Equilíbrio
Vou andando por aí. Ou vou andando por aqui. Como preferires: o aí, o aqui...
O que me interessa é dizer-te que essa frase - o vou andando por aí - é a que melhor expressa os meus dias, como algo que se intromete na tecedura das horas que vão escorrendo e engordando até se fazerem dias. Um claro / escuro que nesta zona do planeta não tem grandes diferenças de tempo em cada lado. Tento lembrar-me mais vezes desta circunstância equilibrada da luz que faz dias e noites e transferi-la para a bordadura de seda que está entre o coração e a alma. Sempre me pareceu que a minha alma está sentada próximo do coração. E a tua, por onde anda? Não a deixes cair, fixa o que te digo.
Vou andando por aí, às vezes pé ante pé que nem dás conta, a fazer misturas de luz que me permitam ver a estrada para andar, o mar para navegar, o céu para voar. Sempre com aquela cábula que entalei há um ano nos neurónios, para o caso de falhar o traçado.
Nem sempre corre bem. As pedras e os buracos dos caminhos, a fazer esfoladelas nos joelhos. Os músculos que não obedecem. As zangas das águas e as birras dos céus até largarem raios. Raios que não me partam, nem à película da quietude que estendo na praia e até deixo boiar como um colchão de penas salpicado de pétalas brancas. Exactamente como te disse com a caneta a pintar a folha, naquele dia em que te prometi sentir-te nas tuas coisas, só porque são tuas.
Vou andando por aí...
