Isabel Pires

Isabel Pires

n. 1964 PT PT

Amar o abismo da descoberta. Sem cair.

n. 1964-01-30, Lisboa

Perfil
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Às vezes basta

às vezes basta
uma palavra
uma flor ou apenas uma pétala
um sorriso
o voo rasante das gaivotas
não sentir e não me importar
uma colher de arroz-doce, mas com a parte da canela
o cheiro a mar
uma pinta na folha
o frio da pedra e o quente de uma respiração
o fumegar do café
importar-me com o teu sentir
o lápis de cor amarelo, para pintar o sol
aqueles teus fios de música que fazem estremecer
uma impressão, mesmo que vaga, de felicidade
o ondulado da seda negra
a lembrança sempre presente de ti

para a vida prosseguir


Mark Power | Paris. Palais Garnier. Stage curtain. February 2004.


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Poemas

150

Casa

Olhar o céu através das folhas das árvores, das águas furtadas, dos edifícios muito altos esventrados de tecto, de monumentos como aquele feito de tubos que encontrei em Suomi - Onde é? E se te calasses?... - é sempre um deslumbramento. Mesmo que seja um deslumbramento triste. Sim, a sedução, o encantamento e a admiração, também podem vir com a tristeza.

Nessa posição, deitada, de baixo para cima, nos intervalos da oliveira, o céu surge-me como uma enorme cúpula. Para mim, e sem que faça qualquer associação mística, há algo de protector nas cúpulas. Um afago, um abraço, um quente de pele. Os abrigos são assim.

Oliveira | Barragem de Belver | Setembro 2016
848

passo a passo

no escorrer descansado dos dias,
aquela linha que segue sem freios ou normas que pressionam para decidir e para agir,
bebe-se a camada que sabe a leveza,
que até pode saber a moleza,
para mais tarde entender-se ser alimento.

parecido com o nevoeiro mas sem toldar.
é mais como um soro que se vai entranhando no morno dos organismos
até os chamar à vida.

é nesse tempo que segue sem tempo de dentro
e que até dizes não perceber muito bem o que está à volta,
que te espreguiças e me ensinas sem saberes (ou sabes?)
que só se ganha e conquista alguém quando também é esse o seu desejo.

Hiroki Inoue | Local: Hokkaido, Japão | 1º. lugar na categoria "Natureza" - The 2016 National Geographic Traveler Photo Contest
Romance is in the air. It was the time of day immediately following sunset. I heard a voice. "Wherever you go, I will follow you" the voice says.
H. I.


605

Poesia

A poesia não (me) serve apenas para dizer o que não consigo e não posso dizer de outra forma.

A poesia também me ajuda a suportar o mundo,
aquele a que chamam real e o que há dentro de mim,
que também é muito real para mim.


Josephine Cardin

685

Convento

escolheste a quase metade que tem mais sol e deixei-me ir.
ainda bem!
mais fácil encontrar o fio bom que liga o sorriso acanhado ao lado inteiro do bem.
e que bem o vi!
apesar das abóbadas em sequência imensa de cachos de ninhos.
os arcos são pedaços de abraços.
contámo-los antes de descansar.


Kollerová via a girl who tried to disappear
734

Intermezzo

Habituei-me a aprender muito contigo, com os teus intervalos de palavras.
Disciplinei-me para compreender os teus silêncios confortáveis, que me fazem entender o quanto os meus silêncios são precisos e preciosos para balizar o meu caos de perturbações. Também de inquietações.
A música é o que de mais aproximado me ocorre, pela combinação de sons e silêncios, organizados em sequências harmoniosas de tempo.
Aqui também é assim: se não me provocasses a interrupção do ruído das letras, o intervalo do barulho de umas letras a chocar contra as outras, eu não descobria tão bem as palavras que ergues com outros sentidos e por isso pertencem a outra ordem gráfica. Por um qualquer efeito de potencial osmótico, mas que eu sei encontrar-se numa dimensão mágica, acirras-me a vontade.
E eu volto, volto sempre.
A cumprir o desejo.
A erguer-me gente, a construir-te em história e a fingir que sei contá-la.

Pelos teus silêncios
também me levas e ganhas
e comoves.

Deslizou suavemente nas águas calmas, indiferente ao rasto que deixava, ele sabia que era a estrela daquela passerelle onde o silêncio se ouvia e sem aplausos continuou tranquilamente, como se o mundo lhe pertencesse por inteiro. | Manu Pereira, in Existe um Olhar
567

Curativo

ensaiei uma tela para o lugar da que perdeste. 
com as ligaduras.

lavei-as bem
estiquei-as ao sol
e pu-las a comer a goma que fiz.

vai servir-te quando descobrires as tintas que também largaste
por aí...
ou talvez estejam distribuídas pelas gavetas do homem do divã...
é que nem sabes daquela bem cremosa com que pintavas o ondulado do lençol negro de seda.
a dos cambiantes. Para evitar a obscuridade, brincavas.

depois de espreitar as gavetas do homem de olhar fundo, quase mau,
(- sabes que ao Dali lhe deu para as pintar, às gavetas? -),
com as ligaduras
ensaiei velas de barcos
para largar
por aí...

Daria Endresen

733

Geometria

tinha tudo para o achar um homem banal. de uma banalidade desinteressante, especificou com gestos minuciosos dos dedos. mas bastou apanhar-lhe um pedaço de ângulo melancólico na flexão do tronco, para o encher de importância.



James Bort

542

da falta de vocabulário

ando à procura do nome daquela película com que entremeias o triste dos meus dias e me proteges,
uma película que é como uma respiração que me agita os poros para saberem que têm vida e a seguir os faz sossegar,
uma película que é como um sopro lançado aos olhos e os faz sorrir,
feita de instante de beijo embrulhado em eternidade.

The anatomy lessons | Laura Makabresku
1 014

e os esquilos?

a manhã pespontada a pensamentos que se estendem como braços para ti.
as palavras e as contas do poeta a lembrarem os desalinhos infantis
de uma brincadeira traçada a jogo de adivinhas no teu lindo lençol de seda negra
e deslindada em folhas brancas.
deslindada em lindas folhas brancas!
tuas e minhas.
um desfecho amparado em sorrisos tem sempre começo dentro.

no tempo pespontado a pensamentos que se estendem como braços para ti
sei melhor que o longe de ti é geografia pura,
em que a porção de acidentes físicos não é relevante para hierarquizar o difícil.

há longe e há distância, sim.
já te tinha dito que o richard bach não sabia tudo
e que era preciso inventar um novo mundo.


Dominique Issermann






531

solidão

seis meses de maturação no fundo do mar
eram setecentas
muito bem alinhadas debaixo das barcas
cinquenta a cinquenta dispostas verticalmente
o circuito de manutenção para as algas
às vezes o meu tempo também estagia muito devagar
como as garrafas no fundo do mar
qual teste à minha profundidade
a temperatura, a corrente, a luminosidade
o meu trio sob averiguação
para ver o que serve melhor o envelhecimento
e fica vago, muito vago
deito o meu vazio...
- qual vazio, se o vazio não existe?
- então será o pleno de indefinição?
cala-te e sai do caminho
... deito o meio vazio no teu lindo lençol de seda negra
e sinto-me menos só com o corpo




Hengki Koentjoro | Série Waterscape (*), nº. 11

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(*) Captured in its various countenances, water poses in these series as an enchanting backdrop to the center stage figures. It roars through the gaps among a group of stoical rocks and it dances around a water temple creating a mystical mist. The combination of the static and the dynamic elements forms a composition with strength of presence that sends the rest of the world fading into the background.
561

Livros

1

Comentários (1)

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davinci

muito bom o seu poetar...