Palavras-brilho
pelo jogo das camadas, que caminha da mais superficial para a zona invisível e profunda, percebi o quanto é difícil escrever sobre o brilho, o lado brilhante, a luz. e neste tipo de exercício das camadas lembro-me sempre do belíssimo descascando a cebola de günter grass.
primeiro foi a forma das palavras. a definição do traço, o apuramento das linhas, o rigor do desenho.
depois, quando as palavras já não bastavam na sua forma e daquela forma, vieram as cores, os tais pigmentos escolhidos com devoção, na tentativa de lhes acrescentar vida. também para que as palavras soubessem falar da vida que interessa.
a descrição sobre os movimentos dos peixes no mar até melhorou, mas foi preciso ensaiar muitas mesclas com as aguarelas.
sobre o poema deitado na seda negra, um acidente a comover-me os dias, já não foi assim, que as nuances mais apuradas da pintura também não chegaram e não chegam para o descrever bem. porque é a quantidade de luz que faz a grande diferença. uma diferença tanto maior quanto mais interior e profunda for a camada.
era preciso estudar muito, até porque a luz não é uma onda como aquelas do movimento de mar e nem o microscópio e os tubos do laboratório serviam para a apanhar. talvez abordá-la sob outro prisma... com um prisma colocado em diversas posições.
dias de labuta com feixes de luz a escorrer entre os dedos, a escolher a amplitude mais adequada a cada sílaba de cada palavra, até sair um primeiro esboço do ensaio que contraria a cegueira... para evitar que fique tudo escuro por dentro, o medo que vem de criança...
Helmut Newton