contenta com a alma e alastra aos olhos.
As noites a quererem fazer pendant com os dias, não deixam o corpo descansar e desafiam memórias.
Filamentos invasivos, a desinquietar sinapses.
O nocturno desnuda a pele e cospe na mentira. Até amanhã.
A solidão é um animal danado sempre pronto a abocanhar. Sempre te disse.
A caixinha dos sonhos... Não tenho força para a abrir.
A tristeza é mais estranha no Verão.
A tristeza detesta o Verão. Sobretudo se for Agosto.

Sadness | William Wetmore Story | Angel of Grief
Esplendor
Era quase páscoa e escreveu-lhe sobre purificação.
Havia o copo de vinho, o vestido púrpura adamascado aberto nas costas e uma flor sobre a mesa de madeira. Era assim no quadro ao lado da caixinha dos sonhos.
Não escreveu a ressurreição porque os corações assim alinhados, como te disse, e a acompanhar os dias, não percebem nada de morte. A ressurreição precisa de uma morte antes, não é? Ainda é cedo.
Havia os corações, a barra de sabão e a bilha de água. Era assim no laboratório ao lado. A sala de ensaios e de análises que não servem para quase nada. Ao contrário da caixinha dos sonhos que está do outro lado.
Era quase finados, não rezámos pelos mártires e nem sequer pedimos pão-por-deus.
Havia os copos sobre a mesa, a taça de cristal com os olhos - grandes! - embebidos de sorrisos e as mãos a desenharem jardins imensos.

Cristina Faleroni
διαλεκτική
um bocado bom que apanho de ti
a imagem é a da criança que

Comentários (1)
muito bom o seu poetar...
