Lista de Poemas

Hidrografia do novo ano

Espremi as lágrimas até não sair mais uma gota.
Soprei no lençol que sobrou
até nascer o mar que te ofereço no ondulado de cada página.
As linhas que grafo a tinta preta.
Tinta permanente!

Quando quase nada parece poder ser permanente.
Tal como as ondas de cada um dos sete mares são diferentes,
os dicionários que habitam cada alma têm palavras únicas.
Mesmo que processadas com letras iguais e alinhadas de forma idêntica.

É no intervalo das ondas sopradas que os nossos lábios semeiam o vocabulário do nosso entendimento.
Palavras muito bem torneadas.
Até as que saem da voragem dos ventos que não semeamos.
Para não acolhermos tempestades.

Brindei à poesia que amas.
Brindei à poesia que amamos.
Um livro escrito a meias.
Teu e meu.
Registos esculpidos a cada dia no sexto oceano.
O caudal da nossa hidrografia,
as águas salgadas com o doce que partilhamos.
Telas pintadas a
sorrisos
olhos cintilantes
pele quente
coração que pede
alma que dá.
Telas do nosso refúgio.

É no mar que inventámos,
nas águas roubadas ao lençol das lágrimas espremidas
que contámos à tristeza a nossa decisão:
a de fazer com ela
o navio das viagens felizes.
As nossas.
Sempre.
Quando quase nada parece poder ser permanente.

Carinthiac 1930 | Rudolf Koppitz
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Trapézio

O caminho da aceitação tem um limite.
Nem sempre feliz no sentido de amplamente sorridente.
O limite pode ser o estado permanente de quase lágrimas, em que a habilidade é sustê-las.
Porque não se pode andar por aí a provocar inundações. A protecção civil tem mais que fazer.
Porque há que viver o friso de fora.
Quando se toca o limite, e isso entende-se muito bem no friso de dentro, o melhor é segurá-lo.

O mundo anda desvairado para além da guerra. A Matilde já o diz há muito, num poema lindíssimo, em "Fevereiro", mas que serve qualquer mês. "A poesia não salva o mundo. Mas salva o minuto.", ouviu-se na festa de Paraty.
Continuando.
O mundo tem teorias loucas sobre o que se deve sentir. Nem os malucos as percebem.
Uma é igualar a aceitação a fracasso.
Outra é criticar a dificuldade em integrar o que não se pode mudar, ou seja, o continuar na luta.

E tu, e eu... Com um sorriso inacabado, sabemos que após a invenção do chão perdido - não te lembras de dizer que andava à procura de dias com chão? -, sim, após a invenção do chão perdido, os dias passaram a coser-se com fios de ambos os lados. Com fios a formar uma corda oscilante entre os dois pólos. Lutar ou deixar correr com regras, o que não deixa de ser outra luta. Uma corda bamba a que é preciso adaptar os passos de dança. Sempre a conferir o limite entre o amargo e o doce da coreografia.

Há tempos, para caracterizar um estado emotivo, escrevi no caderno que era de quase lágrimas, a expressão que me ocorreu e que me deixou na dúvida se te transmitia tristeza.
Actualmente, que já pensei mais um bom pedaço no assunto, sei que esse quase lágrimas pode ser o limite da estabilidade possível de agarrar num poço de tristeza. Como se fora um lastro de felicidade.

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Chiaroscuro

O teu silêncio caiu na zona mais-que-perfeita entre a verdade e a dor.
A terra de ninguém, metade medo metade incerteza.
Na guerra é terra temida, aqui é terreno desejado porque necessário.

Era Verão, mas o discurso saiu-me gelado como o sangue das feridas de Inverno.
Tinha ensaiado durante largo tempo as palavras escovadas de sentir.
Bati-lhes com força, até que cada partícula que costuma carregar emoções, se deixasse de brincadeiras, mariquices sentimentais (entendes?!) e se fingisse pedra.

Foi nesse estado de sílabas mortas a construir um túmulo durante dias já a contarem-se em milhares, que decidi alinhar-te as partículas metade pedra, metade gelo.
Deitei-as no lençol de seda e soprei.

As palavras sem carne, reduzidas a ossos, são mais cruas que os exercícios estéticos de depuração.
Essas palavras, as palavras-cadáver, preenchem e definem o que sobra, quando erguidos do caos.

A luz, a sombra, o volume, a profundidade, a forma que se redesenha.


Jean Dieuzaide | Racine de saule, 1969 | Musée Réattu

Jean Dieuzaide | Racine de Saule, 1969 | Musée Réattu



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Gillette

- Tens amarras?
- Não. Acho que não. Porquê?
- Só para saber.
O Inverno estava quase a chegar ao fim, mas o frio pedia lareira.
Estava-se ali muito bem. Eu achei. Nunca me tinha apercebido que gostava tanto do roçar de uma barba de um dia ou dois. Há muito tempo que não tocava em ninguém.
Estava-se ali muito bem. Eu achei mesmo isso.
- Amarras? Julgo que não.
Naquela altura não sabia exactamente ao que te referias, embora eu tivesse a certeza da minha resposta.
- Não és fácil.
Eu até me apetecia e queria mais, mas naquele momento não sabia o que fazer, nem como fazê-lo. Não era que não soubesse da parte técnica da coisa. (Ok, não é que seja uma expert, pronto!) O que eu não sabia era se interiormente estava preparada. Fiquei um bocado paralisada. Obviamente que nessa fase, e depois de ter passado algum tempo, eu começava a pensar em homens e a sentir falta. Mas era ainda um pensamento em bruto porque, parece-me, que só deixa de o ser quando se projecta numa pessoa. Também, tinham passado apenas duas semanas sobre o que me contaste acerca de ti. Além disso, eu ainda estava um bocado aérea com o acidente. Tu até trouxeste o livro da Galán para me animares e disseste que com as madeixas não se notava nada que tinha restado pouco cabelo. Eu sabia que não era verdade, mas gostei que me enganasses sobre os rasgões da pele que doíam muito e o espelho não me deixava esquecer e as nódoas negras da alma que só tu pudeste ver.
Ainda consegui arranjar uma bebida quente que bebemos em silêncio, olhos nos olhos, à espera de tudo e de nada. Só sabíamos que se estava ali muito bem, a querer eternizar os momentos de jasmim que todos os dias roubavas no parque.
Inquietação inquietação... Não me tinha escapado que eras interessante, só que havia muita informação para digerir, percebes?
- Tens amarras?
Eu respondi que não e acabei de dizer que tinha a certeza da resposta.
Será que estaria assim tão segura? Talvez não. É que, para além desse ano e tal, eu já carregava com alguns de fachada. Exactamente o mesmo número de anos que estive sem beijar. O beijo, aquele barómetro que não falha. Beijos à séria, sabes? Os de fugida já não contam para nada.
E assim fui empedernindo por dentro, através de um mundo feito à parte, para preservar aquilo que eu não queria perder em mim. Ilusão. É assim que se começa a perder alguma coisa em nós. Consola perceber que é quase sempre recuperável, se quisermos.
E eu continuava a gostar do roçar da barba de dois dias (ou seria de um?) pela minha cara, que apertássemos as mãos e que as pernas se tocassem.
E continuei a gostar sem conseguir fazer mais nada.
E de noite, sozinha, voltei a gostar e senti pena de ter ficado por ali.
E continuei a pensar até à colcha branca de algodão do dia seguinte. Aí percebi que também gostava do roçar de uma barba desfeita no dia. Naquela altura soube-me muito bem que fosse a meio da tarde, quase em silêncio e muito calmo. Tu até desconfiaste e disseste que te parecia que eu não estava muito a fim. Não foi nada disso. Tu sabes tão bem!
Dessa tarde ficou sempre uma memória muito doce que me faz estremecer e sorrir. Como se fosse ontem ou há vinte anos. Um tempo sem tempo para atrapalhar.

Ainda muito quente, mesmo muito quente, olhou-o de cima e achou-o mais bonito. A pele dourada e a barba de um dia - ou seria de dois? - , dão-lhe um toque especial. A memória de um tempo em que não havia gillettes voltou. E voltou como um clique, sem saber porquê, à medida que lhe passava as mãos pelo tronco nu e sentia o cheiro do jasmim. Se pudesse teria eternizado outra vez esse momento em que, escarrapachada nele, sentiu uma espécie de acalmia que a atirou para uma contemplação entre o tudo e o nada. Quando as palavras, se as houvesse, sobrariam.
Estava-se ali muito bem. Ela achou mesmo isso.
Quis olhá-lo mais devagar, antes de voltar a sentir o roçar da barba de um dia. Não era de dois, pois não?



Helmut Newton

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|Sus|Penso

Desenhaste-me sorrisos com as palavras que tão bem sabes pintar.
Os meus sorrisos, que não são nada fáceis de arrancar, ganharam comprimento para bater à tua janela. Queria que me ajudasses a fixá-los nos contornos da minha boca. Foi o que te pedi enquanto calçava as meias de que mais gostas. Uma carta que sofre de quebras de tensão e que queria equilibrada com a tua sensibilidade e lucidez.
Não sei o que fizeste aos lápis de cor.
Não sei o que fizeste às aguarelas novas.
Não sei o que fizeste à tela que te comprei.
Temi não poder saber se continuavas a respirar. Temi não poder confirmá-lo.
Não se morre só da carne, dos ossos e do coração que decide parar. Também se morre pelas borboletas que deixaram de voar há duas noites.
Com os dedos, tatuámos um acordo. Nos dias em que quisermos escorrer doçura, abriremos a porta do borboletário. Para que a maior, a belbellita de asas de veludo negro e pintas vermelhas, possa treinar o voo nas entrelinhas do nosso passeio.







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Comentários (1)

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davinci

muito bom o seu poetar...