Lista de Poemas

decantação

tu e a tua possibilidade
- e eu não tenho a certeza se esta possibilidade tem o nome de saudade,
ou se é mais um movimento de mar -
barram-me de um lastro
que permite apanhar a realidade do lado doce.

como as garrafas no fundo do mar
que foram à procura do doce.
não te esqueças que são setecentas
perfeitamente alinhadas debaixo das barcas
cinquenta a cinquenta, alinhadas verticalmente,
e cobertas com o teu lindo lençol de seda negra.

quando provamos?

Herbert List | Taverna below the Poseidon Temple, 1952
961

Geometria

Tinha tudo para o achar um homem banal. De uma banalidade desinteressante, especificou com gestos minuciosos dos dedos. Mas bastou apanhar-lhe um pedaço de ângulo melancólico na flexão do tronco, para o encher de importância.



James Bort

510

(escrito numa tarde triste)

é pela identificação de princípios que gosto de ti
e até são os opostos que fazem sobressair esse princípio

ainda mais quando
é domingo
o mar galga a muralha
as cinzas subiram aos céus
e espreito a caixinha dos sonhos


Mar da Indonésia | Hengki Koentjoro
688

Desespero

O maluco da ala psiquiátrica. A cada dois passos, um toque igual na bordadura de madeira da parede. Três dedos da mão direita, em perfeita sincronia.
Uma cadência para equilibrar os dias que têm horas e minutos.
Uma cadência próxima da rotina que é necessária para agarrar a familiaridade do tempo e do espaço. Dos que estão do lado de fora da psiquiatria. Às vezes por acaso.
E se ao maluco falhar a bordadura de madeira? Se ela desaparecer?
E se ao outro - a mim, a ti... - falharem os traços que conhecem?
O maluco não me sai da cabeça.


Eliza Kinchington

470

epifania

fizeste-me recuperar as fadas de criança em que não acreditei, mas gostava
gostava por saber que não eram verdadeiras, ao contrário de ti, que não tens varinha mas és de verdades.
é a magia que vos une.
nas horas más, tu, tal como as fadas, sabes que há pelo menos um fio de luz.
é isso que importa.
não saberes onde mora essa nesga de luz, não diminui o quanto gosto de ti, que é muito. imenso.


Gravura com renda e bordado | Izziyana Suhaimi
525

Casa

Olhar o céu através das folhas das árvores, das águas furtadas, dos edifícios muito altos esventrados de tecto, de monumentos como aquele feito de tubos que encontrei em Suomi - Onde é? E se te calasses?... - é sempre um deslumbramento. Mesmo que seja um deslumbramento triste. Sim, a sedução, o encantamento e a admiração, também podem vir com a tristeza.

Nessa posição, deitada, de baixo para cima, nos intervalos da oliveira, o céu surge-me como uma enorme cúpula. Para mim, e sem que faça qualquer associação mística, há algo de protector nas cúpulas. Um afago, um abraço, um quente de pele. Os abrigos são assim.

Oliveira | Barragem de Belver | Setembro 2016
831

Tristeza

Há uma perturbação acrescida na tristeza que se apanha nos dias compridos e limpos. Uma distensão e claridade que se afiguram violentas pelo contraste com o negro baço que não se contenta com a alma e alastra aos olhos.

As noites a quererem fazer pendant com os dias, não deixam o corpo descansar e desafiam memórias.

Filamentos invasivos, a desinquietar sinapses.
O nocturno desnuda a pele e cospe na mentira. Até amanhã.
A solidão é um animal danado sempre pronto a abocanhar. Sempre te disse.
A caixinha dos sonhos... Não tenho força para a abrir.

A tristeza é mais estranha no Verão.
A tristeza detesta o Verão. Sobretudo se for Agosto.


Sadness | William Wetmore Story | Angel of Grief

674

Esplendor

Era quase páscoa e escreveu-lhe sobre purificação.
Havia o copo de vinho, o vestido púrpura adamascado aberto nas costas e uma flor sobre a mesa de madeira. Era assim no quadro ao lado da caixinha dos sonhos.
Não escreveu a ressurreição porque os corações assim alinhados, como te disse, e a acompanhar os dias, não percebem nada de morte. A ressurreição precisa de uma morte antes, não é? Ainda é cedo.
Havia os corações, a barra de sabão e a bilha de água. Era assim no laboratório ao lado. A sala de ensaios e de análises que não servem para quase nada. Ao contrário da caixinha dos sonhos que está do outro lado.
Era quase finados, não rezámos pelos mártires e nem sequer pedimos pão-por-deus.
Havia os copos sobre a mesa, a taça de cristal com os olhos - grandes! - embebidos de sorrisos e as mãos a desenharem jardins imensos.


Cristina Faleroni

500

διαλεκτική



um bocado bom que apanho de ti
- um bocado trabalhoso, mas muito doce -
está naquele interstício em que a construção se ergue dos pedaços que pareciam isolados.

a imagem é a da criança que
por gostar tanto do novo mimo
explora-o para o ver e sentir melhor.
depois, tira os dedos das reentrâncias do brinquedo e volta a ajeitá-lo,
para o ver e sentir melhor, de outra perspectiva.

a dialéctica entre o todo e as partes é uma constante
também no amor.



"The captive fish in its bowl and the open sea symbolize man who, being tied to earth, can never quite break free from matter, and who, while having intimations of a sublime world, is yet unable to immerse himself in it because he is trapped in his body." | Herbert List, Santorini, 1937

571

Amor

Vestiram os olhos com as cores da Primavera e sorriram.
Salpicaram os lábios de sol e soltaram palavras doces.
As festas mais importantes fazem-se do lado de dentro da pele. Tal e qual como as viagens.


Mario Giacomelli | Love in the park, NYC, 1960

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Comentários (1)

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davinci

muito bom o seu poetar...