Isabel Pires

Isabel Pires

n. 1964 PT PT

Amar o abismo da descoberta. Sem cair.

n. 1964-01-30, Lisboa

Perfil
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Às vezes basta

às vezes basta
uma palavra
uma flor ou apenas uma pétala
um sorriso
o voo rasante das gaivotas
não sentir e não me importar
uma colher de arroz-doce, mas com a parte da canela
o cheiro a mar
uma pinta na folha
o frio da pedra e o quente de uma respiração
o fumegar do café
importar-me com o teu sentir
o lápis de cor amarelo, para pintar o sol
aqueles teus fios de música que fazem estremecer
uma impressão, mesmo que vaga, de felicidade
o ondulado da seda negra
a lembrança sempre presente de ti

para a vida prosseguir


Mark Power | Paris. Palais Garnier. Stage curtain. February 2004.


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Poemas

133

Força

Se eu matasse a resiliência
sobrar-me-iam as mãos
para abrir a cova
onde as minhas cinzas
cairiam a pique.


1 109

Amo-te

Claro que "belo" é uma aproximação. Um termo terrestre.

Mas foi o que senti ser aquele dia em que depositaste as palavras na
curvatura do meu coração.

Claro que "belo" é uma aproximação do adjectivo que hei-de inventar para ti.

James Bort

1 347

Carta branca ao perfumista

Não vistas o veludo da minha pele
Pode não te servir.

Primeiro, beija-o.
Cheira-o, também.
Vá, experimenta!
Faz-te ao jogo!

E diz-me se o meu veludo combina
Com o almíscar da tua pele.



Irving Penn

1 266

Ao construtor


Se chegasses mais cedo
não encontravas um pedaço de mim.
De gatas, estiquei-me
para puxar o que sobrava de mim,
sem estar a mais.
As mãos. As tuas mãos!
Trouxeste?
Tira as luvas
para conferires o projecto de mim.




Waclaw Wantuch
1 360

Abraço

Acordei com as seis, exactamente o número de letras que escolhi para designar a forma do calor
que preciso e quero de ti.
Segui o princípio dos contrastes. Ajeitei-me à chuva.
Deixei que o frio da torrente me lavasse por fora para te encontrar por dentro.
Quando fujo de mim, encontro-me em ti.
Descubro-te.
Tu não sabes ou eu julgo que tu não sabes ou eu finjo que tu não sabes.
Nem sei se apanho as palavras cristalinas para te contar.
Ou se é preciso dizer-tas.
Porque os meus braços
frágeis
querem-te.
Se tu quiseres.

Bill Brandt





1 263

Quero-te assim

Quanto mais igual te dás
mais desiguais são os meus dias.

Deliciosamente desiguais
esses dias deslumbrados com o sol
que trazes à noite.

Para encher as minhas horas
esventradas de solidão.


Teknari
1 046

sangue

mar amarrado há setenta dias
águas escovadas em vontade grande

dedos que se esticam
até ao horizonte
a desenrolar as ondas para te salvar

pele salpicada de vermelho
com o sangue que te ofereço
na linha esbatida

guardiã de todas as possibilidades


Katia Chausheva


1 084

Mar

Há em ti a serenidade onde posso deitar a cabeça e ouvir a música de água. Aquela vibração dos búzios que me ofereceste na noite de marés vivas. Guardei-os na gaveta mais escondida do meu coração. Aquela que só tu conheces e vens refrescar com a espuma das ondas batidas nos rochedos da minha inquietação.
Há em ti a profundidade onde posso depositar os meus medos porque sei que vais procurar acalmá-los. Nas madrugadas silenciosas em que brindamos ao amor.
Há em ti sete braços macios e firmes para me envolverem.
Há em ti um lençol que acolhe os nossos corpos quentes e não deixa voar os beijos apaixonados.
Há em ti a transparência que busco desenfreadamente.
Há em ti um abismo e lonjura que me impedem de desistir.
Há em ti enseadas com os corais e estrelas da nossa infância. Aquelas grandes que às vezes víamos a secar. Lembras-te?
Há em ti um manto de doçura que nos cobre de sal nas tardes fatigadas de desejo.
Há em ti um porto de abrigo onde posso morrer descansada. Porque tu sabes amparar as minhas alegrias, tristezas, dúvidas e dores.


Costa do Estoril | Março 2017



1 104

Refúgio

Há um lugar que tem as formas do meu corpo e a pele do teu.
às vezes tem luz. Outras, é iluminado pelos faróis das nossas almas que vigiam o navio das viagens felizes.
Há um lugar forrado a seda que ampara as palavras que nos apetece dizer e os sorrisos que deixamos cair.
Nunca contámos a ninguém.
Porque há um lugar que guarda o silêncio dos deuses que deixamos entrar.


Mark Sink

1 088

se o amor fosse um jogo

se o amor fosse um jogo
tinha sabor a casa de partida

e isto é mais verdade quando te lavro estrelas no peito aberto





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Comentários (1)

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davinci

muito bom o seu poetar...