Chiaroscuro
o teu silêncio caiu na zona mais-que-perfeita entre a verdade e a dor.
A terra de ninguém, metade medo metade incerteza.
na guerra é terra temida, aqui é terreno desejado porque necessário.
era verão, mas o discurso saiu-me gelado como o sangue das feridas de Inverno.
tinha ensaiado durante largo tempo as palavras escovadas de sentir.
bati-lhes com força, até que cada partícula que costuma carregar emoções, se deixasse de brincadeiras, mariquices sentimentais (entendes?!) e se fingisse pedra.
foi nesse estado de sílabas mortas a construir um túmulo durante dias já a contarem-se em milhares, que decidi alinhar-te as partículas metade pedra, metade gelo.
deitei-as no lençol de seda e soprei.
as palavras sem carne, reduzidas a ossos, são mais cruas que os exercícios estéticos de depuração.
essas palavras, as palavras-cadáver, preenchem e definem o que sobra, quando erguidos do caos.
a luz, a sombra, o volume, a profundidade, a forma que se redesenha.

Jean Dieuzaide | Racine de Saule, 1969 | Musée Réattu
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