Isabel Pires

Isabel Pires

n. 1964 PT PT

Amar o abismo da descoberta. Sem cair.

n. 1964-01-30, Lisboa

Perfil
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Às vezes basta

às vezes basta
uma palavra
uma flor ou apenas uma pétala
um sorriso
o voo rasante das gaivotas
não sentir e não me importar
uma colher de arroz-doce, mas com a parte da canela
o cheiro a mar
uma pinta na folha
o frio da pedra e o quente de uma respiração
o fumegar do café
importar-me com o teu sentir
o lápis de cor amarelo, para pintar o sol
aqueles teus fios de música que fazem estremecer
uma impressão, mesmo que vaga, de felicidade
o ondulado da seda negra
a lembrança sempre presente de ti

para a vida prosseguir


Mark Power | Paris. Palais Garnier. Stage curtain. February 2004.


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Poemas

153

altar

conto os dias para o dia
em que vais adivinhar que
os sapatos das fitas
sabem a música e sabem de dança, são sapatos carne com muitos saberes e muito sabor a sons e silêncio
o coral
é água, um rio e muitos mares
os pássaros
estão entre o antigo e o moderno, mas voo e cabelos são sempre
o livro
é do reino da luz, com películas a preto e branco, o monocromático que é vida, com corações irrequietos a fazer histórias
quase sem palavras do mundo
que a esperança num novo alfabeto persiste
ou pelo menos nas conjugações com mais tempos
mais que perfeitos
a perpassarem retalhos de veneração dispostos em mesa de luz
 
147

confirmação

sempre me parecera 
que o amor tem movimento de mar
 
a certeza veio 
com os teus olhos limpos
a provocarem marés 

176

Patente

Inventei um truque para
 tirar a tristeza à saudade e transformar a saudade numa certa alegria.
Inventei um truque para
fazer sorrisos nos lábios da saudade.
Soprei o pó da caixinha dos sonhos
levantei a tampa com cuidado
desenrolei as ondas dos olhos
grandes
peguei nas estrelas das meninas
e vesti-as do bem 
que está acima do amor
e no amor.
Quando os olhos
pequenos, estes,
querem deitar-se no chão
as meninas vestidas do bem
amparam-nos nas conchinas das mãos
até ganharem força 
para esculpir as histórias de (a)braços de mar.

173

Receita para o regresso

para voltar a escrever o amor
é preciso cozinhar as letras em banho-maria,
pegar com cuidado
na infância das vogais em busca das consoantes,
misturar bem
até fazer palavras 
que se estendem em cama de seda negra polvilhada a estrelas,
a preencher o vazio de perigo de um grito lindo
que sova a insatisfação dos braços até serem asas
em coordenados de coreografias
a tatuar telas
assinadas com beijos.
 
176

Cacau

a linha de olhar fechado
como um código ou sinal ou sol e lua
para fazer das palavras rabugentas e tristes
braços para brincadeiras boas,
as que têm luz e caminho,
caem em cama macia
e riem no rebordo espelhado
das quadrículas doces
- em claro-escuro
o branco e o negro -
alinhadas com cadências de marés.

Simply complex | Peter Gwisa

250

da criação

invento manhãs de lugares macios
bordados a luz, águas mansas e fios de olhares
como se fossem
flores a beijar a pele
aves famintas a anunciar navios em
misturas de azul e cinza roubado ao negro
que brincam ao arco e lavam as pedras.

desdobram-se sedas
que aconchegam sons
para vestir as manhãs dos sonhos
enquanto o trinado dos pássaros semeia grinaldas de luz.

217

Decoração de interiores

Um ontem igual a muitos
não fora aparecer-me a caixinha dos sonhos
entre o asfalto e os fios alaranjados
que se desprendiam das nuvens do fim da tarde.
A caixinha desceu tão de repente
que até arrancou flocos de algodão entremeados de céu
que a chuva zangada tingira de azul.

Abri a caixinha
juntei mais um sonho ao compartimento dos dias
que se fazem do esperar por ti
acertei o relógio das horas surdas de mundo
e mudei a água à jarra das flores.

Nos corações não foi preciso mexer
que o mar faz-lhes sempre bem
até quando galga as janelas de ver
nos dias que terminam e olho para trás.


Foto: Vadim Stein
265

Breathing

não tenho a certeza
que não vi
se foi com o sorriso em luz, com as palavras curtas ou com uma mão estendida, ou com isso tudo que carregaste e mais aquela tua parte do coração a transpirar bonito,
que te interpuseste
entre os fios puídos e baços dos meus entremeios e as flores do mal

mas
o meu peito fez o movimento de declinação de onda a desfazer-se
e o dia deitou-se na fatia de sol.

251

coordenadas

muito para além das tuas palavras,
é no intervalo delas,
na sedução do que não dizes,
que descubro a luz de todos os verões
para ver o rasto aveludado dos amores imperfeitos
a fazer o chão que me falta.
e falta tanto chão. e casa também.
não é o tempo que falta, é o lugar.
centro fotográfico álvarez bravo | oaxaca de juarez, oaxaca, méxico

318

Prata escovada

do veludo azul-noite
em que a encontrei estendida junto ao cais
ponteada a sorrisos da artista
orgulhosa de erguer a manhã na exuberância do arco
desenhou fios de pérolas
a espirais de luz
que se estenderam pelas águas
até encontrar o redondo da tarde
no arco da timidez
em que baloiçam olhos perdidos
que me levam a ti.

269

Livros

1

Comentários (1)

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davinci

muito bom o seu poetar...