Isabel Pires

Isabel Pires

n. 1964 PT PT

Amar o abismo da descoberta. Sem cair.

n. 1964-01-30, Lisboa

Perfil
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Às vezes basta

às vezes basta
uma palavra
uma flor ou apenas uma pétala
um sorriso
o voo rasante das gaivotas
não sentir e não me importar
uma colher de arroz-doce, mas com a parte da canela
o cheiro a mar
uma pinta na folha
o frio da pedra e o quente de uma respiração
o fumegar do café
importar-me com o teu sentir
o lápis de cor amarelo, para pintar o sol
aqueles teus fios de música que fazem estremecer
uma impressão, mesmo que vaga, de felicidade
o ondulado da seda negra
a lembrança sempre presente de ti

para a vida prosseguir


Mark Power | Paris. Palais Garnier. Stage curtain. February 2004.


Ler poema completo

Poemas

139

Trapézio

O caminho da aceitação tem um limite.
Nem sempre feliz no sentido de amplamente sorridente.
O limite pode ser o estado permanente de quase lágrimas, em que a habilidade é sustê-las.
Porque não se pode andar por aí a provocar inundações. A protecção civil tem mais que fazer.
Porque há que viver o friso de fora.
Quando se toca o limite, e isso entende-se muito bem no friso de dentro, o melhor é segurá-lo.

O mundo anda desvairado para além da guerra. A Matilde já o diz há muito, num poema lindíssimo, em "Fevereiro", mas que serve qualquer mês. "A poesia não salva o mundo. Mas salva o minuto.", ouviu-se na festa de Paraty.
Continuando.
O mundo tem teorias loucas sobre o que se deve sentir. Nem os malucos as percebem.
Uma é igualar a aceitação a fracasso.
Outra é criticar a dificuldade em integrar o que não se pode mudar, ou seja, o continuar na luta.

E tu, e eu... Com um sorriso inacabado, sabemos que após a invenção do chão perdido - não te lembras de dizer que andava à procura de dias com chão? -, sim, após a invenção do chão perdido, os dias passaram a coser-se com fios de ambos os lados. Com fios a formar uma corda oscilante entre os dois pólos. Lutar ou deixar correr com regras, o que não deixa de ser outra luta. Uma corda bamba a que é preciso adaptar os passos de dança. Sempre a conferir o limite entre o amargo e o doce da coreografia.

Há tempos, para caracterizar um estado emotivo, escrevi no caderno que era de quase lágrimas, a expressão que me ocorreu e que me deixou na dúvida se te transmitia tristeza.
Actualmente, que já pensei mais um bom pedaço no assunto, sei que esse quase lágrimas pode ser o limite da estabilidade possível de agarrar num poço de tristeza. Como se fora um lastro de felicidade.

396

A rapariga que gosta de livros

Com alguma frequência leio e oiço relatos de estratégias usadas para motivar para a leitura de livros, sobretudo princípios direccionados para os grupos etários mais jovens.
Mais do que pensar nas formas que melhor servirão para atingir o objectivo, mergulho deliciosamente no meu universo infantil.

Desde que aprendi a ler, subiu-me a vontade de comer palavras amarradas em livros. Uma vontade para a qual ainda hoje não tenho uma explicação, já que no ambiente familiar e no grupo de amigos não havia o hábito de ler com regularidade.
Apesar de não ter uma explicação, sei que houve uma circunstância que serviu para alimentar esse gosto e provavelmente teve uma expressão significativa ao nível da consolidação do meu hábito de leitura. Refiro-me às bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, que, à época, em muitas pequenas localidades do interior, como era a vila onde vivia, funcionavam como o único meio de acesso a livros.

Este serviço foi criado pela Fundação Calouste Gulbenkian em 1958, de acordo com sugestão de Branquinho da Fonseca, e almejava abranger todo o território nacional. Começou com quinze carrinhas cinzentas, da marca Citroën, e teve uma grande expansão logo no início. Por exemplo, em 1961 já havia quarenta e sete veículos a circular, com o serviço gratuito de empréstimo domiciliário de livros. Estas bibliotecas itinerantes funcionaram até 19 de Dezembro de 2002.

A carrinha ia duas vezes por mês à minha terra e ficava estacionada no largo principal cerca de duas horas. Nós, os miúdos inscritos, esperávamos com ansiedade pela nossa vez. Um cartão pequenino numa bolsinha de plástico era o nosso passaporte para o mundo dos livros.
A certa altura comecei a notar que o limite de livros estipulado para o empréstimo domiciliário era escasso para as minhas necessidades. Então, o conservador-bibliotecário - era assim que se designava o "dono" da nossa carrinha - disse-me que como era assídua e não estragava o material, deixava requisitar mais dois livros por quinzena e eu fiquei muito contente. Assim, tinha sempre livros para ler!

Também nessa época, o que pedia pelo Natal e aniversário era livros. Os da "Anita" deslumbravam-me e ficava furiosa quando teimavam em substitui-los por pijamas e meias.

E há um episódio engraçado com livros. Ou melhor: com um livro proibido.
Um dia, em casa, numa gaveta da cristaleira, descobri um livro branco com letras azuis e vermelhas, cuja conjugação resultava em "Método de Ogino-Knaus".
Bom, na minha cabeça de criança funcionou assim: se este livro está separado dos outros, num sítio invulgar e de raro acesso é porque tem alguma coisa de especial. "Será melhor lê-lo", pensei. Sim, nas tardes que passava sozinha dei conta dele. Claro que os meus oito anos, e numa época em que havia menos informação, não permitiram entender nada. Mas aquelas figuras com as trompas de Falópio ainda hoje são desenhos deslumbrantes que habitam a minha memória visual. É que nem sequer imaginava que tinha trompas na barriga! E isto soa-me - sim, soa-me - a muito giro porque a trompa é o instrumento de sopro cujo timbre mais se assemelha à voz humana.
Da primeira vez que o ginecologista me deu uma explicação muito pormenorizada, com o auxílio de uns rabiscos no bloco das receitas, ri-me. "Percebeu o que lhe disse?", perguntou. Disse-lhe que agora sim, que estava perfeito e que sentia as minhas trompas devidamente encaixadas!


Henri Cartier-Bresson

213

Do silêncio

Até há pouco tempo eu desconhecia um tipo de silêncio que julgo ser menos comum. Não sei que nome lhe poderei dar, nem consigo descrevê-lo com exactidão. Será um silêncio que cura?
Exteriormente, o som ou a sua ausência, é muito semelhante àquele quebrar da chávena branca que ontem deixei cair nos ladrilhos da minha sala. Mas pelo interior, não existe a sensação de dor, de perda, como aconteceu em relação à porcelana.
Há cerca de duas semanas dei comigo a pensar no assunto e a sentir algo de bom dentro de mim, apesar do episódio que o desencadeou ter ocorrido há precisamente trezentos e sessenta e um dias.
Os minutos, poucos, entre capotar um carro e a chegada de socorro, recordo-os como sendo de uma grande felicidade. Depois das três voltas, de tanto ruído de equipamento a desintegrar-se pedaço a pedaço, sem espaço para me mover e involuntariamente a fazer o pino, senti que aquele silêncio funcionava como um ponto de ordem em mim. Uma sensação que consegui experimentar outras vezes, embora de modo menos impactante. Que eu tenha consciência não houve regozijo por constatar que fintei a morte - nunca se finta a morte; apenas ilusão - até porque eu não sabia se existiam sequelas graves. Diria que é uma espécie de bem-estar que se arrepia com o movimento em redor, que rejeita as vozes, que não quer abraços com braços, nem sorrisos, mesmo que ternos. Um intervalo que apenas suporta um olhar que não seja invasivo e aceite deitar-se no colo enrugado da alma.
Antes de me aparecer este novo personagem a desafiar os meus neurónios e a querer brincar com o meu coração, eu só navegava em mares com ondas vulgares de silêncio, numa dicotomia excessivamente primária entre o bom e o mau das horas caladas.
Dizia que o mau silêncio era sempre vazio. Quer fosse abafado pelo desprezo e pela indiferença, quer fosse acicatado pela violência.
Dizia que o bom silêncio era sempre cheio. Mesmo que preenchido de um nada. Mas um nada não corrosivo, apenas de descanso e contemplação. O silêncio bom também é feito do fogo do nosso olhar cúmplice, tem o desenho mudo das gargalhadas das crianças, sabe aos corpos suados das nossas tardes de amor, desfaz-se bem dos sons do trabalho e tem a dor dos que amamos.
O meu novo silêncio, aquele que recentemente tomei consciência de também sentir, apesar de me bafejar de aconchego, tem fios perturbadores. Uma perturbação aparentemente inócua. Aparentemente, é o que penso neste momento. Como se fosse uma película inquietante que se assemelha a um friso de barquinhos à vela, muito frescos e envolventes, mas sem definição de rumo.


Silence, 2015 | Cristiano Mascaro

438

Hidrografia do novo ano

Espremi as lágrimas até não sair mais uma gota.
Soprei no lençol que sobrou
até nascer o mar que te ofereço no ondulado de cada página.
As linhas que grafo a tinta preta.
Tinta permanente!

Quando quase nada parece poder ser permanente.
Tal como as ondas de cada um dos sete mares são diferentes,
os dicionários que habitam cada alma têm palavras únicas.
Mesmo que processadas com letras iguais e alinhadas de forma idêntica.

É no intervalo das ondas sopradas que os nossos lábios semeiam o vocabulário do nosso entendimento.
Palavras muito bem torneadas.
Até as que saem da voragem dos ventos que não semeamos.
Para não acolhermos tempestades.

Brindei à poesia que amas.
Brindei à poesia que amamos.
Um livro escrito a meias.
Teu e meu.
Registos esculpidos a cada dia no sexto oceano.
O caudal da nossa hidrografia,
as águas salgadas com o doce que partilhamos.
Telas pintadas a
sorrisos
olhos cintilantes
pele quente
coração que pede
alma que dá.
Telas do nosso refúgio.

É no mar que inventámos,
nas águas roubadas ao lençol das lágrimas espremidas
que contámos à tristeza a nossa decisão:
a de fazer com ela
o navio das viagens felizes.
As nossas.
Sempre.
Quando quase nada parece poder ser permanente.

Carinthiac 1930 | Rudolf Koppitz
388

E se um diário de bordo for uma missiva de amor?

"Escrever-te sem que tu saibas" - É o conceito unificador de um diário de bordo escrito pelo mar báltico, durante oito dias, um texto por dia. As fotos foram feitas durante a mesma viagem e estão associadas aos textos.


#1
Sempre tu

À noite, que ali e nestes dias pouco tem de escuro, sentei-me no deck panorâmico.

Ainda estacionados para receber passageiros, as gaivotas saudavam os novos e subiam para me beijar os pés. 

Até nem foi bem assim. Elas beijavam o reflexo no vidro a ‘pensar’ que me beijavam os pés.

Depois, as gaivotas subiram ao coração e sacudiram os fios da minha memória. 
Queria que estivesses aqui. 
Ficaste do outro lado.
Nem sei se algum dia vais poder estar no lado em que eu estiver. Ao meu lado.
Queria que viesses. 
Não posso pedir. Não devo pedir.
O não dever pedir é mais forte do que o não poder fazê-lo.
Agarrei neste caderno, o das folhas antigas e que diz “Dreams come true”, e escrevi-te. Mas tu não sabes.




2
A eterna preguiça que há no mar

O mar espalmou as horas e distendeu-as.
O mar juntou trinta minutos a cada hora da terra para ter tempo de preguiçar.
O mar armou-se em engraçado e fabricou um relógio só para ele.
O mar enfiou no relógio as horas espalmadas e distendidas.
O mar engoliu o relógio e ficou com uma barriga muito grande.
O mar às vezes tem a barriga tão grande que lhe crescem dobras onduladas.
O mar deixa que eu, e talvez tu se lhe pedires, acrescentemos mais dez minutos a cada hora. Por causa dos batimentos da alma.
O mar não deixa afogar mágoas. Tem boias de salvação.
O mar não engole as mágoas. O relógio deixou-lhe a barriga a abarrotar e não a dar horas.
O mar deixa lavar as mágoas. Até podem ficar a boiar.
O mar devolve-nos as mágoas bem escovadas para as amanharmos melhor.
O mar chateou-se com as minhas mágoas e enfiou-as no meu caderno dos sonhos.
Escrevi-te. Mas tu não sabes.






#3
Tubos

O céu é o que se assemelha mais ao mar.
O céu e o mar são irmãos gémeos. Gémeos falsos.
Nada que tenha a ver com o sexo.
Muito embora o céu tenha anjos.
E tanto se discute acerca do sexo dos anjos.
Já descobriste? Vá, vá, diz-me.
  
A única diferença entre o céu e o mar é o estado do lençol.
No mar, o lençol está sempre encharcado.
No céu, o lençol só deita gotas quando é lavado.

Ao longe, pensei-te piano. Os meus olhos até foram buscar um banquinho em que sentei um pianista a interpretar uma peça.
Juro que ouvi o nocturno em modo diurno.

Na aproximação, vi-te um conjunto de trombetas a apontar para o céu.
Convoquei os anjos para te usarem a preceito.
Meti-me debaixo de ti para averiguar o estado do lençol.
A cada canudo correspondia um retalho.
Acolchoado de algodão, pedaços de linho, tiras de seda.
Acrescentei comprimento aos braços.
Para compensar a dificuldade em pintar-te sorrisos, escrevi frases em cada retalho.
Saí debaixo de ti, alinhei os pedaços no caderno e escrevi-te. Mas tu não sabes.





#4
Do fim

Pensas na morte?
Perguntei-te junto aos túmulos de alabastro.

Não respondeste.
A morte não se diz.
Dizem para aí.
E tu és desses? Vá diz, diz, diz… 
O meu eco abanou os cordões de ouro.
Mortos pintados a ouro… Valem mais, é?
Qual é a cotação do morto em relação ao vivo?
Também não sabes?

Os teus olhos quiseram calar-me com o fogo roubado aos santos.
E calaram.

Voltei costas e escrevi-te sobre a morte.
Tu não sabes que te escrevi?
Ou finges?

Eu digo a morte, sim.
Penso nela todos os dias.
Ou quase.
Penso na minha morte, não na dos outros.
Sempre pela possibilidade de ela estar mais certa para mim.
A imortalidade não deixou sobrar uma nesga para mim.

Foi a noite do mármore.
A pedra fria, branca, muito branca… Conspurcada pelo animal danado.

Estar no fio da navalha muda o referencial da vida para sempre.

É um pressentir estar aqui pela última vez, mesmo sem motivo para descartar a repetição.
O mais seguro é não estar.
É um viver em despedida, sem vislumbre de retorno.
É um sentir vazio de futuro.
É um perceber constante da vida com sofrimento. Porque a vida tem-no sempre. Mais, muito mais, quando não há amor.
E tu não estás, meu amor.

Medo de morrer?
Interroguei-me junto às bochechas rosadas dos anjos.
Não, perdi-o todo de repente.
Ou parece.

Era de noite, estava frio e arrancaram-me tudo.






#5
Ao pôr-do-sol

Desceste enrolado nas gotas de suor que deslizavam sobre a minha pele.

Percebi-te 
nos arrepios bons
nas picadas ligeiras
nas borboletas na barriga (– Essa é de adolescente?! Tens cá uma graça!)
no mareio da competição com a laranja orgulhosa.
Uma laranja inchada, gorda, redonda,
bola que rebola no negrume ondulado.

Irrequietos, profundos, com pinceladas breves de tristeza,
assim são os teus olhos bonitos. 
Ainda mais na noite do fogo, 
reflectidos nas águas doces do mar. 
Sorrimos em modo gigante.

A primeira vez!

E a laranja rabugenta a querer dormir.
Que maçada!

Rabisquei à pressa o nosso desenho, 
para juntar à missiva da garrafa cristalina lançada ao mar.

Já chegaram os traços que grafei?
Tu não sabes que te escrevi, pois não?



#6
Da química

O trabalho e o amor implicam sempre sofrimento. 
Foi o que disse a rapariga dos olhos azuis e pele muito branca, enquanto nos guiava pelo bosque.
Nós aprendemos a lidar com o sofrimento e por isso dissimulamos as emoções. Os homens ainda falam menos sobre o que sentem e por isso sofrem mais.
Continuou a menina-mulher de semblante triste.

Estanquei o coração e quis agarrar-me com força à razão.
Para tentar encontrar algum fio condutor.
Porque, para mim, as mulheres à minha volta pareciam estar dessincronizadas.

Na véspera, a matrona, ao explicar um quadro, dissera sem ponta de hesitação que o pintor foi um homem muito feliz. Ela nunca falou com o pintor, nem trocou correspondência… Ela nem sequer viveu na mesma época do homem.

[E sem que tu visses, rabisquei à pressa estas notas para ti. Não fazias ideia da minha missiva, pois não?]

Os palpites sobre a in|felicidade alheia parecem-me abjectos, por muito frio e cru que tal seja interpretado.

No outro dia, o rapaz de trinta e picos e que de longe alinha palavras cuidadosas e doces, dissera-me que o melhor é evitar-se a paixão por causa do sofrimento que vem a seguir. Julgo que ele não acredita no amor. Tão novo, já viste?

Como se evita a paixão?
E é preferível evitá-la, caso seja possível?
As vezes penso que seria mais fácil não te desejar com esta força avassaladora... Mas não, fazes-me falta.

A rapariga de olhos azuis e pele muito branca encontrou um rapaz. Cumprimentaram-se de forma cúmplice e sorriram. 
A pele dela avermelhou-se.





#7
Apeteces-me

Abri a janela e deixei-te o bilhete que escrevi às escondidas.
Encontraste-o?

Corre, corre!
Vem para a barca.

Deslizaste as mãos pelo meu vestido branco.
Cintaste-me.

Peguei na tua pele e juntei-a à minha pele.
Dão-se bem!
A minha pele com a tua pele.
Deixámo-las brincar às escondidas - tudo às escondidas? - debaixo das pontes.
Tão baixinhas!
Olha a cabeça! - avisavas-me a cada novo buraco.

Sabes que gosto muito de ti?
Sorriste-me com os olhos brilhantes.
Atiro-te para trás.





#8
Nas nuvens

Tudo me parecia muito distante.
Não eram as coisas. Não era um desligar dos procedimentos necessários.
A distância, que eu queria que fosse cada vez maior, era do ruído infindável do caudal de reclamações.
Nada esteve bem. Nada estava bem. Diziam.
Sem que vissem, recolhi-me nos meus pensamentos.
Ou o meu grau de exigência andava pelas ruas da amargura ou aquela mole humana mostrava sinais de ter passado um punhado de dias num campo de concentração. Não para se concentrar, está bom de ver. Naqueles campos à antiga.

Apeteceu-me gritar. Não. Já havia demasiado ruído.
Puxei pelo caderno dos sonhos, aquele em que peguei ao calhas antes de sair de casa, e continuei a registar palavras para ti. Não as viste, eu sei. Um dia... Talvez.

Ali do alto respiro fundo.
Vou para perto de ti. Mais perto, talvez.
Continuo a querer que venhas para o lado em que eu estiver. Para o meu lado.
Sabes que tenho esse sonho muito bem guardado naquela caixinha de que te falei?
De vez em quando vou lá espreitar. Levanto o papel de seda e atiro-te beijos. De volta, sempre os teus olhos bonitos. Irrequietos, profundos, com breves pinceladas de tristeza.





340

Palavras-brilho

pelo jogo das camadas, que caminha da mais superficial para a zona invisível e profunda, percebi o quanto é difícil escrever sobre o brilho, o lado brilhante, a luz. e neste tipo de exercício das camadas lembro-me sempre do belíssimo descascando a cebola de günter grass.
primeiro foi a forma das palavras. a definição do traço, o apuramento das linhas, o rigor do desenho.
depois, quando as palavras já não bastavam na sua forma e daquela forma, vieram as cores, os tais pigmentos escolhidos com devoção, na tentativa de lhes acrescentar vida. também para que as palavras soubessem falar da vida que interessa.
a descrição sobre os movimentos dos peixes no mar até melhorou, mas foi preciso ensaiar muitas mesclas com as aguarelas.
sobre o poema deitado na seda negra, um acidente a comover-me os dias, já não foi assim, que as nuances mais apuradas da pintura também não chegaram e não chegam para o descrever bem. porque é a quantidade de luz que faz a grande diferença. uma diferença tanto maior quanto mais interior e profunda for a camada.
era preciso estudar muito, até porque a luz não é uma onda como aquelas do movimento de mar e nem o microscópio e os tubos do laboratório serviam para a apanhar. talvez abordá-la sob outro prisma... com um prisma colocado em diversas posições.
dias de labuta com feixes de luz a escorrer entre os dedos, a escolher a amplitude mais adequada a cada sílaba de cada palavra, até sair um primeiro esboço do ensaio que contraria a cegueira... para evitar que fique tudo escuro por dentro, o medo que vem de criança...


Helmut Newton
292

Chiaroscuro

O teu silêncio caiu na zona mais-que-perfeita entre a verdade e a dor.
A terra de ninguém, metade medo metade incerteza.
Na guerra é terra temida, aqui é terreno desejado porque necessário.

Era Verão, mas o discurso saiu-me gelado como o sangue das feridas de Inverno.
Tinha ensaiado durante largo tempo as palavras escovadas de sentir.
Bati-lhes com força, até que cada partícula que costuma carregar emoções, se deixasse de brincadeiras, mariquices sentimentais (entendes?!) e se fingisse pedra.

Foi nesse estado de sílabas mortas a construir um túmulo durante dias já a contarem-se em milhares, que decidi alinhar-te as partículas metade pedra, metade gelo.
Deitei-as no lençol de seda e soprei.

As palavras sem carne, reduzidas a ossos, são mais cruas que os exercícios estéticos de depuração.
Essas palavras, as palavras-cadáver, preenchem e definem o que sobra, quando erguidos do caos.

A luz, a sombra, o volume, a profundidade, a forma que se redesenha.


Jean Dieuzaide | Racine de saule, 1969 | Musée Réattu

Jean Dieuzaide | Racine de Saule, 1969 | Musée Réattu



324

|Sus|Penso

Desenhaste-me sorrisos com as palavras que tão bem sabes pintar.
Os meus sorrisos, que não são nada fáceis de arrancar, ganharam comprimento para bater à tua janela. Queria que me ajudasses a fixá-los nos contornos da minha boca. Foi o que te pedi enquanto calçava as meias de que mais gostas. Uma carta que sofre de quebras de tensão e que queria equilibrada com a tua sensibilidade e lucidez.
Não sei o que fizeste aos lápis de cor.
Não sei o que fizeste às aguarelas novas.
Não sei o que fizeste à tela que te comprei.
Temi não poder saber se continuavas a respirar. Temi não poder confirmá-lo.
Não se morre só da carne, dos ossos e do coração que decide parar. Também se morre pelas borboletas que deixaram de voar há duas noites.
Com os dedos, tatuámos um acordo. Nos dias em que quisermos escorrer doçura, abriremos a porta do borboletário. Para que a maior, a belbellita de asas de veludo negro e pintas vermelhas, possa treinar o voo nas entrelinhas do nosso passeio.







365

Gillette

- Tens amarras?
- Não. Acho que não. Porquê?
- Só para saber.
O Inverno estava quase a chegar ao fim, mas o frio pedia lareira.
Estava-se ali muito bem. Eu achei. Nunca me tinha apercebido que gostava tanto do roçar de uma barba de um dia ou dois. Há muito tempo que não tocava em ninguém.
Estava-se ali muito bem. Eu achei mesmo isso.
- Amarras? Julgo que não.
Naquela altura não sabia exactamente ao que te referias, embora eu tivesse a certeza da minha resposta.
- Não és fácil.
Eu até me apetecia e queria mais, mas naquele momento não sabia o que fazer, nem como fazê-lo. Não era que não soubesse da parte técnica da coisa. (Ok, não é que seja uma expert, pronto!) O que eu não sabia era se interiormente estava preparada. Fiquei um bocado paralisada. Obviamente que nessa fase, e depois de ter passado algum tempo, eu começava a pensar em homens e a sentir falta. Mas era ainda um pensamento em bruto porque, parece-me, que só deixa de o ser quando se projecta numa pessoa. Também, tinham passado apenas duas semanas sobre o que me contaste acerca de ti. Além disso, eu ainda estava um bocado aérea com o acidente. Tu até trouxeste o livro da Galán para me animares e disseste que com as madeixas não se notava nada que tinha restado pouco cabelo. Eu sabia que não era verdade, mas gostei que me enganasses sobre os rasgões da pele que doíam muito e o espelho não me deixava esquecer e as nódoas negras da alma que só tu pudeste ver.
Ainda consegui arranjar uma bebida quente que bebemos em silêncio, olhos nos olhos, à espera de tudo e de nada. Só sabíamos que se estava ali muito bem, a querer eternizar os momentos de jasmim que todos os dias roubavas no parque.
Inquietação inquietação... Não me tinha escapado que eras interessante, só que havia muita informação para digerir, percebes?
- Tens amarras?
Eu respondi que não e acabei de dizer que tinha a certeza da resposta.
Será que estaria assim tão segura? Talvez não. É que, para além desse ano e tal, eu já carregava com alguns de fachada. Exactamente o mesmo número de anos que estive sem beijar. O beijo, aquele barómetro que não falha. Beijos à séria, sabes? Os de fugida já não contam para nada.
E assim fui empedernindo por dentro, através de um mundo feito à parte, para preservar aquilo que eu não queria perder em mim. Ilusão. É assim que se começa a perder alguma coisa em nós. Consola perceber que é quase sempre recuperável, se quisermos.
E eu continuava a gostar do roçar da barba de dois dias (ou seria de um?) pela minha cara, que apertássemos as mãos e que as pernas se tocassem.
E continuei a gostar sem conseguir fazer mais nada.
E de noite, sozinha, voltei a gostar e senti pena de ter ficado por ali.
E continuei a pensar até à colcha branca de algodão do dia seguinte. Aí percebi que também gostava do roçar de uma barba desfeita no dia. Naquela altura soube-me muito bem que fosse a meio da tarde, quase em silêncio e muito calmo. Tu até desconfiaste e disseste que te parecia que eu não estava muito a fim. Não foi nada disso. Tu sabes tão bem!
Dessa tarde ficou sempre uma memória muito doce que me faz estremecer e sorrir. Como se fosse ontem ou há vinte anos. Um tempo sem tempo para atrapalhar.

Ainda muito quente, mesmo muito quente, olhou-o de cima e achou-o mais bonito. A pele dourada e a barba de um dia - ou seria de dois? - , dão-lhe um toque especial. A memória de um tempo em que não havia gillettes voltou. E voltou como um clique, sem saber porquê, à medida que lhe passava as mãos pelo tronco nu e sentia o cheiro do jasmim. Se pudesse teria eternizado outra vez esse momento em que, escarrapachada nele, sentiu uma espécie de acalmia que a atirou para uma contemplação entre o tudo e o nada. Quando as palavras, se as houvesse, sobrariam.
Estava-se ali muito bem. Ela achou mesmo isso.
Quis olhá-lo mais devagar, antes de voltar a sentir o roçar da barba de um dia. Não era de dois, pois não?



Helmut Newton

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Comentários (1)

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davinci

muito bom o seu poetar...